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terça-feira, 4 de abril de 2017

O que é o MDA e por que preocupa?


De modo geral, as igrejas evangélicas têm adotado dois modelos de discipulado. O primeiro, ortodoxo, prioriza o Evangelho e emprega os “ultrapassados” cultos de ensino, Escola Dominical e cursos teológicos. Já o segundo, heterodoxo, prega “outro evangelho”, à base de pragmatismo e utilitarismo, e mescla verdades bíblicas com filosofias antropocêntricas, apesar de utilizar uma metodologia “mais eficaz”, que atende aos anseios do mundo pós-moderno. A “visão celular” — mais conhecida pelas siglas G12, M12 ou MDA — faz parte do modelo heterodoxo, visto por muitos como uma “quebra de paradigmas” e, ao mesmo tempo, um retorno aos princípios da igreja de Atos dos Apóstolos.


O MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) se baseia no tripé: células, encontros e discipulado um a um, que é uma microcélula ou “coração da célula”, já que discípulo e discipulador fazem parte da mesma célula. E, embora seu fundador afirme que Deus lhe deu um modelo exclusivo para o Brasil, trata-se de uma espécie de G12. Ele mesmo admitiu que, ao estudar “diferentes modelos de igreja em células, observando-os de perto e gastando tempo com os líderes envolvidos em sua prática, encontramos vários bons modelos, como o [...] ‘Modelo do Governo dos 12’, do pastor Cesar Castellanos, da Colômbia” (HUBER in ZIBORDI, 2016). Em essência, esses modelos são gêmeos e, de modo patente ou latente, propagam a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva etc.

Nos dois, o templo é usado prioritariamente para celebrações dançantes, visto que o discipulado ocorre nas células, e as ministrações principais, nos encontros. Para ambos, a célula é a essência da igreja, onde “a vida do Corpo se encontra de forma sintetizada em todos os seus muitos aspectos, tais como: adoração, intercessão, evangelismo, integração, discipulado, treinamento de líderes, comunhão, assistência social etc.” (HUBER, 2016). Há alguns anos, um pastor, decepcionado com o MDA, me disse: “A primeira coisa que fizemos foi acabar com a Escola Dominical, porque os estudos seriam nas células. O louvor da igreja virou show, tiramos os hinos da Harpa Cristã e colocamos luzes no altar. Fui líder de várias células e cada vez mais me impressionava o desaparecimento da mensagem bíblica, que antes tínhamos”.

Quanto aos encontros do MDA para iniciantes, há vários depoimentos na Internet que nos ajudam a compreendê-los (cf. TOMÁZ, 2016). Eles são realizados em lugares secretos, onde os discípulos são recebidos com muita festa, ficam incomunicáveis por três dias e participam de várias ministrações. A primeira, logo após a chegada, à noite, é “Peniel”, pela qual se enfatiza que o discípulo deve ser transformado a fim de participar das próximas ministrações. As luzes, então, se apagam, para que cada um fale com Deus “face a face”. Após o jantar, todos são aconselhados a dormir e se preparar para o dia seguinte, que “será tremendo”. A segunda ministração, de manhã, é “encontro com Deus”: os discípulos são acordados e, ainda em jejum, ouvem vários bordões de autoajuda junto com um fundo musical. Eles recebem, ainda, um manto vermelho, para o primeiro “ato profético”.

A terceira é “libertação”, por meio de imposição de mãos, exorcismo e quebra de maldições. A quarta é “cura interior”, a partir da qual o discípulo, mesmo se sentindo liberto, precisa tratar das feridas da alma, confessando seus pecados e liberando perdão a todos, inclusive a Deus! Tudo ocorre à base de sugestão, com as luzes reduzidas e um fundo musical. Já na parte da noite, vem a quinta: “sonhos”, e os discípulos, “transformados”, expõem seus sentimentos. Novamente com fundo musical, ocorrem mais “atos proféticos”. Em um destes, alguém faz o papel do Tentador, que procura destruir os sonhos das pessoas.

Embora chamada de “cruz de Cristo”, a ênfase da sexta ministração não recai sobre a obra redentora do Senhor. O MDA é antropocêntrico: apresenta Jesus como um homem que venceu mediante uma declaração de fé no Inferno e ignora que Ele venceu o Diabo e suas hostes na cruz (Hb 2.14,15), ao dizer: “Está consumado” (Jo 19.30). Os participantes, então, recebem pregos e oram de braços abertos até sentirem dores e começarem a chorar. Quando abaixam os braços, alguém os ajuda a permanecerem “crucificados”. Antes de o local se transformar em uma discoteca, eles — ignorando os gloriosos efeitos da obra expiatória de Jesus, realizada de uma vez por todas (Cl 2.14,15) — fazem uma lista de pecados e a cravam numa cruz!

No dia seguinte, vem a sétima ministração: “oração”, com músicas de fundo que mantêm os discípulos no “mesmo espírito”. Não há ensino da Palavra de Deus, na prática. E a oração limita-se a “línguas estranhas”, sem a observância do ensino de 1 Coríntios 14. Vem então a oitava ministração: “nova vida em Cristo”, e um discipulador, após ler um texto bíblico, diz a todos: “Preparem-se! O mover de Deus está só começando”. E, ao som música pesada, inicia-se uma peça teatral que, de modo tácito, apresenta o Diabo como um ser muito mais poderoso do que é, rebaixando, assim, o Todo-poderoso. Ora, as hostes do mal agem por permissão do Senhor, que, no momento certo, as vencerá “pelo assopro da sua boca” (2 Ts 2.8).

Com luzes apagadas e janelas fechadas, os discípulos se ajoelham, e suas cabeças são lavadas. Ainda há três ministrações, que têm lugar com um “bom” fundo musical: “finanças” — visando-se a uma “grande semeadura” —, “visão do MDA” e “somos amados”. Nesta, a décima-primeira, o pastor da igreja entra em cena e diz a todos o quanto eles são amados. Enquanto ele ora com muita emoção, mochilas são depositadas aos pés dos discípulos, nas quais há cartas e presentes de familiares e/ou amigos que já fazem parte do MDA. Trata-se de uma estratégia para “fidelizar” o discípulo.

Na última ministração, “batismo com o Espírito Santo”, todos se prostram diante de uma arca; mais um “ato profético”. Em seguida, as luzes se apagam, e eles, de mãos dadas, ouvem mais uma palavra emotiva por parte do pastor, e a histeria toma conta do ambiente. Forma-se uma espécie de “corredor polonês”, por onde os discípulos passam para receber uma “nova unção”, precedida de unção literal e abundante. Eles saem do outro lado — encharcados de óleo —, pulando ou dando gargalhadas; alguns até caem ou andam como animais quadrúpedes. Ignora-se completamente o que está escrito em 1 Coríntios 14.37-40. E, ainda antes de entrarem no ônibus, os pastores ungem seus pés. Quase todos saem dali dizendo: “O encontro foi tremendo; agora sim eu sei o que é sentir a presença de Deus”.

Os proponentes do MDA dizem que Jesus priorizou o discipulado “um a um”, em que cada discípulo deve estar debaixo da “cobertura espiritual” de um discipulador — este, segundo seu idealizador, “tem compromisso total de não falar nada para pessoa alguma daquilo que o discípulo confidenciou, a não ser que obtenha primeiramente sua permissão”. Eles também interpretam de modo equivocado a Grande Comissão (Mt 28.19,20), já que supervalorizam o “fazei discípulos”, dizendo que isto “tem que ser priorizado, pois sem dúvida é um assunto de máxima importância” (HUBER, 2016).

Como se sabe, a Grande Comissão abarca evangelização, discipulado e ensino teológico (cf. Mc 16.15; At 1.8). Na ordem “ensinai todas as nações”, o verbo (gr. matheteuo) denota “fazer discípulos”, mas em “ensinando-as a guardar todas as coisas”, o verbo, literalmente, significa “doutrinar” (gr. didasko), o que envolve metodologia e sistematização. E, aqui — diferentemente do primeiro caso — o tempo verbal indica que o ensino teológico, e não o discipulado, deve ser contínuo. Segue-se que as igrejas que priorizam a Escola Dominical e dão ênfase ao ensino teológico, que abrange doutrinas fundamentais como Trindade, Cristologia, Soteriologia, Pneumatologia etc., estão sendo fiéis ao que o Senhor Jesus ordenou!

Quanto ao MDA, como vimos, a ênfase recai sobre prosperidade financeira, batalha espiritual, falsa cura interior etc. Ademais, cada discípulo presta contas a um discipulador, que tem o direito de se intrometer na vida pessoal daquele, em seus negócios, decisões e até em sua vida conjugal! Afinal, quem está em uma determinada escala hierárquica “protege” quem está abaixo dela. Resultado: o discipulador é uma espécie de “anjo da guarda”. Ou, ainda pior: ele usurpa o lugar do Espírito Santo, pois através da “cobertura espiritual” supostamente impede que seu discípulo se desvie da “visão”.

Diante do exposto, não há dúvida de que o MDA (1999) é irmão mais novo do G12 (1983), e que ambos são “outro evangelho” (Gl 1.8). Atentemos, portanto, para o que a Palavra de Deus diz em 1 Coríntios 15.1,2: “vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado, se não é que crestes em vão”.

por Ciro Sanches Zibordi
Artigo publicado no jornal Mensageiro da Paz, ano 87, número 1.581, de fevereiro de 2017
Fonte: 
https://cirozibordi.blogspot.com.br

Referências
HUBER, Abe. A importância da igreja local na visão do MDA. In: ZIBORDI, Ciro Sanches. Sim, o MDA é o irmão mais novo do G12. Disponível em: http://www.cpadnews.com.br/blog/cirozibordi/apologetica-crista/199/sim-o-mda-e-irmao-mais-novo-do-g-12.html. Acesso em: 31 dez. 2016.
HUBER, Abe. A visão. Disponível em: http://www.associacaomda.org/a-visao/. Acesso em: 20 dez. 2016.
TOMÁZ, Gilmar Caetano. Um engano chamado MDA. Disponível em: http://admidia.blogspot.com.br/2014/08/um-engano-chamado-mda-o-que-esta-por.html. Acesso em: 14 dez. 2016.

sábado, 12 de novembro de 2016

O rei de Tiro e satanás, são a mesma pessoa ou não?


O rei de Tiro descrito no livro de Ezequiel capítulo 28 é Satanás?

O Contexto histórico e cultural de Tiro


A cidade de Tiro é hoje Es-Sur, um pobre povoado libanês, habitado por pescadores. Foi em tempos antigos uma cidade fortificada da Fenícia, apelidada por alguns historiadores como “a Veneza da Antiguidade”. Sua origem remota no tempo pode ser atestada através de citações em Heródoto, historiador grego que situa sua fundação em 2700 a.C, e nas “Cartas de Amarna” (“Cartas de Amarna” é a designação dada a um conjunto de tabuinhas em escrita cuneiforme encontradas em Amarna, uma das várias capitais do Egito Antigo. Faziam parte do arquivo de correspondência do Egito com os seus reis vassalos e governadores de Canaã e datam dos reinados de Amen-hotep III e de Amen-hotep IV - mais conhecido como Akhenaton. A maioria delas foi escrita em acádico, a língua diplomática da época.) Nessas cartas há relatos de que durante o período de Amen-hotep III, o chefe local de Tiro escreveu a este faraó delatando traições de cidades vizinhas e solicitando auxílio contra o amorreu Aziru e contra o rei de Sidom. Com o declínio do Egito, Tiro se tornou independente e até mesmo recebeu refugiados sidônios que fugiram para a ilha. Nos relatos bíblicos, Tiro é mencionada brevemente nas conquistas de Josué e, mais tarde, no período da monarquia unida, principalmente durante a construção do Templo de Salomão, com a qual contribuiu fornecendo materiais e mão de obra especializada. 

Expulsos da Palestina e Síria, principalmente por causa da invasão de suas cidades pelos poderosos filisteus que dominavam a tecnologia do ferro, no XIII e XII séculos a.C, os fenícios concentraram seus esforços para o lado do mar e se tornaram os maiores marinheiros e comerciantes de todos os tempos, em relação ao mundo conhecido. Após se estabelecerem em Tiro, aventuraram-se pelas águas do Mediterrâneo fundando colônias na costa e ilhas vizinhas do Mar Egeu, na Grécia, na costa Norte da África, em Cartago, na Sicília e na Córsega, na Península Ibérica e até mesmo para além dos Pilares de Hércules, em Gadeira. 

Durante o século XI a.C, a economia de Tiro experimentou uma mudança radical, da cultura agrária para o mercantilismo, mas não se sabe se isto é devido às relações comerciais com Israel ou a algum tipo de vantagem que obtiveram delas. É fato, porém, que Tiro se tornou famosa na antiguidade pela produção de certa tintura púrpura bastante rara, extraída de um molusco conhecido como múrice. O nome Fenícia pode ter se originado desse comércio, pois phoinix, quer dizer “vermelho” ou “púrpura”. A cor púrpura era reservada em várias culturas dos tempos antigos para a realeza e nobreza, o que deve ter favorecido a valorização do produto fenício. Além da tintura, os mercadores satisfaziam os caprichos do mundo então conhecido com tapeçarias exóticas e bordados delicados provenientes de portos comerciais espalhados por rotas que somente eles conheciam. Os metais também contribuíram para a emergência comercial de Tiro. Os fenícios estabeleceram um grupo de tarshishes, isto é, “fundições ou refinarias” em várias colônias, particularmente no sudoeste da Espanha, região célebre pela presença de minérios, e na Ilha de Chipre, que continha preciosas minas de cobre. Desde os tempos remotos, os tírios eram conhecidos por sua aptidão para toda a obra artística em cobre e metal amarelo.

O nome Tiro significa “rocha”. A cidade era composta de duas partes distintas: uma fortaleza rochosa, chamada de “Antiga Tiro”, situada numa pequena ilha a quase um quilômetro da costa do Mediterrâneo e um povoado na costa principal da Fenícia. O canal que separava as duas partes da cidade também servia para ligar dois importantes portos: o porto sidônio a nordeste e o egípcio ao sul. Essa localização geográfica estratégica permitiu a Tiro resistir aos impérios mais poderosos que passaram pela Palestina, mantendo uma relativa independência. Os monarcas assírios sempre a desejaram, alguns conseguiram até mesmo fazer com que lhe pagasse tributos para que parassem de atacá-la e Assurbanipal chegou a subjugá-la por um período de tempo, tomando seu lado continental. Com o declínio do Império Assírio, Tiro se rebelou, recuperando muito de sua autonomia e de seu antigo comércio marítimo. Em 588, o faraó Hofra atacou sem muito sucesso a Tiro e Sidom. Nabucodonosor sitiou Tiro por treze anos seguidos e não conseguiu tomá-la, apesar de posteriormente Tiro ter reconhecido a suserania babilônica e pago tributos por pelo menos uma década, o que há vários contratos babilônicos que comprovam, mas a maior parte dos tesouros de Tiro deixaram a ilha em navios com destino às colônias e Nabucodonosor terminou sua campanha sem grandes recompensas (cf Ez 29:18). 

A ausência de pressões provenientes de políticas agressivas – ou até mesmo a capacidade de sobreviver bem a essas políticas -, juntamente com a efervescência econômica e as habilidades artísticas celebradas, gerou um espírito de orgulho no povo de Tiro. A cidade somente foi destruída por Alexandre Magno em 332 a.C, após um cerco de sete meses construindo um molhe do continente até a ilha. A cidade foi reconstruída em 314 a.C, mas foi completamente destruída pelos sarracenos em 1291.

Outro fato que merece destaque sobre a cidade é a força da figura do rei dentro de sua sociedade. Como outras culturas oriundas do Crescente Fértil, os habitantes de Tiro compartilhavam a crença de que seu rei era o representante dos deuses na terra, dotado de um caráter sobre-humano. A principal divindade em Tiro era Baal-Mecarte, senhor do inferno (e do fogo), da tempestade e da fertilidade, que teve seu culto introduzido em Israel por Jezabel, esposa do rei Acabe. (cf I Rs 16:31-34). A situação de invencibilidade da Ilha era atribuída ao fato de ser o lugar sagrado deste deus, e em seu templo podia ser encontrado no altar um trono vazio reservado para seu representante no meio dos homens, o monarca. Essa fé era algo tão profundo que chegou até mesmo a resistir aos apelos da helenização e pensamento grego que varreu toda a região durante o período de Alexandre Magno e Tiro não se rendeu à tentação de ser uma república, mas conservou a forma de governo monárquica até a completa perda de sua independência. 

Os Oráculos contra Tiro

Ezequiel dedica mais tempo a Tiro do que qualquer outro escritor do Antigo Testamento. Na seção que examinaremos de seu livro (Ez 26 – 28:19), o profeta faz três oráculos contra a cidade: prediz a derrota de seu poder naval sob as mãos de Nabucodonosor (cap.26), faz uma magnífica lamentação sobre o naufrágio do galante navio de Tiro (cap. 27), e descreve o orgulho e queda do príncipe de Tiro numa canção de escárnio (cap.28:1-19)

1. A Derrota e Destruição de Tiro (Ezequiel 26:1-21)

O primeiro verso do capítulo introduz a cronologia da profecia. O décimo primeiro ano provavelmente corresponde ao ano 586 a.C e o verso 2 sugere que Jerusalém já havia sido destruída. O teor deste oráculo é predominantemente histórico e factual. O “portal das nações quebrado” pode referir-se à localização privilegiada de Jerusalém num território estratégico sobre as estradas dos pedágios. Agora que a cidade havia sido conquistada, já não poderia receber os impostos das caravanas que passavam por ela e Tiro planejava lucrar com a situação. Esta atitude fez com que o Senhor se colocasse contra Tiro e, a seguir, são pronunciados quatro oráculos contra ela, cada um introduzido pela expressão “Assim diz o Soberano, o Senhor” (vs 3,7,15 e 19).

O primeiro oráculo contra a cidade de Tiro (vs 3-6): 
Culpa e castigo

A introdução já declara o motivo da culpa de Tiro na expressão “por essa razão”, ligando a palavra profética à denúncia de intenção da cidade em beneficiar-se com a queda de Jerusalém. O versículo 3 chega a ter certa dose de ironia com a comparação “virão como o mar quando eleva as suas ondas”, já que o domínio dos mares era a maior força deste povo e uma de suas maiores realizações. 

A predição da destruição completa da Ilha-fortaleza (indicada pela expressão “rocha nua” no vs 4) deve ter parecido absurda aos ouvintes da época, devido à fama de invencibilidade que a cidade ostentava. A frota e o exército de Tiro tinham a peculiar característica de movimentarem-se da ilha para o continente e vice versa, quando era estrategicamente conveniente, para se defenderem de seus atacantes, mas Deus decreta através de Ezequiel que esse jogo de “gato e rato” acabaria, pois não somente a ilha seria arrasada, mas também os territórios do continente, a linha das colônias fenícias na costa, conforme parece ressaltar o versículo 6. 

É interessante ainda notar que nos dias atuais onde havia a cidade de Tiro é situada hoje a cidade de Es-Sur, um povoado habitado quase que exclusivamente por pescadores, onde a profundidade das águas favorece a pesca com rede, cumprindo a literalmente a Palavra do verso 5: “Fora, no mar, ela se tornará um local propício para estender redes de pesca, pois Eu falei. Palavra do Soberano, o Senhor”. (comparar também com verso 14).

O segundo oráculo contra a cidade de Tiro (vs 7-14): 
A iminente destruição por Nabucodonosor

Nabucodonosor é a forma do nome sempre usado por Ezequiel para “Nabukudurri-usur”, que significa, “deus Nebo, proteja as minhas fronteiras”. O significado deste nome já demonstra a relevância que os babilônicos davam para o expansionismo de seu império. O título que o acompanha “Rei de reis” é de origem assíria e asseverava a força da relação entre o suserano e seus vassalos conquistados. O império assírio havia conseguido por mais de uma vez exigir pagamentos de tributos por parte da cidade de Tiro, durante os reinados de Assurnasírpal II, Salmaneser III e Assurbanipal, cair diante de um monarca babilônico que ostentava um título de um passado que nenhum habitante de Tiro via com simpatia é, ironicamente, um duro golpe no orgulho dos tírios. 

Os versos 8-12 descrevem as táticas militares que seriam usadas contra Tiro: obras de cerco, aríetes, espadas, cavalaria pesada e até um levantamento de escudos, uma formação militar babilônica semelhante ao “testudo romano” ou “formação tartaruga”, artifício defensivo que consistia em dispor os escudos bem juntos uns dos outros, protegendo os lados, a dianteira e o teto de ataques projéteis. No verso 11, encontramos a expressão “suas resistentes colunas ruirão”, essas colunas não fazem parte das defesas de Tiro contra invasores, não possuem um significado bélico, mas um caráter duplo sagrado e cívico. O oráculo sugere que a morada inexpugnável de Baal-Mecarte seria profanada, seu templo cairia incapaz de proteger sua cidade sagrada e o rei de Tiro, seu campeão e representante na terra, nada poderia fazer a esse respeito. A queda de Tiro iria revelar a impotência e fragilidade do deus que a cidade se orgulhava tanto.

O terceiro oráculo contra a cidade de Tiro (vs 15-18):
Os Efeitos de sua queda sobre os príncipes do mar

Tiro possuía colônias das quais adquiria as mais variadas mercadorias e dispunha de um vasto território comercial, o terceiro oráculo mostra como a queda da capital desde império mercante iria afetar seus limites como um todo, se entendendo até os pontos mais afastados. Sua queda teria repercussões até mesmo nas rotas e caminhos secretos que somente esses fenícios conheciam. 

Os príncipes do mar são os mercadores, reis e governantes de cidades e portos que dependiam economicamente da prosperidade de Tiro, essa dependência fica evidente no choro e pavor descritos no verso 16, quando eles desceriam do trono, ou seja, perderiam sua alta posição ao descobrirem-se desamparados de sua capital. O fragmento “porão de lado seus mantos e tirarão suas roupas bordadas” pode também ser interpretado como uma alusão aos produtos de luxo que desapareceriam com o declínio das rotas comerciais fenícias. 

As lamentações dos príncipes (vs 17,18) ilustram não somente sua tristeza pela conquista de Tiro, mas também sua perplexidade. Como um povo poderoso que impunha pavor, era um poder nos mares, responsável por uma civilização e sustentador de todo um modo de vida, foi reduzido a ruínas? Se um destino assim teve a poderosa Tiro, o que seria das cidades desses príncipes?

O quarto oráculo contra a cidade de Tiro (vs 19-21):
A descida ao "inferno"

“(...) e quando eu a cobrir com as vastas águas do abismo” (v 19) é a predição de que as ambições de Tiro não se cumpririam. A palavra hebraica para “vastas águas” é tehôm, e denota uma profundidade inexplorável (ou que não pode ser conquistada ou medida). A cidade sonhava e se empenhava em conquistar e ampliar seu domínio sobre as muitas águas, mas não teria êxito neste intento e, em vez disso, ainda seria conquistada por elas.

Os versos 20 e 21 profetizam que o Senhor faria Tiro descer ao Sheol, “(...) para fazer companhia aos antigos”, e habitar embaixo da terra. O fato das Escrituras muitas vezes falar das profundezas da terra como lugar dos mortos não é suficiente para postular que os escritores bíblicos cressem que esse fosse o verdadeiro lugar dos espíritos que partiam. Considerando que os homens pensam em termos concretos, é natural que, à vista do sepultamento do corpo, a morada dos mortos fosse localizada num nível abaixo da terra. De qualquer forma, o sentido de sheol nesta profecia é enfatizar que a cidade de Tiro seria destituída de sua posição de destaque. Em vez de ascender, seria rebaixada até o inferno – o lugar mais profundo – e seu orgulho seria quebrado, uma vez que ela seria procurada e não mais encontrada (v 21).

2. Um Lamento por Tiro (Ezequiel 27:1-36)
No capítulo 27 de Ezequiel, o Senhor ordena ao profeta que faça um lamento a respeito de Tiro. A lamentação era uma prática geralmente associada ao arrependimento e contrição ou tinha lugar por causa de alguma grande desgraça. Os sepultamentos eram ocasiões para se lamentar, e desde o Egito Antigo, o Oriente conhecia as carpideiras, profissionais de cabelos desgrenhados e vestes desemaranhadas que acompanhavam os cortejos fúnebres expressando tristeza. Mortes notáveis algumas vezes motivaram lamentações poéticas, como por exemplo, Davi lamentou Saul e Jônatas com o “Lamento do Arco” (2 Sm 1:17-24) e Jeremias compôs um lamento em homenagem ao rei Josias (2 Cr 35:25). O oráculo apresentado com a linguagem poética de lamentação indica que, como os acontecimentos enumerados anteriormente, a queda de Tiro seria algo realmente notável. No poema, introduzido por um pequeno trecho em prosa, Tiro é representada como um elegante navio manobrado por marinheiros de cidades fenícias (vs. 1-9), ricamente carregado de mercadorias de muitas nações (vs 9-25) que naufragou para tristeza dos navegantes (vs 25-36).

Os nove primeiros versos do poema descrevem a construção e tripulação do navio. As palavras: “Você diz, ó Tiro: Minha beleza é perfeita”, enfatiza mais uma vez que o pecado de Tiro foi o orgulho. Assim como o início do poema é a declaração soberba que a cidade julgava altivamente ter atingido a perfeição, foi seu orgulho e desejo de ascensão que desencadeou seu julgamento pelo Senhor e sua queda. A madeira do navio foi descrita. Os conveses foram feitos de ciprestes de Senir (que significa “montanha sagrada”), o nome amonita para o Monte Hermom. O mastro era feito de cedros do Líbano. Seus remos, de carvalhos de Basã, uma região a leste e nordeste de Quinerete. A estrutura do navio era feita de cipreste das costas de Chipre, e revestido de mármore ou marfim (segundo algumas traduções). Todos esses materiais serviam para ilustrar como a beleza de Tiro reunia elementos raros e preciosos de todo o mundo conhecido, valorizados tanto por sua qualidade como pela dificuldade em ser encontrados. As velas da embarcação são descritas como “feitas de belo linho bordado”, esse linho bordado era uma mercadoria muito cobiçada na época e seu uso na convecção de velas pode ser interpretado como um símbolo de riqueza exagerada. Os toldos são descritos como “azul e púrpura”, no original literalmente “púrpura azul e púrpura vermelha”, se levarmos em conta o que já foi informado sobre o uso reservado da cor púrpura na antiguidade para realeza e nobreza de diversas culturas, pode-se inferir que a visão de um navio como descrito por Ezequiel claramente evocaria conceitos de prosperidade, sucesso, imponência, luxo e orgulho.

Sidom e Arvade, territórios fenícios com experiência em navegação, forneciam os remadores a Tiro e Gebal, afamada desde os tempos antigos por seus pedreiros e mestres em construção de navios, os artesãos que proveriam manutenção até mesmo em alto mar se fosse necessário. A tribulação do navio era a melhor da época, com os melhores especialistas segundo suas áreas de atuação. A qualidade dos materiais usados e a mão de obra encontrada no navio sugere um fim glorioso para o mesmo, uma expectativa de sucesso onde quer que ele passe.

A partir da segunda parte do verso 9 até o verso 25, cita-se lugares que atuavam como parceiros e clientes de Tiro. É uma espécie de “catálogo de comerciantes”. Tiro recebia metais de Tarsis. Javã, Tubal e Meseque eram remanescentes do povo hitita e faziam tráfico de escravos e bronze. Togarma (provavelmente a atual Armênia) fornecia cavalos. Os homens de Rodes, marfim e ébano; a Síria, pedras preciosas, bordados e púrpura; Judá e Israel, cereais e especiarias; Damasco, vinho e lã; perfumes de Samá e Rama, etc. A lista extensa mostra como o comércio de Tiro era diversificado e a palavra “mercadorias” nos versos 12,14,16,19 e 22 é a tradução da palavra hebraica ’izzabón, que significa “a parte que fica com o negociante” e traz implícita a idéia de lucro. O Catálogo serve para ilustrar a variedade de mercadorias e também a riqueza que Tiro adquiria através delas.

Após descrever os materiais e mão de obra do navio e revelar seu catálogo comercial, Ezequiel prossegue o oráculo tragicamente nos versos 25 a 30: O navio naufraga e sua carga de bens, mercadorias e riquezas se perde. A tripulação (composta de marinheiros, pilotos, calafates, negociantes e soldados) morre afogada e seus gritos podem ser ouvidos até mesmo das praias próximas, demonstrando que nem a riqueza, poder, nem o conhecimento técnico que proporcionou um império mercantil a Tiro, nem seus muitos clientes poderiam livrá-la do juízo de Yavé. 

Os versos 30 e 31 mostram que o abatimento de Tiro é um acontecimento tão trágico que todos os outros marujos – provavelmente os que haviam desenvolvido relação comercial com ela - largariam seus afazeres apenas para pranteá-la. Apenas nestes dois versículos, enfatizando o impacto e consternação que a queda de Tiro teria no mundo marítimo, encontramos enumerados oito sinais de tristeza: 1 - O fato dos marujos abandonarem suas tarefas normais; 2 - erguer a voz; 3 - gritar com amargura; 4 – espalhar poeira sobre a cabeça; 5 – rolar na cinza; 6 – raspar a cabeça; 7 – usar vestes de luto e 8 – chorar com angústia de alma e pranto amargurado.

A última parte do oráculo (vs 32-36) é o lamento, propriamente dito, sobre o fim trágico de Tiro. É interessante notar que o verso 34 encerra uma idéia semelhante àquela encontrada em Ezequiel 26:2: a de uma situação extrema que pôs fim a uma vantagem comercial. A ira do Senhor contra Tiro se acendeu quando a cidade, em seu orgulho, quis tirar proveito da queda de Jerusalém e o julgamento de Deus impôs a mesma condição à orgulhosa Tiro de uma maneira tão marcante que chocou as nações e povos que a conheciam.

3. A Queda do Príncipe de Tiro. (Ezequiel 28:1-19)

No capítulo 28, Ezequiel passa da cidade a seu governador, como representante do caráter de sua comunidade e personificação do espírito da orgulhosa metrópole comercial. Rei e povo constituem uma corporação sólida que recebe a condenação por seu orgulho e auto-deificação. A Bíblia traz outros exemplos dessa “insanidade da prosperidade”, com reis declarando-se (ou querendo ser) deuses: Senaqueribe (II Rs 18:33-35), Faraó (Ez 29:3) e Nabucodonosor (Dn 3:15, 4:30) nos servem de exemplo dentre outros. 

O profeta Ezequiel refere-se ao rei de Tiro em duas partes distintas: a primeira traz a profecia contra o monarca (vs 1-10) e a segunda é um lamento sobre sua queda (vs 11-19). Qualquer interpretação destas passagens deve ser feita sem deixar de ter em mente que, apesar desta divisão, se trata de um oráculo contínuo, inteiro, que envolve pronunciamentos de julgamento e lamento. Há uma grande quantidade de termos específicos que ligam as duas partes da trama: o coração arrogante (vs 2,4,17), a beleza (vs 7,12,17), o esplendor (vs 7,17), a sabedoria (vs 4,5,7,17), o comércio (vs. 5,16,18) e o ouro (vs 4,13). Qualquer exegese proposta ao texto deve contemplá-lo em sua integridade e esclarecer satisfatoriamente os pontos levantados tanto na profecia quanto no lamento. O estudo individual das partes neste trabalho visa apenas uma maior facilidade didática.

A Profecia: O Castigo do Príncipe de Tiro por causa de sua Auto-Exaltação

O Príncipe de Tiro é anunciado no verso 2 como “nagîd”, literalmente, “líder” de Tiro. O termo “nagîd” era usado com exclusividade para designar os governantes de Israel e, no contexto de Ezequiel, serve para demonstrar que, apesar deste príncipe acreditar que havia adquirido sua posição por méritos e força própria, a realidade não era essa, ele devia seu poder e status a uma designação de Yavé. Ittobaal II era o rei da cidade fenícia nesta ocasião, mas a denúncia e condenação são mais contra a arrogância e autoteísmo de Tiro do que contra qualquer governante específico: “No orgulho do seu coração você diz: ‘Sou um deus; sento-me no trono de um deus no coração dos mares.’. Mas você é um homem, e não um deus (...)”. A intenção inicial do texto é colocar o rei de Tiro em seu lugar de homem mortal e revelar que suas presunções são falsas. Se compararmos a temática deste oráculo com a profecia de Isaías (II Rs 19:21-28), dirigida a um outro rei com delírios de divindade, Senaqueribe (II Rs 18:31-35), notaremos que o Senhor procedeu da mesma forma com ele, lembrando-o que Ele o havia estabelecido (II Rs 19:25). Essa idéia de divinização do monarca aparece também na introdução à lamentação, no verso 12, quando o rei de Tiro é tratado por “melek”, termo que exemplifica bem o conceito do Crescente Fértil de que o governante era um representante sobrenatural dos deuses. A expressão “trono de um deus no coração dos mares” bem pode referir-se ao trono reservado ao rei no altar do templo de Baal-Mecarte ou até mesmo à cidade de Tiro como habitação inexpugnável dos deuses. É válido observar que se trata de “um trono” de “um deus” e não “o” Trono do Deus Altíssimo”, como alguns tem sido induzidos a interpretar quando lêem a passagem em paralelo com Isaías 14:13,14. Aliás, sobre a passagem de Isaías, é válido ter em mente que o hebraico é uma língua que não faz distinção entre letras maiúsculas e minúsculas, logo a tradução do original “el” por “Deus” (com letra maiúscula) já é uma interpretação posterior que obscurece a intenção inicial do texto. “El”, apesar de ser uma partícula que aparece em vários dos nomes conhecidos de Yavé na Bíblia, é o nome de uma divindade cananéia, pai do deus Baal, para exemplificar essa distinção, podemos comparar o texto de Isaías com o relato do encontro de Abraão com Melquisedeque em Gênesis 14:17-24. Melquisedeque apresenta-se como sacerdote do “Deus Altíssimo”, no original hebraico “El Eliom”, justamente para que Abraão entendesse que o Deus dos dois era o mesmo, não o “el” cananita ou qualquer outro “el” conhecido na região. Sobre o “trono de el” é necessário lembrar que havia uma crença generalizada no Oriente da existência de uma montanha sagrada ao Norte muito alta, usada pelos deuses para ascender ao céu. Supostamente existia um trono no topo desta montanha e o deus ou homem que se assentasse sobre este trono teria poder sobre os demais deuses e homens, é mais provável que seja este o “trono de el” sobre o qual o rei de Isaias deseja se assentar do que sobre o “Trono do Deus Altíssimo”, interpretação favorita dos que insistem em ver Lúcifer como retratado ali.

A indagação do verso 3: “Você é mais sábio do que Daniel?”, pode não referir-se ao Daniel da Bíblia, mas a um abastado juiz chamado Danel (cf também Ez 14:14) da antiga cidade portuária de Ugarit, aclamado na época por seu conhecimento, sabedoria e justiça e que é citado também nas tabuinhas de Ras-Shamra, datadas do mesmo período deste oráculo. Essa suposição leva em conta que os versículos seguintes 4 e 5 mostram que sabedoria aqui não quer dizer uma habilidade especial vinda de Deus para cultura, ciência e interpretação profética como a dada ao Daniel bíblico (Dn 1:17), mas uma aptidão e conhecimento para se enriquecer e acumular tesouros, como uma espécie de malícia comercial. Essa sabedoria corrompida teria sido a causa do orgulho do rei (vs 5).

Com a finalidade de abater o rei orgulhoso, o Senhor traria os “estrangeiros das mais impiedosas nações”, os caldeus ou babilônicos, para que o arrancassem de sua posição pseudodivina e lhe lembrassem que ele não passava de um ser humano comum (vs 9). Como antítese ao conceito de exaltação e enfatizando o castigo pelo orgulho, aparece a expressão “descer à cova” (heb. shahat), equivalente ao Sheol, ou reino subterrâneo dos mortos. A palavra Shahat vem da raiz shûah, que significa “afogar-se” e sugere mais uma vez, como na profecia contra a cidade de Tiro (Ez 26:19), que como punição pelo orgulho, ele não seria capaz de dominar as águas, mas as águas o aniquilariam.

A profecia é finalizada com a predição: “Você terá a morte dos incircuncisos nas mãos dos estrangeiros” (vs 10). Segundo Heródoto, os fenícios praticavam a circuncisão como um sinal de honra e morrer como um incircunciso desprezado era a vergonha muito temida. O oráculo com essas palavras acrescenta à aniquilação o sentido de maior humilhação possível dentro da cultura fenícia.

O Lamento sobre o Rei de Tiro (Ezequiel 28:12-19)

A segunda parte das predições dirigidas ao rei de Tiro foram as que mais receberam atenção em esforços interpretativos desde o princípio. Antes de nos lançarmos à tentativa de analisar esta passagem, é relevante termos uma vista panorâmica das teorias prevalecentes.

• Satanás é o rei de Tiro
Talvez esta seja a suposição mais conhecida e com o maior número de adeptos. Muitos através da história da igreja cristã têm interpretado Ezequiel 28:12-19 como a descrição de Satanás. Pais da igreja como Tertuliano, Orígenes, João Cassiano, Cirilo de Jerusalém, e especialmente, Jerônimo ajudaram a popularizar esta interpretação porque liam Isaías 14:12-15 como uma passagem paralela. Apoio moderno a esta teoria é encontrado, por exemplo, em Kaiser Junior, que interpreta a história não somente como uma contenda entre meros mortais, mas simultaneamente como uma batalha sobrenatural pelo domínio. Segundo Kaiser Junior, Satanás teria sua própria sucessão de tiranos que correspondiam à linhagem davídica de Deus, além de sua própria pessoa culminante, o tirano dos tiranos. 

• O rei de Tiro é uma analogia do Primeiro Homem
Devido a certos paralelos entre nossa passagem e Gênesis 2-3, alguns supõem que o rei de Tiro seja uma ilustração ou adaptação de Adão, o primeiro homem. Os dois relatos compartilham alguns elementos: o Jardim do Éden, a criação, a perfeição, o querubim e a expulsão. Mas existem diferenças básicas que tornam difícil sustentar essa posição: em Ezequiel há pedras preciosas em vez de árvores; o ser está coberto e não nu; a responsabilidade é de guarda e não de cultivo e cuidado do jardim; não há serpente ou elemento tentador externo e, o mais importante, não há mulher.

• Trata-se de um relato de caráter mitológico
A linguagem de Ezequiel tem sido vista por muitos estudiosos como mítica e encorajado a interpretação de identificar o rei de Tiro como uma entidade mitológica ou como se ele se considerasse a personificação de uma deidade mitológica. Para validar essa suposição, geralmente são evocados os termos “querubim”, “monte santo de Deus” e “pedras afogueadas” em ligação com 28:2 “No orgulho do seu coração você diz: ’Eu sou El (...)”, 

Esta teoria era refutada até pouco tempo alegando-se que não existia nenhum mito na literatura do Antigo Oriente que demonstrasse semelhanças com Ezequiel, entretanto Pfeiffer e Harrison não são dessa opinião. Eles citam em seu comentário bíblico que os fenícios conheciam uma fábula estruturalmente muito parecida com a narrativa de Gênesis 2 e 3. Segundo a lenda fenícia, no Jardim de Deus habitavam inicialmente o homem ideal (o Urmensch, ou primeiro homem), perfeito em sabedoria e beleza e o querubim que guardava o jardim. Embora fosse um simples mortal, o homem ficou orgulhoso e proclamou-se deus. Por este pecado, o querubim o expulsou de lá. Segundo o relato de Ezequiel, o rei de Tiro seria arruinado por uma ofensa semelhante.

A posição literal
Esta última perspectiva entende que o príncipe e o rei de Tiro são a mesma pessoa e interpreta o texto nominalmente, como um oráculo dirigido a um homem específico em determinado momento do tempo. Geralmente esta posição requer mais subsídios, considerando a linguagem difícil de Ezequiel e o abismo cultural, temporal e de pensamento que dificulta a descoberta do sentido primário do texto.

Análise do Lamento sobre o rei de Tiro

Embora escrita em métrica qiná, própria das lamentações, o texto é mais uma ironia do que uma lamentação. 

Na expressão “modelo da perfeição”, a palavra hebraica traduzida como modelo é “hôtem”, e traz o sentido de “aquele que sela’, ou ”aferidor”, como algo a ser imitado ou invejado. Pode referir-se ao papel de destaque ocupado pelo rei que inspirava a ambição dos outros príncipes fenícios. Logo em seguida, aparecem duas outras características do monarca: “cheio de sabedoria e de perfeita beleza”, lembrando que na profecia anterior a sabedoria é retratada como malícia comercial e que o texto deve ser tratado como uma unidade, podemos estender até aqui a interpretação que a sabedoria e beleza podem ser, respectivamente, as habilidades de adquirir riquezas e os luxos advindos desses tesouros. Seguindo o raciocínio desta forma, o rei de Tiro (do ponto de vista dos mercadores marítimos e do povo fenício) servia mesmo de modelo aferidor.

Os versos 13 a 15 são problemáticos. Muitos interpretam o Éden aqui como o jardim da criação e postulam que o rei de Tiro seria então Adão ou Satanás. Mas se entendermos a passagem literalmente, se este é o Jardim do Éden literal, do relato de Gênesis, não há possibilidade do rei da cidade de Tiro (homem) ser o sujeito do oráculo. Se esta possibilidade não existe, e insistimos sustentando na identificação do destinatário das palavras proféticas como ou o primeiro homem ou o diabo, o lamento torna-se um texto independente, sem qualquer ligação com a profecia anterior e já vimos inicialmente a importância do oráculo ser tratado como um todo contínuo e coeso. 

Uma proposta interessante para tentar solucionar a expressão “Éden, jardim de Deus”, é a leitura paralela do oráculo contra o Egito (capítulos 29-31). A passagem sugere uma conexão – ao menos na mente do profeta e talvez na da sociedade como um todo – entre a idéia de “Jardim de Deus” ou Éden e o Líbano. No capítulo 31 há a referência ao “cedro do Líbano” (vs 3), aos “cedros do jardim de Deus” (vs 8) e das árvores do Jardim do Éden até mesmo sentindo inveja do cedro do Líbano. O rei responsável por Tiro ter iniciado seu processo de ascensão comercial foi Hirão, que participou ativamente da construção do templo de Salomão. A riqueza de Tiro começou fabricando artefatos em bronze (o que pode ser uma referência às pedras afogueadas e a fundição) e vendendo madeiras do Líbano. Desta forma, o rei de Tiro teria estado no Éden representado em seu antecessor distante. Esta imagem comercial relacionando o Éden e o Líbano parece convincente porque não foge do propósito do oráculo, que é denunciar Tiro por seu pecado de ganância (26:2). As pedras como cobertura podem ser interpretadas como símbolos de riqueza.

A expressão “Você foi ungido querubim guardião” merece atenção especial. O original hebraico é ambíguo e passível de duas traduções de sentidos diferentes, pode significar tanto “Você era o querubim ungido” quanto “você estava com o querubim ungido”. Os que vêem Adão nesta passagem geralmente preferem a última tradução e alegam que Adão tinha uma companhia angelical no Éden, mas devemos lembrar algumas coisas: no relato de Gênesis, a mulher é feita porque não era bom que o homem estivesse só, logo, é improvável que ele desfrutasse de um companheiro inteligente; se a função do suposto querubim companheiro é de guardião de Adão, deve-se expor do que ele estava sendo protegido e o porquê; e, finalmente, no relato bíblico, é o homem que é expulso do paraíso, não o querubim; somente após a expulsão de Adão é que encontramos menção da presença de querubins no jardim (Gn 3:24). Há ainda os que entendem que o querubim deste texto é Satanás, literalmente, o que também é difícil de sustentar, pois Satanás nunca é retratado na Bíblia como guardião de coisa alguma. Deve-se considerar ainda que, especificamente em Ezequiel, os querubins são descritos como aqueles que guardam e sustentam o trono de Deus, dar a Satanás a posição de querubim antes de sua queda é tomar por certo o que não tem respaldo em nenhuma parte da Escritura, ou seja, afirmar que a função de Satanás era guardar e sustentar o trono de Deus. 

Parece razoável interpretar o rei de Tiro (homem) no papel do querubim ungido como alguém que recebeu um privilégio do próprio Deus. Este privilégio pode ter sido participar da edificação do palácio de Davi e, posteriormente, da construção do Templo, inclusive na fabricação de diversos utensílios sagrados. A posição de destaque no comércio mundial pode ter sido fruto das bênçãos de Deus pela participação de seus antepassados no sistema de culto em Israel. Não se pode perder de vista que o motivo dos oráculos contra Tiro é a expectativa gananciosa da cidade de lucrar com a queda de Jerusalém. O rei de Tiro que auxiliou Davi e Salomão tinha uma postura muito diferente daquele da época de Ezequiel, basta comparar I Reis 5:7 com Ezequiel 26:2 para que isso fique evidente. Trair o legado deste privilégio por orgulho e ganância mereceu o julgamento e punição de Yavé.

A posição de que a passagem trata de um relato mítico também não deve ser descartada totalmente. Relacionar o lamento sobre o rei de Tiro com elementos mitológicos da cultura fenícia parece ser realmente válido dentro do contexto estrutural encontrado em toda a obra de Ezequiel. O profeta, por todo o livro, faz uso de diversos recursos didáticos para viabilizar o entendimento de sua mensagem: representação dramática, atos simbólicos, parábolas e provérbios, dentre outros. Parece razoável que este profeta também utilizasse elementos mitológicos ou fábulas da cultura fenícia para que a mensagem fosse compreendida da forma mais clara e fiel possível por este povo. Um argumento forte contra esta suposição, porém, é que Ezequiel profetizou contra Tiro no meio do exílio babilônico, ele não se deslocou até a orgulhosa cidade comercial para entregar sua profecia e os ouvintes deste oráculo provavelmente foram judeus deportados. Se levarmos isso em consideração, parece injustificado ou inútil o esforço para deixar o oráculo mais facilmente inteligível aos fenícios. 

O “monte santo de Deus”, referido no verso 14, deve ser o monte Saphôn, montanha sagrada para o povo fenício e pode ser interpretada metaforicamente como um lugar elevado, de privilégio e destaque, ainda mais se pensarmos que este oráculo é o lamento sobre a queda e deve enfatizar o sentido de perder uma alta posição para ser humilhado até o inferno. Cabe aqui também o pensamento comum oriental sobre a existência da montanha sagrada ao Norte, escada dos deuses para o céu.

Caminhar entre as “pedras fulgurantes”, no original hebraico, quer dizer andar entre as pedras que se destacam por seu brilho, não que estas pedras sejam incandescentes. É a definição de algo que emite luz própria, à semelhança do fogo, não que esteja se consumindo ou envolto em chamas. Esse brilho à aparência de fogo é característico da manifestação divina (cf. Ez 1:13) e pode ser interpretado como mais um indício de que o rei de Tiro foi favorecido por Deus, mas sua atitude ambiciosa atraiu juízo sobre si. Não somente sua posição, mas suas riquezas somente foram adquiridas com a permissão de Yavé. Existem alguns teólogos que tentam definir essas “pedras fulgurantes” como algum paralelo na religião fenícia ao sacerdócio judaico, alegando uma simbologia das pedras do peitoral relacionada a fragmentos de lendas sobre o monte Saphôn e as estrelas de Baal o rodeando. Entretanto os que pensam assim esquecem que o texto fala sobre “andar” entre estas pedras, não usá-las como adorno sagrado, como é comumente sugerido.

“Você era inculpável em todos os seus caminhos” (vs 15), aparece em muitas traduções como “Perfeito em todos os caminhos”. A palavra traduzida por perfeição ou até inculpabilidade, no texto hebraico original, é “tamin” e designa mais um estado de integridade do que de ausência de defeitos. Perfeição sugere que não falta nada ou parte alguma, como a oferta ao Senhor devia ser perfeita e não apresentando animais mancos (que faltavam ou faziam uso atrofiado dos membros) ou aleijados. Uma tradução do sentido aproximado seria, “Não te faltava nada, mas sua ganância desejou ir além”. Essa concepção está em harmonia com a temática do oráculo como um todo e deve ser considerada. É interessante notar que ela introduz a “multiplicação do comércio” e o aparecimento da violência e do pecado (vs 16), a violência pode ser entendida como uma tentativa de atender à ganância do coração a qualquer custo, numa atitude em que “os fins justificam os meios”. A continuação da leitura revela a expressão ”comércio desonesto”, essa desonestidade não era somente cobrar com usura, além do preço justo, com ganhos excessivos, mas principalmente usar de quaisquer meios para enriquecimento. Se pensarmos que Tiro era favorecida por Deus por sua atitude em relação a Israel anteriormente, parece natural que a mudança de atitude nesta ultima ocasião (26:2) resultaria num juízo de Deus (“fiz sair de você um fogo que o consumiu”) contra ela. Essa ideia ganha força enfatizada também na profanação do santuário, a quebra de uma instituição sagrada, e a expulsão, ou o fim dos privilégios.


Conclusão:

Os oráculos de Ezequiel são dirigidos ao rei de Tiro histórico, personagem real, como conseqüência de seu orgulho e ganância. As inferências míticas podem ter sido introduzidas para que a compreensão da mensagem fosse facilitada dentro da cultura fenícia, ainda que não haja sustentação para crer que o profeta tinha expectativas de que suas palavras chegassem diretamente a esse povo. A suposição de que o rei de Tiro é uma analogia de Adão não apresentou argumentos convincentes o bastante para validá-la, nem a que postula que o oráculo dirige-se a Satanás antes de sua queda. Entretanto, é impossível não enxergar um poder espiritual atuando por trás do personagem humano. Mesmo que os oráculos não sejam contra Satanás, deve-se reconhecer que havia um espírito maligno por trás do orgulho do rei de Tiro, instigando-o em sua auto-deificação.




BIBLIOGRAFIA:

ARTHUR, Joseph. “O Rei de Tiro em Ezequiel 28:12-19: Seria Ele Satanás?” in:Vox Scripturae – Revista Teológica Latino-americana.Vol 7. Ano 1. Junho.Pg 3-24. São Paulo: VS/Aetal, 1997.
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional, São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2000
BOYER, O.S. Pequena Enciclopédia Bíblica. 14 impressão. São Paulo:Vida, 1989.
BUCKLAND, A.R. Dicionário Bíblico Universal. Traduzido em português por J.S.Figueiredo. São Paulo: Vida, 1988.
DOUGLAS, J.D (org.). O Novo Dicionário da Bíblia. Editor em português: R.P.Shedd. São Paulo: Edições Vida Nova, 1988.
KAISER JR, W. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1988
OLIVA, Alfredo dos Santos. A História do diabo no Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2007.
PFEIFFER, C.F et HARRISON, E.F. Comentário Bíblico Moody. Volume 3-Isaías à Malaquias. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1987.
SMITH, R. L. Teologia do Antigo Testamento. Tradução de H.U. Fuchs e L.Yamakami.São Paulo: Edições Vida Nova, 2001.
WILLMINGTON, Harold L. A Bíblia em Esboços. Tradução de E. P Junior. São Paulo: Hagnos, 2001.

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por Luciano Maia
Fonte: http://vulcanobh.blogspot.com.br

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Será o Senhor Jesus uma cópia de Hórus?


Não será a História Bíblica acerca do Senhor Jesus uma cópia de mitologia egípcia, nomeadamente, a história de Horus?

Dificilmente. O livro de Acharya S. “The Christ Conspiracy” é a aparente fonte da lista em baixo descrita, mas a autora apenas oferece evidências referenciais para cinco das suas alegações. Alguns dos apontamentos de rodapé contradizem com as suas próprias alegações! Mas isto é o que seria de esperar; quando alguém rejeita a visão Bíblica do mundo ela fica com um mundo irracional.

Eis aqui algumas das alegações acerca dos “paralelos” entre o Senhor Jesus e Horus e outros deuses.

1) Hórus nasceu de uma virgem com o nome de Isis-Meri a 25 de Dezembro, numa cave/manjedoura, e o seu nascimento foi anunciado por uma estrela no Oriente, vista por 3 sábios.

Primeiro, a mãe de Hórus não era virgem. Ela era casada com Osíris e não há razão para se supor que ela se absteve depois de casada. De acordo com a sua historia, Hórus foi miraculosamente concebido. Seth tinha morto e desmembrado Osíris, mas Isis voltou a reconstruir o corpo dele, e seguidamente teve relações com ele. Em algumas versões, ela usou um órgão sexual masculino feito à mão porque não conseguiu encontrar essa parte do corpo do marido. Portanto, embora tenha sido uma concepção milagrosa, não foi uma concepção análoga à Incarnação do Senhor Jesus.

Segundo, foram assinaladas 3 datas de nascimento na mitologia de Horus, sendo que uma delas é a 25 de Dezembro. Como a Bíblia não diz que o Senhor nasceu a 25 de Dezembro, não há nenhum paralelo.

Terceiro, “Meri” (“Mr-ee”) é a palavra egípcia para “amada” e aparentemente foi aplicada a Isis antes do tempo do Senhor Jesus como um título e não como parte do seu nome. Mas como provavelmente havia milhares de mulheres entre o tempo de Hórus e altura do Senhor com um nome ou título que era uma variação de “Mary”, não há razão alguma para se supor que a Mãe do Senhor Jesus foi nomeada segundo o nome de Isis em particular. Mesmo que, hipoteticamente, os autores dos Evangelho tivessem fabricado a Mãe do Senhor e a tivessem dado o nome de “Mary” (Maria), é muito mais provável que eles se baseassem numa “Mary” mais perto do seu tempo do que na “Isis-Meri”.

Quarto, Hórus nasceu num pântano e não numa caverna/manjedoura.

Quinto, o nascimento de Hórus não foi anunciado por nenhuma estrela no Oriente.

Sexto, não havia “três sábios” aquando do nascimento de Horus, e nem aquando do nascimento do Senhor Jesus. A Bíblia não diz o número de sábios, e nem diz que eles estavam presentes na altura do Seu Nascimento. Além disso, eles só viram o Senhor quando Ele estava na Sua casa e não na manjedoura (e isto quando Ele já tinha cerca de 2 anos).

2) O seu pai terrestre era chamado de “Seb” (“Joseph” – “José”).

Não há nenhum paralelo entre o nome Egípcio “Seb” e o Hebraico “Joseph” para além do facto de serem nomes comuns. Para além disso, Seb era o pai de Osíris e não de Hórus.

3) Ele era de descendência real.

Isto é verdade, mas não é uma comparação com o Senhor Jesus. Quando os cristãos dizem que o Senhor é de descendência real, eles tem em mente o fato de Ele ser da linhagem do Rei David, um rei terreno (Apocalipse 22:16). De acordo com o mito, Hórus descendia de realeza celestial uma vez que era o filho do deus principal.

4) Quando tinha 12 anos, Horus foi um professor-criança no Templo, e aos 30 anos ele foi baptizado, havendo desaparecido durante cerca de 18 anos.

Ele nunca ensinou em templo algum, e nunca foi batizado. Além disso, o Senhor não “desapareceu” durante anos (dos 12 aos 30). Ele trabalhou durante esse tempo como Carpinteiro.

5) Hórus foi batizado no rio Eridanus ou Iarutana (Jordão) por “Anup o Batizador” (“João o Batista”), que foi mais tarde decapitado.

Mais uma vez, Hórus nunca foi batizado. Não existe um “Anup o Batizador” na história.

6) Ele teve 12 discípulos, dois dos quais eram suas “testemunhas” e eram chamados de “Anup” e “Aan” (os dois “João”).

Hórus teve 4 discípulos (chamados de ‘Heru-Shemsu’). Há outra referência para 16 seguidores e um grupo de seguidores chamados de ‘mesnui’ (ferreiros) que se juntaram a Hórus em batalha, mas eles nunca são numerados. Não há nenhuma referência aos 12 discípulos ou referência a algum deles ser chamado de “Anup” ou “Aan”.

7) Hórus executou milagres, exorcizou demônios e ressuscitou El-Azarus (“El-Osiris”) dos mortos.

A história dele conta, de fato, que ele executou milagres, mas nunca chegou a exorcizar demônios nem a ressuscitar o seu pai dos mortos. Além disso, Osíris nunca referenciado como ‘El-Azarus’ ou ‘El-Osiris’ (claramente uma tentativa de fazer o seu nome assemelhar-se ao Lázaro da Bíblia).

8. Hórus andou sobre a água.

Não, ele não andou.

9) O seu título especial era “Iusa” o “sempre-tornante filho” de “Ptah”, o “pai.” Ele era como tal chamado de “Criança Sagrada.”

Hórus nunca foi chamado de “Iusa” (nem há alguém na história Egípcia que alguma vez tenha sido chamado “Iusa” – essa palavra não existe) nem “Criança Sagrada”.

10) Ele fez um “Sermão na Montanha” e os seus seguidores recontaram os “Ditados de Iusa.

Hórus nunca fez um tal sermão, e, como dito em cima, ele nunca foi referido como “Iusa”.

11) Hórus transfigurou-se na montanha.

Não, ele não se transfigurou na montanha ou em lugar algum.

12) Hórus foi crucificado entre dois ladrões, enterrado durante 3 dias, e mais tarde ressuscitou.

Hórus nunca foi crucificado. Há uma história não oficial na qual ele morre e é atirado em pedaços para a água, sendo que mais tarde ele é pescado por um crocodilo a pedido de Isis. Esta história não oficial é a única em que ele morre.

13) Ele era também o “Caminho, a Verdade, a Luz”, “Messias”, “O Filho Ungido de Deus”, o “Filho do Homem”, o “Bom Pastor”, o “Cordeiro de Deus”, a “Palavra feita Carne”, a “Palavra da Verdade”, etc.

Os únicos títulos que foram atribuídos a Hórus foram “Grande Deus”, “Comandante dos Poderes”, e “Vingador do Seu Pai”. Nenhum dos títulos listados em cima aparece na mitologia Egípcia.

14) Ele era o “Pescador” e estava associado com o Peixe (“Ichthys”), Cordeiro e Leão.

Ele nunca foi referido como “o pescador” e não há nenhum cordeiro ou leão na história. As notas de rodapé de Acharya S. acerca desta alegação mostram uma associação com o peixe (isto é, que Hórus ERA UM PEIXE, ao contrário do Senhor Jesus), sem evidência alguma de ele alguma vez ser chamado de o “pescador” ou tendo alguma associação com o cordeiro ou o leão.

15) Ele veio para completar a Lei.

Não havia “lei” alguma que ele fosse suposto “completar”.

16) Hórus foi chamado de “o KRST” ou o “Ungido”.

Ele nunca foi chamado por nenhum desses títulos. “Krst” em Egípcio significa “enterro”. Não era um título.

17) Tal como Jesus, “Era suposto Hórus reinar durante mil anos”.

Não há menção disto na mitologia Egípcia.


Links:


Sinceramente, é difícil não ler algumas das alegações dos cépticos sem soltar uma gargalhada. Algumas das acusações são tão obviamente fabricadas que é difícil acreditar que alguém as possa inventar e muito menos levá-las a sério. Mas para quem acredita que répteis evoluíram para pássaros, acreditar que o Senhor Jesus Cristo é “uma Cópia de mitos pagãos” não é algo fora do normal.

Tal como dito em cima, quando alguém abandona a visão Bíblica do mundo fica com um mundo irracional.



Fonte: https://darwinismo.wordpress.com

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A IGREJA E O CIRCO GOSPEL


Muitas vezes recebemos questões como: Por que vocês não usam esse ou aquele super recurso para melhorar a edição/layout? Por que vocês não utilizam ferramentas de discursos ou aplicam estratégias para aumentar o número de curtidas? Por que vocês não compartilham vídeos dos "queridinhos" do mundo gospel, dando uma pitada de humor na página? Quem são vocês da Página?

Bem, amados, a nossa resposta permanece a mesma de quando começamos essa página com o objetivo de dividir algumas reflexões e textos acerca do Evangelho.

Quem somos nós? Bem, somos os que são consolados pelo Espírito, amados de Jesus, e filhos de Deus, assim como todos aqueles que se encontraram com o Cristo pelas estradas de Damasco.

Essa página não tem como objetivo qualquer pretensão pessoal de quem quer que seja. Afinal de contas, a maior parte da história (verdadeira) da Igreja do Senhor aqui na terra foi realizada de forma anônima, por homens e mulheres cujos nomes somente saberemos no céu. Gente simples e humilde que sangra pelo Evangelho.

Mas, se Deus vê e se alegra, o que mais importa? Nada mais importa conquanto seja Ele anunciado e o caráter do Seu Filho enxergado naqueles que, de fato, se agarram em Seu precioso Nome como única fonte de esperança.

Não pretendemos agradar quem quer que seja e nem rentabilizar influências ou vender o que quer que seja; receber convites para pregar ou encarnar o "Ministério __________ (nome da pessoa)". Não faremos disso uma estrutura pesada.

O Brasil tem padecido de males como esses. A título de exemplo, observe que conhecemos uma centena de 'cantores' e 'pastores' que construíram fortunas às custas de música e discurso sobre a bíblia. Mas, sejamos francos: conhecemos uma única pessoa que construiu fortuna às custas de louvor sincero e pregação genuína do Evangelho de Jesus Cristo? A resposta que ecoa do coração do Evangelho é NÃO. (E não venha dar "piti" na Página, porque, como foi dito, não estamos aqui para agradar você).

O Evangelho não produz glamour, estruturas pesadas, instituições que prezam mais por seus usos e costumes (manuais de regras comportamentais), e comércio. Então, me responda por qual razão todo "artista gospel" que conseguiu "5 minutos de fama" logo abre a sua lojinha virtual? Por qual razão eles vendem os seus "testemunhos" em livros? Por que insistem em rentabilizar ou monetizar o Evangelho?

Mais uma vez vamos insistir: não adianta vir aqui brigar conosco, pois você perderá o seu tempo. Os fins não justificam os meios. Pouco importa se o seu "artista" ajuda criancinhas na África com essa grana às custas do Evangelho ou se faz caravana para Israel. O fato é que fomos chamados para servir o Evangelho (servir a Cristo) e não para nos servir dele (ou, como muitos estão fazendo: se lambuzando dele).

Não estamos falando de fanatismo religioso (amor sem conhecimento) e nem de legalismo religioso (conhecimento sem amor). Estamos falando de discernimento (amor e conhecimento andam de mãos dadas). É por isso que não se tratam de regras escritas com tinta e tábuas de pedra, mas escritas com o Espírito do Deus vivo nas tábuas de corações humanos.

Quando é que vamos discernir que todo comércio que andam fazendo, ainda que a pretexto de fazer caridade ou levar o evangelho, não redime as ações praticadas? Jesus Cristo, por acaso, agora é servido por mãos humanas, como se estivesse em necessidade de alguma coisa?

Quando vamos discernir que o Evangelho não é sobre um coração transformado, mas sim sobre um novo coração? Você não se converte porque passa a fazer parte de uma comunidade, mas por meio de uma obra sobrenatural de Deus na sua vida.
Os discípulos nunca tiveram muito dinheiro, nunca tiveram TV ou Rádio, nunca venderam camisetas ou seja lá o que for - aliás, não venderam NADA -, e nunca tiveram grandes prédios, templos, sinagogas, ministérios. Eles nunca tiveram absolutamente NADA disso. Mas sabe o que eles fizeram? Aqui está a resposta: Eles viraram o mundo de cabeça para baixo.

Mas hoje não é mais assim. Hoje, a pessoa canta um pouquinho bem ou fala um pouquinho bem e ela já SE TORNA um ministério. E aí já sabemos. É mais um vida girando na estrutura do circo gospel.

Os frutos são estruturas obesas, gente sem discernimento, uma cristandade cheia de fetiche pelos "pastores-celebridade e cantores-celebridade", gente vivendo do dinheiro que sequer deveria ganhar (nesse contexto), e gente perdida que se agarra à ideia de que está abençoando muita gente. Cegos guiados por cegos.

E, uma vez ou outra, aparece o "crente-fã" revoltadinho porque alguém falou algo de verdadeiro sobre essa orgia gospel. Ele se sente ofendido porque não consegue discernir que Deus misericordiosamente age, resgata e salva pessoas APESAR de toda a palhaçada.

O "crente-fã" fica bravo porque crê que se Deus agiu é porque partilha e se agrada desses acontecimentos. Se alguém é salvo ouvindo um culto da Universal do Reino de Deus ou dos "malucos" da Lagoinha, automaticamente o "crente-fã" crê que Deus está ali. Mas não, Ele não se agrada disso.

O objetivo do que dizemos é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para o outro pelas ondas teológicas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela malícia de certas pessoas que induzem os incautos ao erro. Precisamos nos agarrar aos pilares da nossa fé.

Leonard Ravenhill estava certo: mais pessoas vão para o inferno por causa de um evangelho mal pregado do que por qualquer outra razão. Esse é o alerta para você: é bom que você não tenha o sangue deles em suas mãos, pois dará conta das suas ações. E isso não é uma ameaça - não me venha com essa -, isso é um alerta encharcado da reverência e da solenidade que permeia tais ações.

Você tem um bom testemunho? Então vamos vender livros, cursos, CDs (até "coaching" tiveram a capacidade de fazer). Vocês estão malucos? Você tem uma boa voz? Então façamos um igreja como se fosse um palco e aí você pode cantar, vender CDs, e talvez até abrir uma loja virtual para vender camisas, canecas e capacetes. Vocês estão malucos? Desperte, ó povo de Deus! Esse evangelho foi proclamado a custo de sangue. Vocês perderam totalmente o juízo. Mal sabem vocês que são juízo de Deus sobre esse povo ambicioso e idólatra que consegue para si mesmo a eficácia das suas próprias cobiças.

Muitos de vocês oferecem o mesmo que o Diabo, mas em nome de Cristo. Ouça, Igreja, saia desse meio enquanto há tempo. Corra para longe disso e não toque em absolutamente nada quando sair. Corra pela sua vida. Esse é o meu conselho para você. E saiba que você não encontrará uma igreja local perfeita, mas certamente encontrará igrejas que são feitas por pessoas que honestamente desejam servir ao Senhor. Quem tem ouvidos, que ouça, pois o Senhor está às portas.

Eu não quero ser achado entre aqueles que estão fazendo coisas que o Senhor e os seus discípulos abominariam. Eu quero ser achado entre aqueles cuja vida expressa o caráter do Cristo, porque o evangelho não é sobre uma vida que tentamos viver com Jesus ou para Jesus, mas sim sobre Jesus Cristo vivendo em nós. E se Ele vive, o nosso caráter muda.

Responda-me: Por que mesmo você acredita em Deus? Porque até mesmo os demônios acreditam e tremem diante dele. Então me diga: o que exatamente coloca o diabo e os demônios de um lado da linha e você de outro? Certamente não são essas sandices que estão ao nosso redor.

É este o lamento de Deus hoje:
"Pensavas que (EU) era como você".

A vida nessa terra não é um parque de diversões gospel. Estamos aqui neste mundo caído como peregrinos e em nós foi posta a mensagem da reconciliação entre Deus e todos os homens. Precisamos anunciá-la, se é que amamos os nossos semelhantes, ainda que para isso precisemos desafiar os coronéis da fé, os currais evangélicos e os celeiros de heresias.


Não tememos ninguém, senão ao Senhor,


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cessacionismo - por Lee Irons



Embora os excessos “carismáticos” de hoje em dia extrapolam-se para além da tradicional prática de falar em línguas e descambam-se para os verdadeiros espetáculos que raiam ao bizarro (haja vista as manifestações extáticas associadas à Bênção de Toronto), as línguas ainda podem ser consideradas assunto em pauta, ante a necessidade de esclarecimento acerca da matéria. Não nos estendemos pelos muitos outros pontos teológicos envolvidos, como a teologia da segunda bênção, o papel da experiência subjetiva na vida cristã, e assim por diante. O que se segue é meramente uma compilação dos melhores argumentos cessacionistas que demonstram que as línguas e a profecia cessaram com o fim da era apostólica. De modo algum estes argumentos são originais. Para tanto, baseamo-nos muito no trabalho de Richard Gaffin em Perspectives on Pentecost (1979), o qual consideramos o melhor livro sobre o assunto. De fato, muito do que se segue não passa de simples esboço dos argumentos de Gaffin, citados por nós de forma completamente livre. Outras fontes são citadas também a título de corroboração e exposição.

ENUNCIADO DA TESE CESSACIONISTA

"Cessacionismo": assim entendida a tese que alguns dons (e seus correspondentes ministérios) descritos no Novo Testamento são ordinários e perpétuos, enquanto outros eram extraordinários e foram paulatinamente desaparecendo da vida da igreja a partir do fim da era apostólica.

DONS ORDINÁRIOS/MINISTÉRIOS (para justificação dessa tríplice classificação, veja Brown)

1. Pastores e mestres - Rm 12:7; Ef 4:11; I Tm 3:1-7 2. Presbíteros (dom de dirigir e governo) - I Co 12:28; Rm 12:8; I Tm 5:17 3. Diáconos (dom de serviço, distribuição, misericórdia) - Rm 12:7-8; I Tm 3:8-13

DONS EXTRAORDINÁRIOS/MINISTÉRIOS (I Co 12:28-30; Ef 4:11)

1. Apóstolos 2. Profetas (palavra de sabedoria; de conhecimento - I Co 12:8) 3. Evangelistas 4. Discernimento de espíritos (I Co 12:10) 5. Línguas 6. Interpretação de línguas 7. Operadores de milagres; curas ("fé" inclusive(?) I Co 12:9)

NOTA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE DOM E MINISTÉRIO

Não podemos detalhar aqui, mas nos parece razoável presumir que há um relacionamento íntimo entre dom e ministério. No caso dos dons extraordinários, é desnecessário presumir que um apóstolo tivesse de impor as mãos sobre cada pessoa para recebesse um determinado dom extraordinário (apesar de que isso ocorreu em alguns exemplos - At 8:17; 19:6; II Tm 1:6). Em vez disso, a outorga de carismas ocorria por ocasião da ordenação.

No que diz respeito aos dons ordinários, emerge o seguinte quadro. Nas Epístolas Pastorais (que nos dão uma ideia da ordem a ser perpetuada na igreja após a era apostólica), vemos as qualificações (I Tm 3:1-13), o teste probatório (I Tm 3:10), e a ordenação (I Tm 5:22; Tt 1:5) como elementos fixos a ser considerados no estabelecimento de oficiais ou lideres na igreja, os quais eram dotados de dons de ensinar (pastor), reger (presbítero) ou exercer misericórdia (diácono).

Além dos ministérios especiais, há também o ministério geral de todos os crentes (Ef 4:11-13). Uma vez que todo o Corpo de Cristo é dotado espiritualmente, cada um pode (e deve) exercitar o seu, ou os seus, dons, "para a obra do ministério" e da edificação do corpo, sem ter que necessariamente ser ordenado a um ministério/oficio especial (Rm 12:4-8; Ef 4:16; I Pe 4:10-11).

AFIRMAÇÕES POSITIVAS

A questão não é se o cessacionista aceita (ou rejeita) a realidade da obra do Espírito Santo na vida dos crentes.

A posição cessacionista afirma que todos os crentes possuem “o dom” do Espírito Santo (Jo 7:37-39; At 2:38; I Co 12:13). Todos os que são batizados em Cristo são batizados com o Espírito Santo.

Além disso, afirma-se que a igreja pós-apostólica continua sendo abençoada ricamente com várias distribuições do Espírito Santo, ("dons") para a edificação do corpo de Cristo através de diversas formas de ministério (I Co 12; Ef 4:11-16). Todo o crente possui tanto “o dom” como “dons”. Nem todos crentes têm todos os dons, uma vez que estes são distribuídos por Deus conforme lhe apraz (I Co 12).

Sobretudo, a posição cessacionista não nega o subjetivo, o aspecto experiencial da vida cristã, que pode ser considerado como um elemento intrínseco do ministério do Espírito Santo. Tão profunda e misteriosa é a obra do Espírito na vida dos crentes que chega a ser por vezes indescritível (Rm 11:33; II Co 9:15; 12:4; I Pe 1:8), ministrando-nos num nível de nosso ser que suplanta o nosso intelecto. O Espírito ministra a nós …

• a ajuda na oração (Rm 8:26-27; Ef 6:18; Jd 20)
• o derramamento do amor de Deus em nossos corações. (Rm 5:5)
• a impressão em nós de um antegozo da glória celeste. (II Co 1:21b; Ef 1:13ss.)
• a nossa santificação (I Co 6:11; I Pe 1:2)
• o enchimento de nossos corações com o amor, alegria, paz, esperança etc. (Rm 15:13; Gl 5:22ss.)
• o nosso despertamento com poder para a mortificação da carne (Rm 8:13)
• a testificação em nosso espírito de que somos filhos de Deus (Rm 8:15b)

Certamente essa lista é incompleta, e sem dúvida muitos aspectos do ministério do Espírito Santo, acima descritos, são sobrepostos ou se tornam indistinguíveis na experiência atual.

Os cessacionistas afirmam também que, embora todo o verdadeiro filho de Deus tem o Espírito como um dom permanente (Rm 8:9), a experiência subjetiva do crente é variável. Portanto, é possível entristecer e apagar o Espírito Santo (Ef 4:30; I Ts 5:19), e, por isso, somos ordenados a nos enchermos e andarmos no Espírito (Ef 5:18; Gl 5:25).


PRESSUPOSTO BÁSICO


"As línguas no NT sempre estavam intimamente associadas à profecia e, quando interpretadas, eram funcionalmente equivalentes à profecia, como revelação de Deus para edificar os outros. De fato, as línguas eram uma forma de profecia" (Gaffin, p. 102)

“Talvez pudéssemos até falar um certo tipo de línguas essencialmente proféticas, a diferença é que, ao contrário da profecia, essas línguas requerem interpretação para serem entendidas pelos outros” (Gaffin, p. 80)


PRESSUPOSTO PROVADO


1.  "Um deliberado contraste entre profecia e línguas estrutura todo o capitulo. Este par de dons percorre segue uma linha mestra em quase todo o contexto... O que estrutura I Coríntios 14 é a junção da profecia com as línguas, o que leva a concluir que de fato ambos, justapostos, são dons da palavra revelatória." (Gaffin, pp. 56, 81). "O que liga profecia às línguas, o que ambas têm em comum é o que as fazem comparáveis (contrastáveis) e explicam suas equivalências funcionais, sendo isso o que determina que elas são o dom da palavra." (Gaffin, p. 58)

2. A possibilidade de interpretação das línguas indica (I Co 12:10,30;14:5,13,26-28) que é uma comunicação inteligível de Deus. Conseqüentemente, deve ser uma revelação divina. (Este ponto é válido ainda que as línguas em Corinto fossem línguas atualmente existentes.)

3. “Conforme I Co 14:5 ("o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete"), as línguas interpretadas são funcionalmente equivalentes à profecia. (Robertson, p. 27) "A inferioridade fundamental ou a depreciação das línguas em relação à profecia aparentemente aplica-se somente às línguas não interpretadas e é removida quando ocorre interpretação." (Gaffin, p. 57)

4. “O caráter revelacional e inspiratório das línguas é também visto no fato de que pelo Espírito 'quem fala em línguas… fala mistério' (I Co 14:2)." Compare-se com I Cor. 13:2. (Gaffin, p. 79) "Este termo 'mysterion', no NT, tem um verdadeiro significado específico que inerentemente evoca a idéia de comunicação da revelação divina." (Robertson, p. 23)

5. "Em Atos, encontramos indicações de uma associação definida entre profecia e línguas." Atos 2:4 (cf. vv. 17-18, citando Joel 2:28 em diante); 19:6 ("eles falaram em línguas e profetizaram"). (Gaffin, pp. 81-82)

6. Exegese cuidadosa de I Co 14:14 (veja 2. abaixo) conduz a seguinte tradução: "Porque se eu oro em línguas, o Espírito em mim [ou, o espírito que me foi dado] ora, mas o meu intelecto fica inativo." (NEB). Desse modo, alguém que fala em línguas fala palavras inspiradas pelo Espírito Santo, o que é a definição de profecia. Cf. v. 2. (Gaffin, pp. 73-78)


PRESSUPOSTO DEFENDIDO


O fato das Escrituras mencionarem outros usos secundários das línguas não prejudica o seu caráter intrínseco fundamentalmente profético e revelacional. Os três argumentos seguintes têm sido utilizados para relevar os usos secundários do dom de línguas e dessa maneira minimizar ou eliminar o seu elemento profético/revelacional.

1. “HÁ UMA UTILIZAÇÃO DIVINA DAS LÍNGUAS”

"Em I Coríntios 14 Paulo diz que 'alguém que fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus' (v. 2) e as línguas redundam em 'oração,' 'cânticos,' e 'ações de graças' a Deus (vv. 14-17). Um argumento por vezes contrário a natureza revelacional das línguas em Corinto e que é mais uma direção divina das línguas e menos, ou nada a ver, com uma direção à revelação."

Resposta:

“Em contraposição… quando nos debruçamos sobre os Salmos e outras porções doxológicas da Escritura. Caso recitemos algum salmo que é dirigido a Deus e não aos homens, por essa razão então não seria revelação? Em sentido contrário, sob a direção divina é revelação inspirada e registrada na Escritura para que pudesse servir para edificação do seu povo da aliança, e é isso o que as línguas (interpretadas) também são e para isso que elas também serviriam (v. 5)." (Gaffin, p. 80) 

2. LÍNGUAS NÃO REVELACIONAIS

I Coríntios 14:14 diz: "Porque se eu orar em língua, o meu espírito ora, sim, mas o meu entendimento fica infrutífero." Alega-se que este texto ensina que há uma função não-revelacional para as línguas, ou seja, é uma expressão das profundezas do espírito do crente, sub-racional e não-conceitual.

Resposta:

Esta visão precisa tomar a expressão "meu espírito" como uma referência ao espírito humano, e deve empregá-la em contraste com a "minha mente". Mas isso é exegeticamente indefensável pelas seguintes razões: 

• A antropologia do NT nunca coloca o "espírito" e a "mente" humanas uma contra a outra assim desse jeito. O único dualismo que a escritura aceita é entre o corpo e o espírito/mente/coração/alma, ou entre "o homem exterior" e "o homem interior." O fato de Paulo poder falar em "renovar no espírito da vossa mente" (Efé. 4:23), mostra que "espírito" e "mente" pertence ao mesmo domínio semântico. Cf. também Marcos 12:30. (Gaffin, pp. 74f) 

• A palavra "espírito" em I Coríntios 14:14 não deveria ser interpretada antropologicamente (como um componente da psicologia humana) mas carismaticamente (como uma referencia ao dom dado a cada profeta pelo Espírito Santo). Este é um uso estabelecido: "o que fala em língua... (pelo) em (seu) espírito fala mistérios" (v. 2); "já que estais desejosos de dons espirituais," (lit. "espíritos," v. 12); "os espíritos dos profetas são sujeito aos profetas" (v. 32); "a outros, o dom de discernir os espíritos" (I Co 12:10); "não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo." (I Jo 4:1); "o Deus dos espíritos dos profetas" (Apocalipse 22:6). 

3. USO PRIVADO DAS LÍNGUAS

I Coríntios 14:4 nos diz que "quem fala em línguas edifica-se a si mesmo." Usualmente, este verso está mencionado em conexão com uma interpretação antropológica de "espírito" nos vv. 2 e 14 (que examinamos acima e deixa muito a desejar). O argumento é que, embora as línguas precisem ser traduzidas, se exercitadas em publico, elas ainda são espiritualmente benéficas ao individuo que as usa privadamente ("Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus." v. 28).

Resposta A:

“Qualquer uso privado das línguas, separadas, acrescidas, ou independentes do seu exercício publico, ligado à interpretação, certo modo, descaracteriza o dom. É como se dissesse que há um dom de línguas para o uso privado, e outro para o uso público (com interpretação). No entanto, particularmente, qualquer utilização privada das línguas evoca um aspecto estritamente subsidiário, periférico do dom. As línguas privadas são vistas como adjuntos benéficos, subsidiários, desfrutados pelo recipiente do dom (a ser interpretado) que tem função revelacional distintiva. Note-se que estão debaixo das reiteradas ordens de Paulo justamente os que oravam e louvavam em línguas (v. 14b), no sentido de que houvesse interpretação (v. 13; cf. v. 5), os quais freqüentemente entendiam como central o exercício privado do dom. Da visão que sustenta que as línguas foram primeiramente dadas para a vida de oração pessoal do crente, e não para exercitá-las publicamente na congregação, distanciadas da interpretação, pode-se dizer apenas que isso inverte complemente o ponto de vista focalizado por Paulo em I Coríntios 14". (Gaffin, p. 83)

Resposta B:

É precisamente este aspecto não-intelectual, sub-racional do falar inspirado, extático que fazia tão atrativo o dom de línguas aos cristãos imaturos do Corinto. E é justamente este aspecto que Paulo quer controlar, limitar, e minimizar. É verdade que não proíbe que se falem em línguas (de fato, ele proíbe que seja proibido - 14:39). Mas ele reprova os coríntios por suas prioridades imaturas (14:20), visto que eles exaltavam a expressão extática acima do o falar inteligível, edificante (profecia, interpretação de línguas). Paulo permite o dom extático, obviamente, porque ele era um dom genuíno do Espírito para aquele tempo, mas ele solicita que este dom seja exercido em determinada forma, precisamente por causa dos abusos que poderiam surgir devido seu elemento necessariamente não-racional, extático. Ele o limita de três maneiras:

• Como a profecia, as línguas estão sujeitas à avaliação e ao discernimento dos seus conteúdos pelos companheiros-profetas existentes na igreja reunida (I Co 12:10; 14:29). Todas supostamente inspiradas, as expressões extáticas precisam ser julgadas para ver se elas estão "de acordo com a analogia da fé" (Rm 12:6 – para exegese veja Gillespie, cap. 1). "não desprezeis as profecias; mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom" (I Ts 5:20ss/comp. I Jo 4:1-3).

De acordo com Gillespie, os pneumáticos de Corinto aparentemente criam que as expressões ininteligíveis, extáticas (glossolalia) eram o principal sinal verificador do falar inelegível autêntico (profecia). "Os que eram infantes espiritualmente a viam [línguas] com o sine qua non da obra do Espírito, sem dúvida, como um 'sinal' confirmatório da expressão profética." (Gillespie, p. 160)

Mas, em I Co 12:1-3 Paulo contesta essa avaliação simplista e imatura da importância das línguas. Parafraseando: "Vocês sabem que as evidencias de êxtase não são critérios confiáveis para apurar a autenticidade da inspiração divina por que no passado pagão de voes elas os dirigiam aos ídolos mudos (v. 2). Então, a legitimidade das expressões proféticas precisa ser julgada puramente com base no seu conteúdo material (v. 3)." (Gillespie, p. 83)

• A segunda limitação é intimamente relacionada à primeira, mas aduz-se outra dimensão: o falar extático não é evidência suficiente de que alguém está sob inspiração do Espírito.

De acordo com a exigência de que as línguas estejam em consonância com o evangelho ortodoxo, Paulo insiste que elas precisam ser traduzidas de modo a que seu conteúdo ortodoxo possa edificar o corpo. É claro que a edificação inteligível, racional, doutrinária é a única justificativa para o exercício das línguas na assembléia. Se elas não servem para este propósito, elas meramente enchem de orgulho o possuidor do dom, o que está em oposição ao amor (I Co 13).

• Por fim, argumentar que a utilização privada, auto-edificadora, não-revelacional das línguas deveria continuar hoje implica em prejudicar a força do argumento de Paulo em I Co 14. Porque é precisamente este elemento extático, não-racional, que Paulo insiste que deve ser colocado totalmente em subserviência à função revelacional, pública, verificável e corporativa do dom. De acordo com Paulo, qualquer beneficio do falar não revelacional e extático deve ser considerado como secundário, efeito colateral subordinado ao propósito e função próprios do dom, e então não é algo para ser procurado à parte deste propósito e função precípuas.

"A noção de línguas não-revelacionais, como as incontidas vocalizações, se pré-conceituais, provenientes do lado inconsciente da personalidade … não é ensinada em I Coríntios 12-14, ou em qualquer outro lugar do NT." (Gaffin, p. 81)

TRÊS ARGUMENTOS CESSACIONISTAS

A. O ARGUMENTO DO ENCERRAMENTO DO CÂNON (MENOS PERSUASIVO)

1. O apostolado foi um evento redentivo-histórico irrepetível do mesmo modo que a morte, sepultamento e ressurreição de Cristo, por que "o anúncio da redenção não pode ser separado da própria história da redenção." (Ridderbos, pp. 12-15).

2. O apostolado foi encerrado depois da chamada de Paulo, uma vez que ele estabelece que Cristo apareceu-lhe "o último de todos" (I Co 15:8 – veja o detalhamento da exegese em Jones). A Doutrina Católica Romana da sucessão apostólica não tem fundamentação exegética (Cullmann, pp. 207, 236).

3. A presença do apostolado era uma condição necessária para a produção das Escrituras inspiradas do Novo Testamento. "A base redentivo-histórica do cânon do Novo Testamento somente poderia ser procurada na autoridade apostólica e tradição." (Ridderbos, p. 24)

4. Conseqüentemente, como o apostolado, a escritura do Novo Testamento é um evento redentivo-histórico irrepetível, único, e completo. "Quando entendido em termos de história da redenção, o cânon não pode ser aberto; por principio ele precisa ser fechado. Conseqüência direta da natureza única e exclusiva do poder dos apóstolos recebido de Cristo… A natureza fechada do cânon do Novo Testamento permanece no final das contas de significância definitiva, de uma vez por todas, na própria história da redenção apresentada pelas testemunhas apostólicas." (Ridderbos, p. 25)

5. A partida definitiva do apostolado necessariamente implica no encerramento do cânon do Novo Testamento.

6. Para que a profecia (incluindo línguas- veja "pressuposição básica" acima) pudesse continuar nas gerações subsequentes pós-apostólicas da igreja, para além do período fundacional, teria que necessariamente criar tensões com o caráter fechado, finalizado, do cânon. De fato, do mesmo modo, a continuação poderia acabar com o cânon em seu sentido estrito. (Gaffin, p. 100).

7. Conseqüentemente, os dons proféticos (profecia, línguas etc.) tinham que passar da vida da igreja com o encerramento do cânon do NT.

B. O ARGUMENTO DE EFÉSIOS 2:20

1. Tecnicamente, este argumento não deve ser separado do precedente. São fundamentalmente criveis algumas considerações teológicas (a natureza única e temporária do apostolado). De qualquer forma, é mais pedagogicamente útil apresentar este argumento separadamente, uma vez está baseado mais num texto-prova explicito do que numa dedução apenas.

2. “Texto decisivo, de importância crucial, é Efésios 2:20 (no seu contexto) e precisa ser apreciado…. I Coríntios 14 … tem um escopo relativamente estreito e está confinado à situação especifica de Corinto. O texto de Efésios, por outro lado, pode ser visto como uma carta circular, pela qual originalmente Paulo tinha em mente um leque de destinatários mais amplo do que a congregação de Éfeso. O mais importante ainda é que 2:20 é parte duma seção que analisa a igreja como um todo de forma mais abrangente e compreensiva. Efésios 2:20 padroniza, vê o edifício inteiro, e situa nesse contexto a profecia (uma parte das fundações do edifício); I Coríntios e outras passagens sobre profecia examina antes de tudo uma parte desse todo. Efésios 2:20, então, com seu escopo amplo tem que ter um papel essencial e dominante na busca do entendimento de outras menções de profecias no NT que têm foco mais estreito, mais particular e mais detalhado…." (Gaffin, p. 96)

3. "Efésios 2:20 associa 'profetas' com os apóstolos em atividade de testemunhas fundamentais ou de ministros da palavra." (Gaffin, p. 93)

4. Esses "profetas" não são os profetas do Antigo Testamento, mas estes são encontrados em todo o NT (At 13:1 em diante; 21:10ss.; I Co 12:28; 14:1-40; Ef 4:11; Ap 1:1-3). O fato de que os profetas do AT não são iguais aos do NT é demonstrado em Ef. 3:5 que usa a mesma frase "apóstolos e profetas" em contraste com a revelação no AT.

5. Um estudioso não-cessationista admite que a exegese de Gaffin de Efésios 2:20 está correta e pode favorecer a posição cessacionista. No entanto, ele tenta esquivar-se de focalizar este argumento através da interpretação de que havia "os apóstolos que eram também profetas" (Grudem, pp. 45-64). Mas essa exegese não passa pelo crivo de qualquer análise gramatical séria (Wallace), e os demais argumentos de Grudem tem sido respondidos ponto por ponto (White).

6. "Línguas estão ligadas à profecia e se mantém, por assim dizer, nas sombras. Há pelos menos uma sugestão no capítulo [I Co 14] de que as línguas não têm lugar na vida da congregação à parte de sua coexistência, e exercício conjugado, com a profecia." (Gaffin, p. 58)

7. Mesmo que o dom de línguas per se não aparece em Ef 2:20, a evidência aduzida no "pressuposto básico" (acima) nos força a concluir que na medida em que as línguas são interpretadas elas são funcionalmente equivalentes à expressão profética, e assim pôde participar na aludida fundação da Igreja.

8. Inerente à analogia da fundação é a ideia de que uma vez que o fundamento foi lançado , todo o trabalho que resta é edificar sob o fundamento(I Co 3:10-15). Quando Paulo identifica os apóstolos e os novos profetas da aliança com a fundação da igreja, afirma desse modo seu papel original, não-perpétuo.

9. Conseqüentemente, o dom de línguas era para a fundação da igreja, e conseqüentemente nada mais natural que tenham "desaparecido da vida da igreja juntamente com a profecia e os demais dons fundacionais, ligados à presença do apostolado na igreja." (Gaffin, p. 102).

C. O ARGUMENTO DAS LÍNGUAS COMO UM SINAL

1. Paulo declara que as línguas como línguas (isto é, à parte do conteúdo revelacional, quando interpretadas) foram dadas como um sinal de juízo de Deus contra os descrentes (I Co 14:20-22).

2. De maneira análoga às parábolas de Jesus (Marcos 4:12), as línguas foram dadas primariamente (mas não exclusivamente) para endurecer Israel na incredulidade. Essa função "está ligada inseparavelmente à transição definitiva da velha para a nova e final história da aliança, uma transição que resulta na fundação da igreja." (Gaffin, p. 107)

3. A citação por Paulo de Isaías 28:11-12, característico da utilização do AT no NT, evoca intencionalmente o contexto mais amplo de Isaías 28, particularmente, o v. 16 ("Eis que ponho em Sião como alicerce uma pedra, uma pedra provada, pedra preciosa de esquina, de firme fundamento"). "No NT este versículo é proeminente nas passagens relativas à edificação da Igreja; é mencionado em I Pedro 2:6 (cf. v. 4) e evidentemente se baseia no que se encontra em Efésios 2:20 (cf. I Co 3:11). Cristo como o fundamento da Igreja é o cumprimento desta profecia. Mas é também citado em Romanos 9:33 (cf. 10:11), onde é aplicado contra o Israel infiel a Cristo e ao Evangelho (cf. 9:31ss.). O julgamento sobre Judá foi predito por Isaías, inclusive por meio da manifestação das línguas estranhas enviadas por Deus, o que foi cumprido mediante o lançamento do alicerce da Igreja em Cristo e nos apóstolos (e profetas). O tempo de Deus (de uma vez por todas) lançar um firme fundamento em Sião é também o tempo de conclusão do julgamento dos infiéis em Sião provocado por essa atividade." (Gaffin, p. 108)

4. "Dentro deste amplo contexto de profecia e cumprimento, pois, o ponto que Paulo salienta em I Coríntios 14:21ss. é que as línguas são sinal de juízo de Deus ocorrido durante a inauguração da nova aliança e a fundação da Igreja. Línguas são o sinal de julgamento correlato ao ocorrido em outras oportunidades (lançar fundamentos), relativo às ações divinas (primariamente no contexto judaico) contra os infiéis e o julgamento escatológico que o acompanha."

5. Apesar de não podermos restringir as línguas como um sinal exclusivamente aos judeus infiéis (uma vez que I Co 14:22 o aplica a todos os descrentes), continua sendo verdade isso especificamente em relação aos judeus infiéis, o que conduz à ab-rogação da antiga ordem da aliança e o lançamento das bases para uma nova aliança. Além disso, vemos em At 18:1-17 que a oposição judaica à missão gentílica era muito forte em Corinto.

6. "Não pode ser negligenciado que, seja qual for significância das línguas como um sinal, Paulo ensina claramente que essa função de sinal é uma característica integral das línguas, presente sempre quando o dom é exercitado." (Gaffin, p. 109)

7. Então, visto que as línguas são um sinal pertencente ao período de transição na história da redenção, quando o antigo Israel estava sendo rejeitado e o novo Israel estava sendo instaurado, hoje elas não são mais necessárias.

NOTA SOBRE I COR 13:8 EM DIANTE (ARGUMENTO [A] PELA CESSAÇÃO) 

1. Alguns cessacionistas, em busca de um argumento conclusivo e definitivo contra o contemporanismo de línguas e profecia, têm tentado identificar “o perfeito” com o encerramento do cânon do NT. De qualquer forma, os melhores exegetas cessacionistas admitem que esta interpretação não pode ser exegeticamente sustentada.

2. A chegada do "perfeito" (v. 10) pode coincidir com a vinda de Cristo, porque é somente ai que conheceremos como somos conhecidos (v. 12).

3. Se isso for admitido, estamos forçados a opor a conclusão de que as línguas e a profecia continuariam até a Parousia?

4. Não necessariamente. "Paulo bem que poderia ter também mencionado a escrituração como uma forma de revelação", a qual é, assim como a profecia e as línguas, um modo "parcial" de conhecer a Deus, que será substituído pelo "perfeito" na Parousia. "Mas cessou a escrituração. E se concordamos com isso, então é despropositado insistir que essa passagem ensina que os modos de revelação mencionados, profecia e línguas, continuariam em funcionamento na Igreja até a volta de Cristo." (Gaffin, p. 111)

5. "O momento da cessação da profecia e línguas é uma questão aberta até agora, ainda que essa passagem referia a isso. Deveria ser decidida a questão com base em outras passagens e considerações." (Gaffin, p. 111)


FONTES CITADAS


BROWN, Mark R., ed. Order in the Offices: Essays Defining the Roles of Church Officers. Duncansville, PA: Classic Presbyterian Government Resources, 1993.
CULLMANN, Oscar. Peter: Disciple, Apostle, Martyr. Philadelphia: Westminster, 1953.
GAFFIN, Jr., Richard B. Perspectives on Pentecost: New Testament Teaching on the Gifts of the Holy Spirit. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1979.
GILLESPIE, Thomas W. The First Theologians: A Study in Early Christian Prophecy. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1994.
GRUDEM, W. A. The Gift of Profecy in the New Testament and Today. Westchester, IL: Crossway, 1988.
JONES, Peter R. "I Corinthians 15:8: Paul the Last Apostle." Tyndale Bulletin 36 (1985) 3-34.
RIDDERBOS, Herman N. Redemptive History and the New Testament Scriptures. Second Revised Edition. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1988 (originalmente publicado em 1963).
ROBERTSON, O. Palmer. The Final Word: A Biblical Response to the Case for Tongues and Profecy Today. Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 1993.
WALLACE, D. B. "The Semantic Range of the Article-Noun-KAI-Noun Plural Construction in the New Testament." Grace Theological Journal 4 (1983) 59-84.
WHITE, Fowler R. "Gaffin and Grudem on Ef 2:20: In Defense of Gaffin's Cessationists Exegesis." Westminster Theological Journal 54 (1992) 303-20.


Fonte: Monergismo.com

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