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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Predestinação dupla?


Por R.C. Sproul

Em qualquer ocasião em que surge o assunto de predestinação ou eleição, a pergunta se segue depressa: "É predestinação una ou dupla?".

A questão mais profunda é como a reprobação ("o decreto da providência referente à condenação dos maus às penas eternas") está relacionada com a eleição. Reprobação é o lado leviano de eleição, o lado escuro do assunto que levanta muitas preocupações. E é a doutrina da reprobação que tem feito aparecer o rótulo de "decreto horrível". Uma coisa é falar na graciosa predestinação à eleição de Deus, mas outra é falar no decreto de Deus, desde toda a eternidade, de que certas pessoas desafortunadas estão destinadas à condenação às penas eternas.

Alguns defensores da predestinação argumentam a favor de uma predestinação única. Mantêm que, embora alguns sejam predestinados à eleição, ninguém é predestinado à condenação ou reprovação. Deus escolhe alguns que definitivamente salvará, mas deixa aberta a oportunidade de salvação para o restante. Deus se certifica de que alguns indivíduos são salvos providenciando para eles ajuda especial, mas o restante da humanidade ainda tem uma oportunidade de ser salva. Eles podem, de algum modo, tornar-se eleitos respondendo positivamente ao evangelho.

Esse modo de ver é baseado mais em sentimento do que em lógica ou exegese. É manifestamente óbvio que se algumas pessoas são eleitas e algumas não são eleitas, então a predestinação tem nela dois lados. Não é suficiente falar em Jacó; também precisamos considerar Esaú. A não ser que a predestinação seja universal, ou para eleição universal ou reprovação universal, ela precisa ser dupla em algum sentido.

Dado que a Bíblia ensina tanto eleição como particularismo, não podemos evitar o assunto de predestinação dupla. A pergunta então não é se predestinação é dupla, mas como a predestinação é dupla. Há dois pareceres diferentes de predestinação dupla. Um deles é tão assustador que muitos recusam completamente o uso do termo dupla predestinação. Essa visão assustadora é chamada de ultimação igual, e se baseia numa visão simétrica de predestinação. Ela vê uma simetria entre a obra de Deus em eleição e sua obra em reprovação. Ela busca um equilíbrio exato entre os dois. Assim como Deus intervém na vida dos eleitos para criar fé em seus corações, assim ele similarmente intervém nos corações dos réprobos para operar descrença. Esta é inferida de passagens bíblicas que falam em Deus endurecer os corações das pessoas.

A teologia reformada clássica rejeita a doutrina de ultimação igual. Embora alguns tenham rotulado essa doutrina de "hipercalvinismo", eu prefiro chamá-la de "subcalvinismo", ou, até mais precisamente, "anticalvinismo". Ainda que o calvinismo certamente mantenha uma espécie de predestinação dupla, ela não abraça a ultimação igual. A visão reformada faz uma distinção crucial entre os decretos positivos e negativos. Deus decreta positivamente a eleição de alguns e negativamente decreta a reprovação de outros. A diferença entre positivo e negativo não se refere ao final (conquanto o resultado de fato seja ou positivo ou negativo), mas à maneira pela qual Deus faz acontecer seus decretos na História.

O lado positivo se refere à intervenção ativa de Deus nas vidas dos eleitos para operar fé em seus corações. O negativo se refere não a Deus estar operando descrença nos corações dos réprobos, mas simplesmente a ele não tomar conhecimento deles e reter deles sua graça regeneradora.

Calvino comenta sobre isso: "Ora, se nós não estamos realmente envergonhados do Evangelho, precisamos necessariamente reconhecer o que está nele abertamente declarado: que Deus, por sua eterna bondade (para a qual não houve nenhuma causa senão seu próprio propósito), nomeou aqueles que quis para a salvação, rejeitando todos os demais; e que aqueles a quem ele abençoou com essa livre adoção para serem seus filhos ele ilumina pelo seu Santo Espírito, para que possam receber a vida que lhes é oferecida em Cristo; enquanto que outros, continuando de vontade própria em descrença, são deixados destituídos da luz da fé, em escuridão total".

Para Calvino e outros reformadores Deus passa por cima dos réprobos, deixando-os a seus próprios inventos. Ele não os força a pecar ou criar novo mal em seus corações. Ele os deixa a si mesmos, com suas opções e desejos, e eles sempre escolhem rejeitar o evangelho.

Uma vez ouvi o presidente de um seminário presbiteriano responder a uma pergunta sobre predestinação dizendo: "Eu não creio em predestinação porque não creio que Deus traz algumas pessoas chutando e gritando, contra suas vontades, para dentro de seu reino, enquanto ao mesmo tempo ele recusa acesso àqueles que sinceramente desejam estar lá". Essa resposta me surpreendeu, não só porque a negação pública de predestinação do presidente violava ostensivamente seus votos de ordenação na Igreja Presbiteriana, mas também porque revelava uma incompreensão radical de uma doutrina com a qual ele deveria estar bastante familiarizado.

A teologia reformada não ensina que Deus traz os eleitos "chutando e gritando, contra suas vontades", para dentro de seu reino. Ensina que Deus opera de tal modo nos corações dos eleitos de maneira a fazê-los dispostos e felizes de vir a Cristo. Eles vêm a Cristo porque querem. Querem porque Deus já criou em seus corações um desejo por Cristo. Do mesmo modo os réprobos não querem abraçar Cristo sinceramente. Não têm nenhum desejo por Cristo e estão fugindo dele.

O conceito de justiça incorpora tudo que é justo. O conceito de não-justo inclui tudo fora do conceito de justiça: injustiça, que viola justiça e é má, e misericórdia, que não viola justiça e não é má. Deus dá sua misericórdia (não-justiça) para alguns e deixa ao restante sua justiça. Ninguém é tratado com injustiça. Ninguém pode acusar que há injustiça em Deus.

Quando Paulo fala de Deus ter amado Jacó e odiado Esaú (Rm 9.13), esse "ódio" divino não pode ser igualado com ódio humano. É um ódio santo (veja Salmos 139.22). O ódio divino nunca é malicioso. Ele retém favor. Deus é "a favor" de seus eleitos de um modo especial, demonstrando seu amor por eles. Ele volta a face daquelas pessoas más que não são objeto de sua graça especial. Aqueles que ele ama com seu "amor de complacência" recebem sua misericórdia. Aqueles a quem ele "detesta" recebem sua justiça. Ninguém é tratado de maneira injusta.

Concluímos que a eleição da qual a Bíblia fala é incondicional. Nenhuma ação prevista dos eleitos faz que eles sejam eleitos ou fornece as bases de sua eleição. As condições para salvação ou justificação são realmente satisfeitas pelo crente, mas são satisfeitas porque Deus fornece essas condições a eles por sua graça soberana. Calvino resume isso do seguinte modo:

Muitos controvertem todas as posições que nós temos colocado, especialmente a eleição gratuita de crentes, que, entretanto, não pode ser derrubada. Pois comumente imaginam que Deus distingue entre homens de acordo com os méritos que ele prevê que cada indivíduo terá, dando a adoção de filhos àqueles que ele sabe de antemão que não serão indignos de sua graça, e condenando aqueles à destruição cujas disposições ele percebe que serão voltadas a danos e maldade. Assim interpondo pré-ciência como um véu, eles não só obscurecem a eleição, como pretendem dar a ela uma origem diferente.

Fonte: Josemar Bessa

João 3:16 contradiz a eleição incondicional?


Por Álvaro Rodrigues


É comum a utilização de João 3:16 por grupos arminianos em uma tentativa frustrada de demostrar contradição entre o amor de Deus e a eleição incondicional. Para este grupo, não há como conciliar a expressão "Deus amou o mundo" com a crença de que Deus escolheu alguns para salvação e reprovou os demais. Mas o que pode ser dito como resposta à esses arminianos? O texto de Jo 3:16 contradiz a eleição incondicional? 

Demostrarei neste artigo duas possíveis interpretações (talvez existam outras) que calvinistas dão ao texto em análise, mostrando assim a compatibilidade entre João 3:16 e a eleição incondicional.

João 3:16 nos diz: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna."

1 - Interpretação: Existem calvinistas que defendem que a expressão "Deus amou o mundo" é referente aos eleitos de Deus que estão em todas as partes da terra. Para este grupo de calvinistas, Jesus quis ressaltar a verdade de que a salvação não estava limitada aos crentes israelitas; mas que se aplicava a todos os eleitos de todo o mundo.

2 - Interpretação: Há outros calvinistas que admitem que a expressão "Deus amou o mundo" refere-se não somente a eleitos, mas a todas as pessoas sem exceção. Só que para este grupo de calvinistas, existe mais de um sentido quando se diz que "Deus amou o mundo". Eles definem que Deus ama os não-eleitos de forma "provisional", enquanto que ama de forma "salvífica" somente os eleitos. 

O amor provisional refere-se aos benefícios de ordens natural e material que são garantidos pelo sacrifício de Cristo e que são dados por Deus à todos os homens. Por exemplo, Deus, por conta do sacrifício de Cristo, tem "suportado com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" (Rm 9:22). Isto é um tipo de amor, visto que, levando em conta que todos os homens neste momento mereciam estar no inferno, Deus os tem preservado com vida e sustento. (Mt 5:45, At 17:28)

O amor salvífico refere-se a intenção e desejo de Deus em salvar eternamente aqueles os quais elegeu. São os eleitos aqueles pelos quais Cristo garantiu a salvação. A expressão "deu o seu filho único, para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna" é a garantia de que Deus só ama de forma salvífica os que tem fé, ou seja, os eleitos.

Então o texto ficaria assim: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira ( Amor salvífico e provisional aos eleitos/Amor provisional aos não-eleitos), que deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Amor salvífico exclusivo aos que creem, ou seja, os eleitos)."

Deste raciocínio se entende que Deus enviou Jesus para que "os que cressem tivessem a vida eterna". Daí se conclui que Deus ama de forma salvífica somente os crentes, e não a todas as pessoas.

A interpretação arminiana:

Os arminianos defendem que o texto de Jo 3:16 nos quer transmitir a ideia de que Deus enviou Cristo para possibilitar a salvação de todos. Porém a escritura nos ensina que a salvação não é uma mera possibilidade, mas sim uma realidade para aqueles a quem o Pai entregou ao Filho (Jo 6:37). 

Mas, se como os arminianos eu digo que Cristo veio possibilitar a salvação, em outras palavras estaria dizendo que era real a possibilidade de não haver nenhuma salvação. Pois, o que poderia garantir a existência dos salvos se Deus não tivesse decretado a eleição de alguns para a salvação? O livre-arbítrio do homem? Claro que não! Afinal, se eu tenho livre arbítrio eu posso aceitar ou negar a salvação. E se cada pessoa tem o livre-arbítrio conclui-se que elas poderiam ou ter negado ou aceitado, o que quer dizer que existia a possibilidade real de que o plano da redenção fosse frustrado.

Assim sendo, torna-se impossível a interpretação de João 3:16 numa perspectiva arminiana. Logo, fica a critério do leitor escolher entre a primeira ou a segunda interpretação dada pelos calvinistas ao texto em análise. 


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Fonte: A suficiência das Escrituras 

domingo, 18 de outubro de 2015

Jerusalém, Jerusalém! (Um comentário de Mateus 23.37)


Por Steve Hays
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!” (Mateus 23-37)

1) Mateus 23.37 é um texto de prova arminiano. Há um contraste entre “eu quis” mas “tu não quiseste”.

2) Uma questão é o sentido no qual Deus/Jesus “quis” ajuntá-los. Qual é a natureza desta ação divina? Como ela é expressa? De modo semelhante, em que sentido ela é rejeitada?

Um problema é que as edições da Bíblia tipicamente separam o v. 37 dos versos anteriores. Esta formatação rompe o fluxo do argumento. Mas no contexto, o v. 37 continua o tema de Deus enviar os profetas para Israel. Então o sentido no qual Deus “quis” é enviando os profetas. E o modo pelo qual “tu não o quiseste” é ao rejeitar os profetas de Deus.  

Porém, rejeitar a palavra profética é perfeitamente consistente com a predestinação. Na verdade, nós temos exemplos bíblicos explícitos de Deus endurecendo o público para assegurar sua falta de receptividade.

3) Há também um surpreendente paralelo entre Mt 11 e Mt 23. Em ambos os casos, Cristo repreende as cidades por rejeitarem a correção profética.

“Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operara a maior parte dos seus milagres, o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazin! ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem operado os milagres que em vós se operaram, há muito elas se teriam arrependido em cilício e em cinza. Contudo, eu vos digo que para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, porventura serás elevada até o céu? até o hades descerás; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Contudo, eu vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para ti.” (Mt 11.20-24)

No entanto, a rejeição deles é no fim das contas atribuída à ação divina:

“Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
Há uma distinção entre ver e perceber. Todos eles viram os seus milagres, mas nem todos responderam adequadamente. A percepção humana é um resultado da revelação divina, enquanto que a visão humana sem a percepção é um resultado da ocultação divina. A iluminação interior ausente, evidência externa não produz crença. A resposta favorável ou desfavorável é delineável à ação divina.

O complemento para Mt 23.37 é Lc 19.41:

“E quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah! se tu conhecesses, ao menos neste dia, o que te poderia trazer a paz! mas agora isso está encoberto aos teus olhos.” (Lc 19.41-42)

Como eu já destaquei, O v. 41é problemático para os arminianos: (veja aqui)

Mas a dificuldade (para os arminianos) é intensificada pelo v. 42. O uso do passivo divino e o motivo do endurecimento divino. Como um comentarista explica:

“O significado é provavelmente “Deus escondeu” da vista (espiritual) de Jerusalém, e isto se torna evidente pela destruição dela (pois o v. 43 é hoti= “porque”). Em uma típica combinação bíblica do pensamento de que os judeus são responsabilizados pela queda da cidade (eles poderiam ter conhecido), enquanto ao mesmo tempo é o resultado do decreto divino.” C. F. Evans, St. Luke (Trinity Press 1990), 684. 



Fonte: http://triablogue.blogspot.com.br/2014/07/o-jerusalem-jerusalem.html

O Reino Milenial de Cristo

Haverá verdadeiramente um reino milenial depois que Cristo voltar? (Expondo as verdades da doutrina Amilenista) Apocalipse 20:1-1...