Mostrando postagens com marcador bíblia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bíblia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O que é o Batismo com o Espírito Santo no Novo Testamento?



O ASPECTO TEMPORÁRIO DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO
 Prof. Moisés C. Bezerril



Introdução

A questão de grande importância que se deve abordar quanto ao batismo com o Espírito Santo é a sua função na igreja cristã primitiva e o significado teológico da expressão batismo com Espírito Santo para a igreja moderna.

Normalmente as pessoas deixam de perceber que a expressão batismo com o Espírito Santo também aplica-se a dimensões e significados específicos para a era apostólica que não estão mais presentes hoje na igreja. Essa falta de conhecimento sobre o assunto tem feito surgir vários movimentos chamados pentecostais que reivindicam a mesma natureza apostólica do batismo com o Espírito Santo para hoje. Neste trabalho pretendo mostrar que o batismo com o Espírito Santo tem quatro significados teológicos, sendo três deles específicos para a era apostólica e um para os nossos dias. São eles os seguintes:

  1. incluir espiritualmente todos os crentes no corpo de cristo por meio da fé;
  2. capacitar os apóstolos, pelo poder do alto, com credenciais apostólicas;
  3. incluir visivelmente gentios no pacto abraâmico por meio de línguas e profecia;
  4. incluir samaritanos distintamente de todos os outros povos na aliança abraâmica.
Destes quatro significados básicos, o 2, 3 e 4 foram apenas para a era apostólica, não se aplicando mais aos dias de hoje, enquanto o significado 1 é o que a igreja vive hoje em dia. Assim, os significados 2, 3 e 4 correspondem ao aspecto temporário do batismo com o Espírito Santo.


Prolegómenos

O sentido mais amplo do batismo com o Espírito Santo no Novo Testamento é o de confirmar a entrada de estrangeiros como povo de Deus na aliança abraâmica. Como o batismo com o Espírito Santo tem função primária de introduzir espiritualmente indivíduos no corpo de Cristo, um grande problema estaria para acontecer quando judeus e gentios fossem contemplados dentro de uma mesma aliança. Desde os dias do Antigo Testamento, Deus já havia prometido fazer de Abraão uma bênção para “todas as nações” (Gn 12:3). Paulo afirma que essa promessa feita a Abraão, também chamada de bênção de Abraão, era o Espírito prometido. A história registrada em Atos é também a história dos gentios recebendo a bênção de Abraão, o Espírito Santo (Gl 3:14). Deus não permitiu os gentios receberem sozinhos o Espírito da aliança abraâmica porque assim surgiriam duas igrejas primitivas. Como só existe uma aliança feita com Abraão, na qual Deus promete dar do seu Espírito a todas as nações, todos os gentios eleitos teriam que entrar pela mesma porta: os apóstolos judeus. A aliança é judaica, feita com Israel desde muito tempo atrás. Deus não criou outra aliança com gentios, mas a mesma aliança abraâmica é, agora, estendida ao mundo pagão. Essa é a razão por que Felipe (At 8: 4-25), após evangelizar os samaritanos, mesmo constatando que eles já tinham fé em Cristo, ainda assim não pôde conferir-lhe o batismo com o Espírito Santo. Neste caso, a expressão batismo com Espírito Santo ou descida do Espírito Santo aqui nada tem a ver com fé.

Os discípulos convertidos pela pregação de Felipe eram crentes genuínos, pois foram batizados no nome de Jesus (Lucas usa a palavra “somente” porque era incomum o batismo em nome de Jesus desacompanhado do batismo com o Espírito Santo). O batismo com o Espírito Santo dos samaritanos significava simplesmente a confirmação visível da entrada dos samaritanos na aliança abraâmica. Isso eles tiveram que receber dos apóstolos, pois os samaritanos já se consideravam um outro povo pactual de Iavé. Como os apóstolos possuíam apostolicidade dada no momento em que foram batizados com o Espírito Santo, eles representavam a aliança abraâmica estendida aos gentios; mesmo que os samaritanos não fossem gentios, ainda assim eram considerados estrangeiros à promessa. A demora em receber o batismo não foi condicionada a nenhum requisito espiritual que faltava aos crentes samaritanos, mas ao cumprimento histórico do derramamento do Espírito para formar todos os povos (pagãos e judeus) em um único povo. Certamente se os samaritanos tivessem recebido “o batismo” do Espírito Santo sem os apóstolos, teriam se tornado mais uma igreja primitiva samaritana rival da igreja cristã apostólica.

A verdade sobre o batismo com o Espírito Santo requer ser compreendida em duas dimensões de significados: no sentido mais estrito, ele significa introduzir pecadores no corpo de Cristo e, consequentemente, na aliança da graça; no seu sentido mais amplo, tal batismo está relacionado com o credenciamento apostólico e com a sinalização histórica da entrada dos gentios e samaritanos no pacto da graça, outrora feito apenas com o povo de Israel. Assim, para uma melhor compreensão, o tema deve ser abordado em duas grandes seções:

O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO PARA DESCRENTES

A primeira promessa de João Batista do batismo com o Espírito Santo é feita para os filhos perdidos da casa de Israel, que mesmo sendo judeus haviam se desviado do verdadeiro evangelho, (Mt 3:7-12).

Essa promessa também é feita por Pedro aos descrentes em seu primeiro sermão evangelístico, logo após o evento de pentecostes, no qual ele convida os incrédulos judeus ao arrependimento para receberem “o dom” do Espírito Santo, interpretado pelo próprio Pedro como Batismo com o Espírito Santo,( At 11:15-18). Veja também a interpretação do apóstolo João sobre o Batismo com o Espírito Santo e sua relação com a fé (Jo 7:37-39). O batismo é entendido por todos estes escritores bíblicos como algo condicionado unicamente à fé, e nada mais.

Paulo também tem uma concepção de batismo com o Espírito Santo como uma necessidade essencial para os gentios incrédulos entrarem pela fé no corpo de Cristo. Em Atos 19:1-7, ao perguntar se os discípulos de Éfeso tinham recebido o Espírito Santo “quando creram”, o apóstolo entendia que a fé era o único elemento autenticador do Batismo com o Espírito Santo, bem como sua condição. A ausência do Espírito coincidia com a ausência de fé. Essa teologia é confirmada por Pedro em Atos 11:17, pela expressão quando cremos no senhor, quando trata da conversão de um gentio.

Em que sentido, pois, os não crentes são batizados com o Espírito Santo? A resposta a essa pergunta é: em seu sentido ordinário e permanente.

Esse sentido de confirmar a entrada de pecadores na aliança feita com judeus ainda é válido nos nossos dias. Quando uma pessoa ouve o evangelho e se arrepende em fé, ela é introduzida no corpo de Cristo, (1 Co 12:13); recebe o Espírito prometido a Abraão ou batismo com o Espírito Santo (Gl 3:14), tornando-se participante da mesma aliança feita com judeus (At 11:18). Assim, o zambujeiro é enxertado na oliveira boa. Receber o Espírito hoje é confirmado pelos frutos de arrependimento e fé. O batismo com o Espírito Santo é o meio que Deus determinou introduzir os filhos da promessa no pacto da graça (1 Co 12:13). Portanto, quando usamos a expressão batismo com o Espírito Santo estamos falando da nossa regeneração e conversão a Cristo.

Entende-se por esses registros bíblicos que o batismo com o Espírito Santo era a necessidade vital para judeus e gentios incrédulos entrarem no corpo de Cristo por meio da fé. Isso significa que fé e batismo com Espírito Santo coincidem e se confirmam mutuamente. Neste primeiro momento, a função do batismo com o Espírito Santo é introduzir espiritualmente pela fé pecadores no corpo de Cristo (1 Co 12:13) da mesma forma como o batismo com água introduz visivelmente incrédulos na igreja visível.
O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO PARA CRENTES

O batismo com o Espírito Santo não foi uma realidade prometida somente para os incrédulos. Jesus prometeu o batismo com o Espírito Santo aos seus apóstolos, os quais já eram crentes, (cf. Lc 24:49; At 1:2-5). O batismo com Espírito Santo prometido foi experimentado pelos samaritanos que também já eram crentes (At 8:12-13). É claro que a função do batismo com o Espírito Santo para os crentes não era a de introduzi-los no corpo de Cristo pela fé, pois isso já tinha acontecido quando creram. Em que sentido, pois, os apóstolos e os discípulos crentes foram batizados com o Espírito Santo? A essa pergunta podemos responder: em seu sentido extraordinário e temporal, que são:

1) O sentido de conferir apostolicidade aos apóstolos

Neste sentido, Cristo prometeu “poder do alto” aos apóstolos, e não conversão, pois eles já eram crentes. Essa ideia é registrada por Lucas (Lc 24:49) e confirmada por ele como Batismo com o Espírito Santo (At 1:2-5). No desenrolar da história da igreja em Atos, podemos perceber que os apóstolos e os evangelistas que estavam com eles detinham “poder” para realizar prodígios (At 8:4-8), mas somente os apóstolos detinham apostolicidade para “dar o Espírito Santo” tanto a judeus quanto gentios, quer fossem crentes ou incrédulos, (At 8:14-18). É notável que, depois do evento de pentecostes, não existe nenhum episódio de recepção do batismo com o Espírito Santo sem que seja por intermédio dos apóstolos. Os apóstolos eram o canal inicial pelo qual o Espírito tinha que fluir para judeus e gentios. Como fundamento da igreja e depositários da fé da nova aliança, os apóstolos eram o recipiente do batismo com o Espírito Santo que deveriam fundar a igreja de Cristo. Essa apostolicidade pode ser percebida nas credenciais que Paulo reclama para si por meio de sinais, prodígios e poderes (o que faz lembrar as palavras de Jesus “poder do alto”) (2 Co 12:12).

O sentido de apostolicidade não é mais contemplado hoje em dia pela igreja de Cristo. Constitui, pois, um massivo erro o tentar considerar o batismo com o Espírito Santo hoje como “um enchimento de poder”, credencial apostólica prometida somente aos apóstolos (At 1:2-4).
O sentido de validação do chamado histórico dos gentios à aliança abraâmica por meios visíveis das línguas e profecia

É bem verdade que, para que haja inauguração de aliança, é necessário que ela seja confirmada. Quando Deus inaugurou a nova aliança entre os homens, ele começou com os judeus, antigo povo da aliança abraâmica. Dentro dos planos divinos, aprouve a Deus iniciar a nova aliança com judeus e depois estendê-la aos gentios. Se Deus tivesse simplesmente pulado da antiga aliança com os judeus para uma nova aliança com os gentios, os judeus jamais reconheceriam a aliança gentílica como válida. Era necessário, pois, que as cláusulas confirmadoras da aliança judaica fossem as mesmas da aliança gentílica; do contrário, não haveria provas de que a aliança com Abraão era a mesma oferecida ao gentios. Para isso, Deus programou um plano cronológico de pregação do evangelho para validar a nova aliança no meio de dois povos diferentes.

Primeiro, enviou João Batista e Jesus para inaugurar a nova aliança somente com a casa de Israel. Certamente os judeus deveriam experimentar a mesma realidade da nova aliança que os gentios experimentariam mais tarde, com os apóstolos. O fruto do trabalho de Jesus foram apenas doze apóstolos e poucos discípulos. Jesus diz aos apóstolos que o Espírito Santo continuaria a mesma obra que Jesus havia começado, e que não faria nada diferente do que já estava posto por ele (Jo 16:13-15). Os apóstolos apenas dariam continuidade à obra que Jesus começou (pregação do reino) no poder do Espírito Santo. É por essa razão que Deus deu o dom da apostolicidade: eles foram os únicos escolhidos para fundar a igreja de Cristo a partir de dois povos. Mas como provar para judeus e gentios que a aliança feita com gentios era a mesma dos judeus? Como provar para judeus e gentios que o Espírito prometido a Abraão era o mesmo que estava sendo dado a ambos os povos? A reposta a essas perguntas é: por meio de línguas e profecia.

O batismo com o Espírito Santo e línguas

A esta altura, já entendemos que a expressão batismo com Espírito Santo coincide com fé. Onde há fé há o Espírito. Entendemos também que o batismo com Espírito Santo tem mais de uma função na história do cristianismo apostólico. É possível afirmar com dados bíblicos, por enquanto, que todos os que são batizados com o Espírito Santo necessariamente têm fé, mas, ao mesmo tempo, os que têm fé não possuem os mesmos carismas operados pelo batismo com o Espírito Santo, tendo em vista que Deus opera funções múltiplas ao dar o seu Espírito aos crentes. Vejamos a relação das línguas com o Batismo com o Espírito Santo.

Existem apenas três episódios de línguas relacionados com o Batismo com o Espírito Santo. É incorreto considerar as línguas como evidência de tal batismo, tendo em vista que os samaritanos não falaram em línguas (os samaritanos não são gentios, adotavam o Velho Testamento como Escrituras deles). Nesse caso, se as línguas fossem evidência do Espírito prometido a Abraão, os samaritanos continuariam sendo rechaçados pelos judeus, pois não possuíam a evidência do acolhimento no pacto abraãmico. Paulo não ensina em lugar nenhum que línguas são a evidência do batismo, e considera que nem todos possuiriam as línguas (1 Co 12:29-31).

Outra peculiaridade das línguas em Atos é que elas só ocorrem na presença de gentios e judeus. Isso se dá pelo fato das línguas corresponderem a um sinal de inclusão dos gentios na aliança abraâmica. Durante três mil e oitocentos anos, o evangelho só era conhecido na língua de Israel. Por todo este tempo, Deus não houvera se revelado em nenhuma outra língua no mundo. Esse era o sinal de que a aliança abraâmica, por enquanto, só contemplava judeus (Rm 9:1-5). O evangelho só veio a ser universalizado a partir de pentecostes, quando idiomas gentílicos (dialekto) foram contemplados com a palavra inspirada (profecia) que, até então, o Espírito de Deus só dava à aliança feita com Israel. Com a universalização do evangelho, todas as cláusulas da antiga aliança deveriam ser entregues nas línguas dos gentios, como o Espírito fazia no Antigo Testamento (“assim diz o Senhor”). Essa mesma fórmula é encontrada no dia de Pentecostes, quando Lucas escreve “passaram a falar noutras línguas conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. Os gentios agora tinham os oráculos de Deus em suas próprias línguas. Israel tinha perdido o monopólio da revelação. Deus agora se revela aos gentios em suas línguas.

Quando o batismo com o Espírito Santo ocorre acompanhado de línguas no Novo Testamento, representa duas verdades novas para os dias na nova aliança: primeiro, é que pelo batismo, os gentios estão entrando na aliança abraâmica; segundo, é que as línguas confirmam que a revelação agora é compartilhada com outras nações – o evangelho não pertence mais a Israel. Deus está tão interessado em outros povos que o Espírito dá a revelação em outras línguas. Essa é a razão porque em um livro tão vasto de história da igreja as línguas acontecem tão pouco. O propósito das línguas, então, era apenas o de confirmar visivelmente a entrada dos gentios na nova aliança. Quando os judeus vissem gentios em variedade de línguas falando “as grandezas de Deus”, que outrora só pertenciam a Israel, logo ficariam convencidos de que “também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida” (At 11:18). Essa confirmação por meio de línguas não era apenas para judeus; todos os gentios deveriam descansar na evidência das línguas que Deus não tem mais uma única nação contemplada como seu povo. As línguas confirmam que o batismo com o Espírito Santo é a entrada de todas as nações no pacto da Graça. As línguas constituem, assim, um sinal de bênção para os gentios, mas ao mesmo tempo um sinal de maldição para Israel, pois esse antigo povo do pacto perdeu o direito de povo exclusivo da aliança.

Uma peculiaridade que ainda devemos levantar sobre as línguas é que sendo o seu nome “variedade de línguas” (1Co 12:10), no livro de Atos não há interpretação das mesmas, enquanto que na igreja de Corinto era proibido o uso de línguas sem interpretação, (1 Co 14:28). A pergunta que normalmente é feita é, por que em Atos as línguas funcionam sem interpretação, e em Corinto tem que haver intérprete? A resposta é que fora da igreja as línguas constituem um divisor de águas. No dia de Pentecostes, as línguas não foram entendidas por todos; alguns acharam que os discípulos estavam bêbados, ou seja, não entendiam as línguas faladas por eles. Quando as línguas não são entendidas é porque tais pessoas estão sendo preteridas (rejeitadas) pela graça. Jesus deixou muito claro que o fato das pessoas não entender suas parábolas era porque “… a estes não é dado conhecer os mistérios do reino” (Mt 13:11). Essa é a natureza primária do dom de línguas: sinal para os incrédulos (1 Co 14:22). Paulo refere-se ao cativeiro dos judeus incrédulos no Antigo Testamento, que foram arrastados à prisão por um povo de “língua estranha”, e usa esse exemplo histórico como princípio para falar da natureza das línguas não interpretadas. Isso significa que o uso de línguas sem interpretação é o mesmo que maldição para os que ouvem, pois ouvir sem entender é ser rejeitado pela graça. Como a igreja é a reunião dos escolhidos, seria uma contradição o uso de um dom que sinalizava a condenação da própria igreja. Línguas como sinal de maldição para incrédulos não deveria ser usado na igreja, a não ser que fossem interpretadas e transformadas em ensino, profecia, revelação ou conhecimento (1 Co 14;6).

O Batismo com o Espírito Santo e profecia

A profecia só é encontrada explicitamente relacionada ao batismo com o Espírito Santo em Atos 19:1-5. Podemos deduzir léxicamente que em Atos 2:4, a ideia de profecia também está presente na expressão “conforme o Espírito concedia que falassem”. Este último verbo – “falar” – é a tradução da palavra grega “falar inspirado”, o que indubitavelmente corresponderia à profecia; o que os discípulos falaram em outras línguas era exatamente aquilo que o Espírito falava. Somente em Atos 10:46 não há nenhuma indicação clara de profecia acompanhando o batismo com o Espírito Santo; encontramos apenas a vaga expressão de que eles engrandeciam a Deus. Mas, à luz dos outros textos citados, e levando-se em conta que Cornélio era gentio, podemos supor que ali também aconteceu um fenômeno profético. Por que então o batismo com o Espírito Santo era acompanhado de profecia? A resposta para essa pergunta tem a ver também com a resposta dada às línguas: a profecia era elemento de confirmação de que a aliança inaugurada entre os gentios tinha o mesmo valor da antiga aliança abraâmica inaugurada com judeus.

O apóstolo Paulo reconhece que a revelação da glória, das alianças, da legislação, do culto e das promessas, só foi dada a Israel; nenhum povo além de Israel recebeu qualquer luz da revelação divina informada dentro de um pacto. Incrivelmente o contrário estava acontecendo em Pentecostes: uma aliança é inaugurada com povos que não eram povo de Deus. Como seria possível provar para judeus e gentios que aquela aliança era genuína como foi com os filhos de Abraão no Antigo Testamento? Tal aliança só seria levada em conta se os apóstolos, judeus e gentios, pudessem ver Deus se revelando aos gentios por meio da profecia, pois profecia era o canal de comunicação das cláusulas de todas as alianças que Deus já fez com o homem. É exatamente isso que aconteceu com Pedro, o apóstolo que tinha dúvida da validade da aliança com os gentios. Pedro tinha dificuldade em acreditar que Deus tinha chamado gentios à aliança abraâmica. Somente depois de constatar que Cornélio (gentio) participou do mesmo fenômeno profético de Pentecoste, foi que ele afirmou: “… quem era eu para que pudesse resistir a Deus” (At 11;15-18). Portanto, para um judeu, o falar profeticamente constitui elemento pactual conhecido apenas de Israel. Se a nova aliança feita com gentios contém os mesmos elementos pactuais que antes foram dados apenas a Israel, isso é sinal de que Deus ampliou, de fato, sua graça. Ninguém pode negar. Essa é a razão pela qual na inauguração da nova aliança a profecia foi dada em línguas gentílicas (At 2) e os gentios profetizaram (At 10 e 19). A prova incontestável para o mundo inteiro de que Deus expandiu sua graça de Israel para todas as nações é que os gentios experimentaram daquilo que era privilégio apenas da nação judaica. As línguas e a profecia estão registradas acompanhando o batismo com o Espírito Santo para provar que a entrada para o céu não pertence mais a um povinho do oriente médio, e sim que a graça de Deus agora é sem fronteira.

3) O SENTIDO DE INTRODUZIR OS SAMARITANOS NA ALIANÇA ABRAÂMICA

De todas as ocorrências do Batismo com o Espírito Santo, o caso dos samaritanos é a mais distinta. O primeiro problema com os samaritanos é que o Batismo com o Espírito Santo em Samaria não significou credenciamento apostólico, nem confirmação de inclusão gentílica no pacto abraâmico, nem mesmo conversão. Os samaritanos creram no evangelho, receberam o Espírito regenerador, mas tiveram que esperar pelos apóstolos para serem batizados com o Espírito Santo no sentido de serem introduzidos historicamente no pacto abraâmico. Curiosamente, os samaritanos não falaram línguas e nem profetizaram porque eles não eram gentios, apenas estrangeiros. Como vimos anteriormente, línguas e profecia acompanham historicamente o batismo com o Espírito Santo apenas dos gentios nos únicos casos de Atos 2, 10 e 19.

Alguns sugerem que o sinal visível do batismo com o Espírito Santo entre os samaritanos (Atos 8) teria sido o fenômeno das línguas ou profecia. Essa ideia deve ser rejeitada por dois motivos: quanto às línguas, não pode ser porque os samaritanos não são gentios, mas judeus mistos (2 Rs 17:24-41), que continuaram com práticas judaicas misturadas a crendices pagãs. Durante toda a história eles aparecem reivindicando sangue judeu e a aliança abraâmica ainda foi lembrada por Deus em favor deles. Já no Novo Testamento eles receberam de Jesus a mesma atenção e tratamento dado aos judeus, inclusive estendendo seu ministério entre os samaritanos (Lc 10:29-37; 17:16-18; Jô 4:1-42); o mesmo não aconteceu aos gentios, (Mt 15:21-28), pois esses só tiveram contato com o evangelho depois da confirmação da aliança abraâmica no dia de Pentecostes. Jesus não considerou os samaritanos como gentios, pois os usou como exemplo para os judeus (Lc 10:29-37) e os chamou de “estrangeiros” (Lc 17:18), e não de cachorrinhos. Quanto à profecia, é impossível porque os samaritanos dos tempos de Jesus não diferiam dos judeus quanto aos grandes temas teológicos dos israelitas, identificando-se especialmente com os saduceus. Eles esperavam o Messias (Jo 4:25) e possuíam o Pentateuco Samaritano; a única diferença era que eles não partilhavam dos escritos proféticos. Sendo assim, o batismo com o Espírito Santo não precisaria confirmar que Deus estava dando aos samaritanos suas verdades reveladas que dera aos judeus, pois eles já possuíam desde há muito tempo.

Como, pois, confirmar a entrada de um povo que não é gentio na aliança abraâmica? A resposta é que ninguém sabe qual foi o elemento visível comprobatório de que eles foram batizados com o Espírito Santo a ponto de ser notado por todos os que estavam ali naquele dia. A verdade é que Deus usou um outro sinal visível que sinalizou para judeus e samaritanos que o pacto abraâmico foi estendido a eles também. Isso torna a entrada dos samaritanos no pacto distintamente dos gentios.

Conclusão

O batismo com o Espírito Santo para crentes não existe mais. A função do batismo com o Espírito Santo que vai além de introduzir incrédulos pela fé no pacto da graça não cabe no cenário eclesiástico moderno. O batismo com o Espírito Santo de pessoas crentes foi um marco na história da redenção e do cristianismo apostólico, que tinha em vista registrar na Palavra de Deus a verdade de que a promessa abraâmica foi cumprida, e que hoje todos os povos são bem vindos à graça de Deus.


por Moisés Bezerril
Fonte: BÍBLIA, LÍNGUA E LITERATURA

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Será o Senhor Jesus uma cópia de Hórus?


Não será a História Bíblica acerca do Senhor Jesus uma cópia de mitologia egípcia, nomeadamente, a história de Horus?

Dificilmente. O livro de Acharya S. “The Christ Conspiracy” é a aparente fonte da lista em baixo descrita, mas a autora apenas oferece evidências referenciais para cinco das suas alegações. Alguns dos apontamentos de rodapé contradizem com as suas próprias alegações! Mas isto é o que seria de esperar; quando alguém rejeita a visão Bíblica do mundo ela fica com um mundo irracional.

Eis aqui algumas das alegações acerca dos “paralelos” entre o Senhor Jesus e Horus e outros deuses.

1) Hórus nasceu de uma virgem com o nome de Isis-Meri a 25 de Dezembro, numa cave/manjedoura, e o seu nascimento foi anunciado por uma estrela no Oriente, vista por 3 sábios.

Primeiro, a mãe de Hórus não era virgem. Ela era casada com Osíris e não há razão para se supor que ela se absteve depois de casada. De acordo com a sua historia, Hórus foi miraculosamente concebido. Seth tinha morto e desmembrado Osíris, mas Isis voltou a reconstruir o corpo dele, e seguidamente teve relações com ele. Em algumas versões, ela usou um órgão sexual masculino feito à mão porque não conseguiu encontrar essa parte do corpo do marido. Portanto, embora tenha sido uma concepção milagrosa, não foi uma concepção análoga à Incarnação do Senhor Jesus.

Segundo, foram assinaladas 3 datas de nascimento na mitologia de Horus, sendo que uma delas é a 25 de Dezembro. Como a Bíblia não diz que o Senhor nasceu a 25 de Dezembro, não há nenhum paralelo.

Terceiro, “Meri” (“Mr-ee”) é a palavra egípcia para “amada” e aparentemente foi aplicada a Isis antes do tempo do Senhor Jesus como um título e não como parte do seu nome. Mas como provavelmente havia milhares de mulheres entre o tempo de Hórus e altura do Senhor com um nome ou título que era uma variação de “Mary”, não há razão alguma para se supor que a Mãe do Senhor Jesus foi nomeada segundo o nome de Isis em particular. Mesmo que, hipoteticamente, os autores dos Evangelho tivessem fabricado a Mãe do Senhor e a tivessem dado o nome de “Mary” (Maria), é muito mais provável que eles se baseassem numa “Mary” mais perto do seu tempo do que na “Isis-Meri”.

Quarto, Hórus nasceu num pântano e não numa caverna/manjedoura.

Quinto, o nascimento de Hórus não foi anunciado por nenhuma estrela no Oriente.

Sexto, não havia “três sábios” aquando do nascimento de Horus, e nem aquando do nascimento do Senhor Jesus. A Bíblia não diz o número de sábios, e nem diz que eles estavam presentes na altura do Seu Nascimento. Além disso, eles só viram o Senhor quando Ele estava na Sua casa e não na manjedoura (e isto quando Ele já tinha cerca de 2 anos).

2) O seu pai terrestre era chamado de “Seb” (“Joseph” – “José”).

Não há nenhum paralelo entre o nome Egípcio “Seb” e o Hebraico “Joseph” para além do facto de serem nomes comuns. Para além disso, Seb era o pai de Osíris e não de Hórus.

3) Ele era de descendência real.

Isto é verdade, mas não é uma comparação com o Senhor Jesus. Quando os cristãos dizem que o Senhor é de descendência real, eles tem em mente o fato de Ele ser da linhagem do Rei David, um rei terreno (Apocalipse 22:16). De acordo com o mito, Hórus descendia de realeza celestial uma vez que era o filho do deus principal.

4) Quando tinha 12 anos, Horus foi um professor-criança no Templo, e aos 30 anos ele foi baptizado, havendo desaparecido durante cerca de 18 anos.

Ele nunca ensinou em templo algum, e nunca foi batizado. Além disso, o Senhor não “desapareceu” durante anos (dos 12 aos 30). Ele trabalhou durante esse tempo como Carpinteiro.

5) Hórus foi batizado no rio Eridanus ou Iarutana (Jordão) por “Anup o Batizador” (“João o Batista”), que foi mais tarde decapitado.

Mais uma vez, Hórus nunca foi batizado. Não existe um “Anup o Batizador” na história.

6) Ele teve 12 discípulos, dois dos quais eram suas “testemunhas” e eram chamados de “Anup” e “Aan” (os dois “João”).

Hórus teve 4 discípulos (chamados de ‘Heru-Shemsu’). Há outra referência para 16 seguidores e um grupo de seguidores chamados de ‘mesnui’ (ferreiros) que se juntaram a Hórus em batalha, mas eles nunca são numerados. Não há nenhuma referência aos 12 discípulos ou referência a algum deles ser chamado de “Anup” ou “Aan”.

7) Hórus executou milagres, exorcizou demônios e ressuscitou El-Azarus (“El-Osiris”) dos mortos.

A história dele conta, de fato, que ele executou milagres, mas nunca chegou a exorcizar demônios nem a ressuscitar o seu pai dos mortos. Além disso, Osíris nunca referenciado como ‘El-Azarus’ ou ‘El-Osiris’ (claramente uma tentativa de fazer o seu nome assemelhar-se ao Lázaro da Bíblia).

8. Hórus andou sobre a água.

Não, ele não andou.

9) O seu título especial era “Iusa” o “sempre-tornante filho” de “Ptah”, o “pai.” Ele era como tal chamado de “Criança Sagrada.”

Hórus nunca foi chamado de “Iusa” (nem há alguém na história Egípcia que alguma vez tenha sido chamado “Iusa” – essa palavra não existe) nem “Criança Sagrada”.

10) Ele fez um “Sermão na Montanha” e os seus seguidores recontaram os “Ditados de Iusa.

Hórus nunca fez um tal sermão, e, como dito em cima, ele nunca foi referido como “Iusa”.

11) Hórus transfigurou-se na montanha.

Não, ele não se transfigurou na montanha ou em lugar algum.

12) Hórus foi crucificado entre dois ladrões, enterrado durante 3 dias, e mais tarde ressuscitou.

Hórus nunca foi crucificado. Há uma história não oficial na qual ele morre e é atirado em pedaços para a água, sendo que mais tarde ele é pescado por um crocodilo a pedido de Isis. Esta história não oficial é a única em que ele morre.

13) Ele era também o “Caminho, a Verdade, a Luz”, “Messias”, “O Filho Ungido de Deus”, o “Filho do Homem”, o “Bom Pastor”, o “Cordeiro de Deus”, a “Palavra feita Carne”, a “Palavra da Verdade”, etc.

Os únicos títulos que foram atribuídos a Hórus foram “Grande Deus”, “Comandante dos Poderes”, e “Vingador do Seu Pai”. Nenhum dos títulos listados em cima aparece na mitologia Egípcia.

14) Ele era o “Pescador” e estava associado com o Peixe (“Ichthys”), Cordeiro e Leão.

Ele nunca foi referido como “o pescador” e não há nenhum cordeiro ou leão na história. As notas de rodapé de Acharya S. acerca desta alegação mostram uma associação com o peixe (isto é, que Hórus ERA UM PEIXE, ao contrário do Senhor Jesus), sem evidência alguma de ele alguma vez ser chamado de o “pescador” ou tendo alguma associação com o cordeiro ou o leão.

15) Ele veio para completar a Lei.

Não havia “lei” alguma que ele fosse suposto “completar”.

16) Hórus foi chamado de “o KRST” ou o “Ungido”.

Ele nunca foi chamado por nenhum desses títulos. “Krst” em Egípcio significa “enterro”. Não era um título.

17) Tal como Jesus, “Era suposto Hórus reinar durante mil anos”.

Não há menção disto na mitologia Egípcia.


Links:


Sinceramente, é difícil não ler algumas das alegações dos cépticos sem soltar uma gargalhada. Algumas das acusações são tão obviamente fabricadas que é difícil acreditar que alguém as possa inventar e muito menos levá-las a sério. Mas para quem acredita que répteis evoluíram para pássaros, acreditar que o Senhor Jesus Cristo é “uma Cópia de mitos pagãos” não é algo fora do normal.

Tal como dito em cima, quando alguém abandona a visão Bíblica do mundo fica com um mundo irracional.



Fonte: https://darwinismo.wordpress.com

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Reino Milenar



Por Rev. Leandro Lima


No momento da vinda de Jesus, ele estabelecerá um reino de mil anos ou o reino eterno? Esse assunto divide os cristãos evangélicos. Nenhum assunto é tão controvertido em teologia do que o Milênio, e nenhum texto causa mais discussão do que Apocalipse 20.1-10.

Entraremos nessa discussão acalorada, porém, não querendo aqui imprimir uma posição intransigente, e até quase fanática, sobre um assunto que diz respeito ao futuro, e do qual ninguém tem certeza absoluta. Há tanta controvérsia sobre este assunto que talvez não consigamos achar duas pessoas que pensem exatamente igual sobre a questão. Há tanta especulação também, que faz com que seja um dos assuntos mais ingratos a se tratar em escatologia.

Trataremos do assunto como precisa ser tratado, ou seja, abordando as principais visões, e emitindo algumas opiniões sobre cada uma delas, e até mesmo assumindo uma posição. No entanto, entendemos que é um assunto que não deveria dividir os cristãos. No final, todos creem que Jesus virá e estabelecerá um reino eterno. A esperança deste reino não deve diminuir, quer exista um reino intermediário, quer não.

Correntes Milenistas

Há basicamente quatro posições em relação ao milênio. São elas: Amilenismo, Pós-Milenismo, Pré-Milenismo Histórico e Pré-Milenismo Dispensacionalista.

O termo “Amilenismo”, como diz Hoekema, “não é muito feliz”[1], porque sugere que não exista um Milênio. Os amilenistas acreditam no milênio de Apocalipse 20, porém, não acham que diga respeito a um reino de mil anos literais que Cristo estabelecerá na terra depois da sua vinda. O Amilenismo entende que o milênio de Apocalipse 20 já está em atividade nesse momento, pois começou com a primeira vinda de Jesus e terminará na segunda vinda com a instauração dos novos céus e nova terra. Por isso, para o Amilenismo, o Milênio não é literal, mas espiritual.

O Pós-Milenismo defende que o Milênio também é antes da segunda vinda, porém, acha que será um tempo de prosperidade e paz advinda da pregação do Evangelho em todo o mundo. Para o Pós-Milenismo, o mundo ser tornará gradativamente um lugar muito bom, onde o mal será reduzido ao mínimo e as nações cooperarão entre si, cristianizando o mundo todo. No final desta era gloriosa, Satanás será solto, e então, Jesus voltará e o destruirá.

O Pré-Milenismo Histórico interpreta literalmente o texto de Apocalipse 20.1-10, e entende que o Milênio será estabelecido na segunda vinda de Jesus, e será um reino de mil anos sobre a terra, onde o Senhor regerá as nações com cetro de ferro, minimizará o mal existente, e estabelecerá uma era de ouro, reinando a partir de Jerusalém. Ao final do Milênio Satanás será solto e convencerá as nações a fazerem guerra contra Jerusalém. Então, descerá fogo do céu e consumirá as nações rebeldes. Em seguida o Senhor estabelecerá o Juízo e o tempo eterno.

O Pré-Milenismo Dispensacionalista se parece com o Pré-Milenismo Histórico em sua expectativa por um milênio futuro e literal, porém, se difere em detalhes específicos. O Dispensacionalismo distingue pelo menos duas vindas de Jesus, a primeira para o arrebatamento dos salvos, e a segunda depois de sete anos de tribulação para o estabelecimento do Milênio. No Dispensacionalismo há um tratamento diferente entre a igreja e Israel. Mesmo no Milênio estes dois grupos serão distinguidos. O Dispensacionalismo entende que a igreja é uma espécie de parêntesis na história de Deus com Israel. Na primeira vinda de Jesus, o Evangelho foi oferecido aos judeus, mas como eles o rejeitaram, Deus o ofereceu aos gentios e formou a igreja, porém no fim, voltará a tratar com Israel. Uma das características principais do Pré-Milenismo, seja Histórico ou Dispensacionalista é a interpretação literal das passagens do Antigo Testamento sobre a restauração de Israel, e também do livro do Apocalipse.

O seguinte quadro nos ajuda a entender as diferenças entre esses quatro sistemas[2]:


Todas as quatro posições acima têm encontrado defensores capacitados, e qual é a verdadeira é uma coisa que só saberemos depois da vinda de Jesus. De qualquer forma, o que pode ser dito brevemente sobre cada uma delas é que o Pós-Milenismo que esteve muito em voga nos séculos passados, depois das guerras mundiais e do avanço da fome e das doenças pelo mundo, caiu em descrédito, uma vez que a sonhada prosperidade parece estar muito longe. O Pré-Milenismo Dispensacionalista é bastante recente, e bastante complicado de se explicar. O maior problema dele é a distinção radical que faz entre Israel e igreja, dividindo a volta de Jesus e a ressurreição em duas ou três etapas. O Pré-Milenismo Histórico é mais sóbrio em sua visão, entendendo que haverá apenas uma vinda de Jesus. O problema desse sistema é o excesso de literalismo. O Amilenismo é, na nossa opinião, o que faz mais justiça ao ensino bíblico.

O Aprisionamento de Satanás

O texto de Apocalipse 20.1-3 descreve o aprisionamento de Satanás. O texto diz:“Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo”. Primeiramente devemos lembrar que este texto foi escrito para cristãos no primeiro século. O que significava para eles? Significava que as coisas não eram como pareciam ser. Enquanto os cristãos morriam diariamente nos circos e anfiteatros romanos, parecia realmente que Satanás estava vencendo, mas João escreve para mostrar que as coisas não são bem assim, elas não são o que parecem ser.

O valente amarrado[3]

Para entendermos o significado de Apocalipse 20.1-3, precisamos voltar ao início do ministério de Jesus. Os fariseus acusavam Jesus de expulsar demônios com o poder do próprio Satanás, por isso Jesus respondeu: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa”(Mt 12.29). A palavra “amarrar” aqui é exatamente a mesma na língua grega usada em Apocalipse 20.2 para “segurar”.

Esta tarefa de “amarrar” ou “segurar” Satanás começou na primeira vinda de Cristo. Quando Jesus enviou os 70 discípulos para pregar o Evangelho, eles voltaram radiantes porque até os demônios lhe eram submissos, então Jesus disse: “Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18). Note que a queda de Satanás é associada à pregação do Evangelho. Do mesmo modo, quando alguns gregos vieram para conversar com Jesus, ele disse: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Jo 12.31-32).

É preciso notar que a palavra “expulsar” no texto grego é exatamente a mesma de Apocalipse 20.3 onde é traduzida como “lançou”. O mais importante, porém, é que com a morte de Cristo e a expulsão de Satanás, Jesus disse que atrairia a si todos os homens. Não apenas judeus, mas também gregos, romanos, chineses, portugueses, brasileiros, etc. Até a primeira vinda de Jesus, apenas Israel conhecia o Senhor, sendo que Satanás prendia as demais nações em ignorância praticamente absoluta.

Mas, com a vinda do Senhor, o poder do diabo foi drasticamente limitado e ele agora já não pode mais enganar as nações, pois não pode impedir a pregação do Evangelho em toda a terra[4]. A única restrição ao Diabo em Apocalipse 20.3 é que ele não pode mais enganar as nações, portanto, o amilenismo entende que Apocalipse 20.1-3 narra, não uma prisão futura de Satanás, mas a restrição que Deus impôs sobre ele com a primeira vinda e Jesus. Foi graças a este aprisionamento que alguns simples galileus do primeiro século, em algumas décadas, conseguiram levar o Evangelho a todo o mundo civilizado.

Hoje, não há um único país que não tenha algum missionário e muitos convertidos ao cristianismo. A Bíblia já foi traduzida em mais de mil línguas. Portanto, o milênio do Apocalipse 20 é a realidade do mundo atual. Ele começou com a primeira vinda de Cristo. Os 1000 anos do capítulo 20 correspondem aos 1260 dias das outras partes do livro, ou seja, o total de anos da dispensação cristã, e é apenas um número simbólico.

Alguém pode dizer: mas como Satanás está amarrado se o mundo está desse jeito? ele está amarrado, mas não completamente impossibilitado de atuar. O que ele não pode fazer, segundo Apocalipse 20.3 é enganar as nações. É dito que após o fim do Milênio ele reúne as nações para pelejar contra a igreja (Ap 20.8). No tempo presente, ele não consegue fazer esse tipo de movimentação de nações contra o povo de Deus[5], até porque, há nações que ainda são cristãs. Além disso, deve ser verificado que nosso Senhor e os Apóstolos empregaram palavras ainda mais fortes do que “prender” ou “expulsar” para descrever a derrota de Satanás que já aconteceu.

Além dos textos que já vimos acima, podemos citar Hebreus 2.14: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele (Jesus), igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”. Este texto está dizendo que Jesus destruiu Satanás com sua morte. Esta é uma expressão bem mais forte do que “prender” ou “lançar no abismo”. Diante deste texto, alguém pode negar que Satanás já está destruído? Mas então como ele continua agindo? ele está destruído porque já não tem qualquer chance de vitória.

Colossenses 2.15 também deixa bem claro que Satanás está totalmente derrotado: “E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz”. A linguagem deste texto é militar. Paulo está comparando o que Jesus fez com Satanás e suas hostes, com o que os exércitos romanos faziam com os vencidos. Naquele tempo, quando um exército vencia o outro, os perdedores eram despojados de todos os seus bens, e às vezes até das próprias roupas. Em seguida eram amarrados e obrigados a desfilar pelas ruas, numa humilhação pública. Jesus despojou Satanás e o humilhou perante todos com sua morte e ressurreição. Portanto, a expressão “prendeu por mil anos” pode significar perfeitamente a obra que Jesus realizou na cruz contra Satanás.

Sequência não-cronológica

Os Pré-Milenistas interpretam o texto de Apocalipse 20 como acontecendo depois da volta de Jesus, porque entendem que o capítulo 20 segue cronologicamente o capítulo 19. Porém, o Apocalipse não é um livro que deva ser lido em ordem cronológica. Narrando coisas que dizem respeito ao fim, João freqüentemente volta aos primórdios do Evangelho a fim de dar o entendimento global da batalha do mal contra o bem.

Ao chegarmos no capítulo 20 do Apocalipse, já fomos informados como praticamente todos os inimigos de Cristo encontrarão o seu fim. Mas, ainda resta um, o pior de todos, Satanás. Sua derrota já foi decretada e anunciada (12.12), mas não foi ainda explicada, pois João deixou esta explicação para o final. João já disse que Satanás perdeu seu lugar no céu, após a batalha com Miguel (Ap 12). O que ele está fazendo no capítulo 20 é demonstrar como foi realmente essa derrota.

Não podemos entender Apocalipse 20-22 como sendo uma continuação do capítulo 19.

Provavelmente a maneira mais correta de interpretar o Apocalipse é entendendo que são descritas sete seções paralelas. É como se João contasse a mesma história pelo menos sete vezes, porém, cada vez, ele acrescenta detalhes que não estavam nas descrições anteriores. É somente no último ciclo, ou seja, quando ele reconta a história pela última vez, que ela fica completa. A divisão que Hendriksen propõe é a seguinte:

A Primeira Seção: “Cristo no meio dos sete candeeiros” (Ap 1-3). 
A Segunda Seção: “A Visão do céu e dos Sete Selos” (Ap 4.1-7.17). 
A Terceira Seção: “As Sete Trombetas” (Ap 8-11). 
A Quarta Seção: “O Dragão Perseguidor” (Ap 12.2-14.20). 
A Quinta Seção: “As Sete Taças” (Ap 15.1-16.21). 
A Sexta Seção: “A queda da Babilônia” (Ap 17.1-19.21). 
A Sétima Seção: “A Grande Consumação” (Ap 20.1-22.21)[6].

De fato no capítulo 20 se inicia uma nova seção que vai descrever outra vez a dispensação cristã como um todo, desde a primeira vinda de Jesus até sua segunda vinda e o juízo final, como fizeram todas as seis seções ou ciclos anteriores. Repare que a segunda vinda de Cristo e o julgamento do mundo haviam sido anunciados em todas as seis seções anteriores.

Veja como o sexto selo na segunda seção descreve o fim do mundo em cores vívidas (6.12-17). Da mesma forma na sétima trombeta da terceira seção, a consumação de todas as coisas é claramente descrita (11.15-19). E este acontecimento é também descrito em 14.14-20 no final da quarta seção, com o acréscimo de detalhes de como será a separação entre os crentes e os ímpios.

Note que neste texto os crentes são ceifados e recolhidos no celeiro, enquanto que os ímpios são pisados como se fossem uvas. Assim também o sétimo flagelo da quinta seção descreve o fim de tudo, mas aqui é pela primeira vez descrita uma batalha antes do fim, a batalha do Armagedom (16.12-21). Mas, a explicação mais clara desta batalha está no final da sexta seção onde o cavaleiro montado no cavalo branco desce para destruir os exércitos do diabo e dos seus aliados. Portanto, João está recontando pela sétima e última vez como é a derrota do mal.

É muito difícil que Apocalipse 20 seja uma descrição do que acontece depois de Apocalipse 19, pois no capítulo 19 já aconteceu a consumação. Os ímpios foram vindimados na batalha do Armagedom e os homens rebeldes foram mortos (19.21). No capítulo 20 a história é recontada a fim de explicar como será destruído o último inimigo, Satanás, e assim, todos os detalhes se completam.

Em defesa desta posição Hendriksen mostra o paralelo que há entre os capítulos 11-14 e 20-22 [7]:


Os Santos reinam

Em seguida, Apocalipse 20.4-6 narra um reinado milenar. Aqueles que seguem uma abordagem cronológica do capítulo 20, dizem que todos estes acontecimentos seguem o 19. Então, na segunda vinda de Jesus, Satanás seria preso, e, em seguida, haveria a primeira ressurreição e os crentes reinariam com Cristo por mil anos na terra. Depois destes mil anos haveria a segunda ressurreição somente dos ímpios para o juízo. Nossa dificuldade com esta interpretação já foi descrita acima. Não cremos que o capítulo 20 seja uma seqüência do 19, mas que recomeça um novo ciclo. Vimos que a derrota e a prisão de Satanás já aconteceram na primeira vinda de Jesus.

Tronos no céu

Mas, há uma dificuldade ainda maior em pensar que o milênio começa com a ressurreição dos crentes. João não diz que vê corpos reinando com Cristo na terra, mas “almas” (Ap 20.4). Ele diz que viu tronos, e sentados nestes tronos aqueles que têm a autoridade de julgar. Quem estão assentados nestes tronos? São as almas que João viu. O texto grego não contém a expressão “vi ainda”, como se fosse um grupo diferente daquele que está assentado nos tronos. Diz simplesmente: “E as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tão pouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante os mil anos” (Ap 20.4).

Note que estas almas estão “vivendo” com Cristo e reinando por mil anos. A expressão “e viveram” (no grego ezesan) não significa necessariamente “e ressuscitaram”, até porque a palavra grega “ressuscitaram” é outra (anastásei). O texto nos diz que as almas dos que morreram estão “vivendo” e reinando com Cristo por mil anos, que é o tempo inteiro da dispensação cristã, desde a primeira vinda de Cristo até a segunda vinda. Além disso, estes tronos certamente devem estar no céu, pois como diz W. J. Grier, “sempre que se faz referência a tronos, no Apocalipse, quer se trate do de Cristo, quer dos de Seu povo, são localizados no céu”[8]. (Ver Ap 4.4).E como dizKistemaker, “o vocabulário de tronos, juízo e almas representa uma cena celestial”[9].

Quando João diz que os restantes dos mortos não reviveram “até que se completassem os mil anos” e chama o acontecimento de “viver” de primeira ressurreição, ele não está dizendo que isso vai acontecer depois do milênio. Aliás, a palavra “reviveram” é a mesma usada para “viveram” no verso anterior. O que João quer dizer é que os mortos sem Cristo continuaram mortos física e espiritualmente, e depois do milênio vão ressuscitar, mas para entrar na morte eterna. Portanto, a primeira ressurreição aqui é o “viver” com Cristo no céu.

Os ímpios não vão “viver” com Cristo no céu até o dia da ressurreição final. Aquele que tem parte na primeira ressurreição (espiritual) vai para o céu, e não precisa temer a segunda morte que é o Lago de Fogo. Nem seria preciso falar algo assim se os cristãos já estivessem com seu novo corpo aqui na terra. Num resumo: “Os que pertencem a Cristo morrem uma vez, porém ressurgem duas vezes (espiritual e fisicamente), enquanto os que o têm rejeitado ressurgem uma vez, porém morrem duas vezes (física e espiritualmente)”[10].

As pessoas que João viu no céu (decapitados como Paulo e João Batista) ascenderam espiritualmente ao céu (primeira ressurreição), e ressuscitarão fisicamente na vinda de Jesus. As pessoas que morrem sem Cristo não vão ao céu (não tem parte na primeira ressurreição), mas ressuscitarão na vinda de Jesus para o grande julgamento.

A situação dos mortos

Um argumento que reforça esta interpretação vem de outras partes do livro de Apocalipse. Devemos sempre lembrar que João está escrevendo para cristãos do primeiro século. Aqueles cristãos estavam sofrendo grandes perseguições. Muitos já haviam morrido por causa do Evangelho. Era natural que a igreja se perguntasse: O que aconteceu com os cristãos que foram martirizados? Deus não vai fazer nada para vingá-los? Em praticamente todas as seções, João dá informações sobre esses mortos.

No capítulo 6, ele diz que viu as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Essas almas estavam debaixo do altar de Deus, e clamavam por vingança. Foi lhes dito que deviam esperar, vestidas de vestiduras brancas, até que se completasse o número dos mártires (Ver Ap 6.9-11).

No capítulo 7, João dá mais informações sobre os mártires. Ele diz que “se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário. E aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap 7.15-17). Ou seja, João está tentando consolar os amigos e parentes das vítimas, dizendo que elas estão numa posição privilegiada.

No capítulo 14, João diz que os mortos no Senhor são “bem-aventurados”, podem descansar de suas fadigas, pois suas obras os acompanham (Ap 14.13). No capítulo 20, ele torna a ver as almas destes mártires, e agora acrescenta que além de estarem num estado de bem-aventurança, estão reinando com Cristo e serão os próprios juízes de seus algozes (Ap 20.4).

Portanto, na sequência lógica do Apocalipse, este texto não está falando coisa alguma sobre um reino literal e terreno de Cristo sobre a terra durante mil anos, mas da situação dos mortos em Cristo no céu, durante todo o tempo da dispensação cristã.

Como já vimos, aqueles que reinam com Cristo por mil anos não são pessoas ressuscitadas fisicamente, mas almas que reinam no céu. Neste ponto, há mais uma dificuldade para a interpretação pré-milenista que é o fato de que o texto localiza apenas dois grupos de pessoas que reinam com Cristo, e são os “decapitados por causa do testemunho de Jesus e os que não adoraram a besta”. Cadê o resto dos crentes mortos?

Além disso, está falando apenas dos que morreram, e se eles ressuscitaram fisicamente, onde estão os vivos que serão transformados? Eles não participam do milênio? Como diz Hoekema, “não há nada dito aqui acerca de crentes que não morreram, mas ainda estavam vivos quando Cristo retornou”[11]. Mas quando lembramos que João está querendo explicar justamente a situação dos mártires, toda dificuldade desaparece.

Números não literais

A interpretação literal dos mil anos no texto não se justifica facilmente. Qualquer pré-milenista sabe, por exemplo, que a corrente que prende Satanás não é física, é espiritual. Portanto, ninguém interpreta isto literalmente. Então, por que o número 1000 deve ser interpretado literalmente? Além disso, porque nessa passagem este número deve ser interpretado de forma literal, se todos os outros números do Apocalipse não são? Por exemplo, será que há sete Espíritos Santos, ou apenas um? (Ap 3.1; 4.5). Será que Jesus é literalmente um Cordeiro que tem sete chifres e sete olhos? (Ap 5.6). Será que correu sangue pela morte dos ímpios por 1600 estádios (296 Km)? (Ap 14.20). Será que a Nova Jerusalém possui 12000 estádios (2219 Km)? (Ap 21.16). Evidentemente que ninguém interpreta estes números literalmente, pois são claramente simbólicos. Mas, então por que o número 1000 teria que ser literal em Apocalipse 20.3-4.

Ainda deve ser considerado que a existência de um milênio literal somente pode ser deduzida do texto de Apocalipse 20.1-4. Nenhum outro lugar na Escritura fala em algo parecido. E como já vimos, Apocalipse 20.1-4 não precisa ser interpretado literalmente. No restante das Escrituras não existe a menor indicação de um milênio intermediário entre a era atual e a era eterna. Jesus, nas parábolas (Mt 13.24-30, 36-43, 47-50; Lc 19.11-27; Mt 25.14-30), e na descrição do julgamento em Mateus 25, não falou de um reino intermediário depois da sua vinda. Ele disse que sua vinda traria o julgamento e o estado final dos homens. A mesma ideia pode ser vista em toda a Bíblia. Sempre que o Novo Testamento fala do futuro não diz que haverá um reino para Israel na Segunda Vinda de Jesus, mas que quando Jesus voltar, será estabelecido o Novo céu e a nova terra (2Pe 3.1-13).

A Última Batalha

Em Apocalipse 20.7-10 há a descrição da rebelião final, onde Satanás reúne as nações para pelejarem contra o Senhor. Que batalha é esta, se no capítulo 19 os inimigos de Cristo já foram destruídos? Que nações são estas cujo número é como a areia do mar, se os homens já foram mortos em Apocalipse 19.21? Na verdade, não são batalhas diferentes, mas duas descrições da mesma batalha. É dito que no fim do milênio, Satanás será solto. Solto de quê? De sua prisão que o incapacitava de enganar as nações a fim de reuni-las contra a igreja de Deus. Note que ele vai seduzir as nações nos quatro cantos da terra.

Que esta é a batalha do Armagedom podemos inferir por causa da referência a Gogue e Magogue. Gogue era o príncipe de Magogue. É dito em Ezequiel 38.2 que Gogue também é príncipe de Rôs, Meseque e Tubal. Estas três regiões ficavam em algum lugar onde hoje é a Turquia. E todo este território foi conquistado depois de Ezequiel pelos selêucidas, principalmente nos tempos de Antíoco Epifânes o mais cruel inimigo dos judeus, que foi governador da Síria. Este homem foi o mais perfeito tipo do Anticristo no Antigo Testamento. Portanto, a referência a Gogue, nesta última batalha, é uma referência novamente às forças do Anticristo que tentarão pelejar contra o Cordeiro.

João não descreve a derrota do Anticristo aqui, porque já a descreveu antes, e agora ele está interessado em descrever a derrota do Dragão, que na mesma batalha do Armagedom na única vinda de Cristo, foi também aprisionado no lago de fogo. O fato de João dizer que a besta e o falso profeta já estavam no lago de fogo (Ap 20.10) significa apenas que ele já havia narrado este acontecimento antes, até porque a besta e o falso profeta são o governo e a religião anticristã de Satanás. João deixou para narrar no fim, a maneira como o Dragão será destruído.

O Cumprimento das Profecias do AT

Talvez a maior razão porque os pré-milenistas insistem num reino literal e terreno de mil anos seja por causa de sua visão das profecias do Antigo Testamento. Como já dissemos, não há qualquer texto que fale em mil anos de reino, mas os pré-milenistas olham para as profecias de Isaías, Ezequiel, Amós, Zacarias e outros, que falam sobre um futuro glorioso para Israel, e imaginam que isto acontecerá numa volta futura de Israel das várias nações ao redor do mundo, para a terra da promessa. Pensam que isto precisa se cumprir literalmente. Nesse sentido, vêem o retorno de Israel para a Palestina após a Segunda Grande Guerra, como um indício do cumprimento histórico das
profecias.

A interpretação amilenista entende que estas profecias se cumpriram literalmente na volta de Israel do cativeiro da Babilônia, ou se cumprem espiritualmente na igreja que é o Israel no Novo Testamento, ou ainda se cumprem no Novo céu e nova terra. Não há a necessidade de um reino milenar para que elas se cumpram.

Primeiramente devemos entender que interpretar literalmente todas as profecias do Antigo Testamento pode conduzir a absurdos. Como nota W. J. Grier, “a própria profecia do Velho Testamento contém uma advertência contra tal literalismo. Deus disse que falaria aos profetas do Antigo Testamento em sonhos e visões e em palavras obscuras (Nm 12.6-8; Os 12.10)”[12]. Por exemplo, quando Ezequiel diz que o povo retornará à sua terra diz que Davi reinará sobre os que voltarem (Ez 37.24). Se isso for interpretado de forma literal, Davi precisaria reencarnar para reinar sobre Israel. E além disso, o que não pode ser esquecido é que muitas profecias proferidas à nação de Israel eram condicionais.

Por exemplo, quando Deus chamou o povo de Israel do Egito lhes prometeu uma nova terra, porém, devido à desobediência deles, foram privados desse benefício (Nm 14.23). Com relação ao próprio reino eterno da descendência de Davi, a promessa era condicional. Davi entendeu isso, pois disse em seu leito de morte ao seu filho Salomão:

"Eu vou pelo caminho de todos os mortais. Coragem, pois, e sê homem! Guarda os preceitos do SENHOR, teu Deus, para andares nos seus caminhos, para guardares os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés, para que prosperes em tudo quanto fizeres e por onde quer que fores; para que o SENHOR confirme a palavra que falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho, para andarem perante a minha face fielmente, de todo o seu coração e de toda a sua alma, nunca te faltará sucessor ao trono de Israel." (1Rs 2.2-4).

Do mesmo modo, as promessas de Deus de prosperidade para a nação de Israel estavam condicionadas à obediência. Uma vez que a nação não permaneceu em obediência, Deus não se viu obrigado a cumprir todas as promessas.

Ao considerar algumas das principais profecias do Antigo Testamento, as quais são geralmente usadas para a defesa de um Milênio literal e terrestre, podemos perceber que elas não exigem um cumprimento literal num Milênio. Uma das principais passagens do Antigo Testamento usadas para defender o Milênio é Isaías 65.17-25. Neste texto Isaías fala da restauração de todas as coisas: “Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus; porque morrer aos cem anos é morrer ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado” (Is 65.20).

Diz que: “A longevidade do meu povo será como a da árvore, e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras das suas próprias mãos” (Is 65.22). E diz que naquele tempo: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o SENHOR” (Is 65.25). Os pré-milenistas dizem que esta descrição não pode se referir ao tempo eterno porque há referência a morte e ao pecado. Porém deve ser entendido que Isaías usa figuras de coisas que os homens podem entender, mas está falando dos “novos céus e nova terra”, conforme ele deixa bem claro no verso 17.

E o Apocalipse diz que os novos céus e nova terra compõem o estado final do universo e não o Milênio. Isaías descreve os tempos eternos em linguagem que as pessoas daquele tempo podiam entender. Ele usa expressões que indicam longevidade e prosperidade em linguagem que deve ser entendida figurada e não literalmente.

Outro texto bastante usado para a defesa do Milênio é o capítulo 11 de Isaías. O texto diz que um rebento de Jessé será levantado (vs. 1), o qual terá sabedoria para reconduzir o povo (vs. 2-5). Neste tempo, “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará (...) A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (vs. 6-9). Esta também não é uma descrição do Milênio. Ela se parece bastante com a outra descrição que já vimos acima no capítulo 65, e que Isaías disse pertencer à nova terra e aos novos céus. Isaías está falando de um tempo de perfeição, onde a terra se encherá do conhecimento do Senhor. Isso é muito superior ao que teria que acontecer no Milênio onde ainda haveria povos dispostos a se rebelar contra o Senhor. Dos versos 10-16 Isaías fala da restauração de Israel.

Não podemos entender esta passagem sem lembrar que o povo de Israel foi levado cativo para a Assíria e o povo de Judá para a Babilônia. Isaías diz que o povo voltaria para sua terra. Isto de fato se cumpriu 70 anos depois do cativeiro, quando o povo retornou do Exílio. O verso 16 diz: “Haverá caminho plano para o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, como o houve para Israel no dia em que subiu da terra do Egito”. Este verso teve um cumprimento literal no dia em que Israel voltou do cativeiro.

É evidente que a profecia vai além disso, mas por que pensar num Milênio intermediário se a profecia pode se referir em linguagem figurada aos novos céus e nova terra? Como diz Hoekema, “na há razão obrigatória para entendermos este tipo de passagens do Velho Testamento, de modo a descrever um reino milenar futuro”13. Estas profecias se cumprem no retorno de Israel do cativeiro, na primeira vinda de Jesus, ou finalmente descrevem a nova terra que será estabelecida na segunda vinda de Jesus [14].

O próprio Novo Testamento interpreta profecias que descrevem a restauração de Israel como não literais. Um exemplo basta para perceber isso. Amós 9.11-12 diz: “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas”. Em Atos 15.14-18 temos a interpretação do cumprimento figurado desta profecia. Tiago entende que se cumpriu quando Deus incluiu os gentios na comunidade do povo de Deus. Portanto, se o próprio Novo Testamento demonstra que as profecias do Antigo Testamento não precisam ser cumpridas literalmente, por que nós deveríamos insistir nisso?

Dificuldades adicionais

Falar num milênio terreno envolve algumas contradições adicionais: Por que razão, depois dos crentes terem ressuscitado ainda teriam que viver mil anos numa terra imperfeita? De certa forma, as coisas não seriam muito diferentes do que são hoje. Somos convertidos e desejamos uma nova era, porém ainda temos que sofrer com este mundo decaído. Imagine pessoas já ressuscitadas ainda tendo que viver numa terra decaída.

Outra coisa estranha é a idéia de que haverá pessoas com corpo glorificado vivendo junto com pessoas sem corpo glorificado. Que tipo de relacionamento poderia existir entre essas pessoas. Umas morrem, outras são eternas. E como podem as nações se rebelarem contra o Senhor depois do milênio na soltura de Satanás? Não terá adiantado nada os mil anos de prosperidade do Senhor na terra? Finalmente, é muito estranha a idéia de haver salvação depois da vinda do Senhor. Como serão salvos os ímpios durante o milênio? Eles terão que ouvir o Evangelho e crer?

A Bíblia diz que fé é acreditar no que não pode ser visto (Hb 11.1), mas naquele momento todos verão Jesus reinando dum trono terreno em Jerusalém. Isto seria injusto, se considerarmos que todos os demais que viveram antes do milênio tiveram que crer com bem menos evidência. Embora não possamos ser dogmáticos, porque o Senhor conduzirá a história segundo seu propósito, estas observações demonstram que a existência de um Milênio literal traz mais complicações do que soluções.

Concluindo, percebemos que há evidências de sobra para não interpretar o texto de Apocalipse 20.1-10 de forma literal. Mas insistimos na tese de que este assunto não deve dividir os cristãos. Ter expectativas diferentes em relação à segunda vinda é melhor do que não ter expectativa alguma. O que importa é que ele virá, e que haverá pessoas o aguardando. Quer naquele momento ele inaugure o milênio, quer inaugure o tempo eterno, de qualquer maneira, estaremos para sempre juntos com o Senhor.

__________________________
Notas:
1 Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, p. 223.
2 O quadro é retirado de Paul Enns. The Moody Handbook of Theology, Tópico: “Amillennialism”.
3 A exposição a seguir segue em linhas gerais William Hendriksen. Mais Que Vencedores, p. 217-225.
4 Ver Simon Kistemaker. Apocalipse, p. 673-674.
5 Ver W. J. Grier. O Maior de Todos os Acontecimentos, p. 126-127.
6 Ver William Hendriksen. Mais Que Vencedores, p. 26-35.
7 William Hendriksen. Mais Que Vencedores, p. 218.
8 W. J. Grier. O Maior de Todos os Acontecimentos, p. 128.
9 Simon Kistemaker. Apocalipse, p. 675.
10 Simon Kistemaker. Apocalipse, p. 680.
11 Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, p. 244.
12 W. J. Grier. O Maior de Todos os Acontecimentos, p. 36.
13 Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, p. 274.
14 Outras passagens que podem ser interpretadas neste sentido sem sugerir a idéia do Milênio são: Jr 23.3-8; Ez 34.12-13; Ez 36.24; Zc 8.7-8; Am 9.14-15, etc.

Por Rev. Leandro Lima

O Reino Milenial de Cristo

Haverá verdadeiramente um reino milenial depois que Cristo voltar? (Expondo as verdades da doutrina Amilenista) Apocalipse 20:1-1...