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terça-feira, 12 de abril de 2016

João Calvino (1509-1564): Comentário sobre João 3:13-14;16-18


13. “Ninguém subiu ao céu”. Ele novamente exorta Nicodemos a não confiar em si mesmo e em sua própria sagacidade, porque nenhum homem mortal pode, somente por seus próprios poderes, entrar no Céu, mas só quem vai lá sob a direção do Filho de Deus.

Porque “ascender ao Céu” significa aqui “ter um puro conhecimento dos mistérios de Deus, e a luz da compreensão espiritual." Porque Cristo dá aqui a mesma instrução que é dada por Paulo, quando ele declara que o homem natural não entende as coisas que são de Deus (1 Coríntios 02:16;) e, portanto, exclui todas as coisas divinas da perspicácia da compreensão humana, pois ela está muito abaixo de Deus.

Mas temos de atentar às palavras, que apenas Cristo, que é celestial, ascendeu aos Céu e que a entrada está fechada para todos os outros. Pois, na primeira cláusula, Ele nos humilha, quando exclui todo o mundo do Céu. Paulo ordena que aqueles que desejam ser sábios com Deus sejam tolos para eles mesmos (1 Coríntios 3:18)

Não há nada que possamos fazer com mais relutância. Para esse propósito, nós devemos lembrar que todos os nossos sentidos falham e se extraviam quando nos aproximamos de Deus; mas, depois de ter fechado o Céu para nós, Cristo rapidamente propõe um remédio, quando Ele adiciona, que o que foi negado a todos os outros é concedido ao Filho de Deus. 

E esta é também a razão pela qual Ele chama a si mesmo de o Filho do homem, para que nós não pudéssemos duvidar de que temos uma entrada para o Céu em comum com aquele que se vestiu com a nossa carne, para que possa nos fazer participantes de todas as bênçãos. Sendo que, portanto, somente Ele é o Conselheiro do Pai (Isaías 9:6), admite-nos dentro daqueles segredos que de outra forma teriam permanecido encobertos.

“Que está nos céus”. Pode-se pensar que é absurdo dizer que Ele está no céu, enquanto Ele ainda habita na terra. Se em resposta for dito que isso é verdade no que diz respeito à sua natureza divina, o modo de expressão significa algo a mais, ou seja, que enquanto Ele era homem, Ele estava no Céu. Pode-se dizer que nenhuma menção é feita aqui sobre qualquer lugar, mas que Cristo somente é distinto dos outros no que diz respeito à sua condição, porque Ele é o herdeiro do reino de Deus, do qual toda a raça humana foi banida. 

Mas, como acontece com muita freqüência, por conta da unidade da pessoa de Cristo, aquilo que pertence propriamente a uma natureza é aplicada a outra, nós não devemos buscar outra solução. Cristo, portanto, que está no Céu, se vestiu com a nossa carne, que, por esticar a mão fraterna para nós, possa nos elevar ao Céu junto com Ele.

14. “E como Moisés levantou a serpente”. Cristo explica mais claramente porque disse que somente para Ele o céu está aberto, ou seja, que Ele leva ao Céu todos os que estão apenas dispostos a segui-lo como seu guia; pois Ele atesta que será abertamente e publicamente manifestado a todos, para que possam propagar o Seu poder sobre homens de todas as classes. 

Porque ser levantado significa ser colocado em uma situação alta e elevada, de forma a ser exposto à vista de todos. Isso foi feito pela pregação do Evangelho; visto que a explicação que alguns dão, como referindo-se a cruz, não concorda com o contexto, nem é aplicável ao assunto tratado.

O simples sentido das palavras, portanto, é que, pela pregação do Evangelho, Cristo era para ser exaltado, como um estandarte para o qual os olhos de todos seriam dirigidos, como Isaías havia predito (Isaías 2:2. ). Como um tipo dessa exaltação, Ele faz referência a serpente de bronze, que foi erguida por Moisés, cuja visão era um remédio salutar para aqueles que tinham sido feridos pela mordida mortal das serpentes. A história do ocorrido é bem conhecida, e está detalhada em Números 21:9. 

Cristo a introduz nesta passagem, a fim de mostrar que Ele deve ser colocado diante dos olhos de todos, através da doutrina do Evangelho, para que todo aquele que olhar para Ele pela fé possa obter a salvação. Por isso, deve-se inferir que Cristo é claramente exibido a nós no Evangelho, a fim de que nenhum homem possa se queixar de obscuridade; e que esta manifestação é comum a todos, e que a fé tem o seu próprio olhar, pelo qual o percebe como presente, como Paulo nos diz que um vívido retrato de Cristo com Sua cruz é exibida, quando Ele é fielmente pregado (Gálatas 3:01).

A metáfora não é inadequada ou rebuscada. Assim como [a serpente de bronze] tinha somente a aparência exterior de uma serpente, mas não continha nada dentro que fosse pestilento ou venenoso, Cristo se vestiu com a forma da carne pecaminosa, a qual ainda era pura e livre de todo pecado, para que Ele pudesse curar em nós a ferida mortal do pecado. 

Não foi em vão que o Senhor preparou anteriormente este tipo de antídoto, quando os judeus foram feridos pelas serpentes, e ele tende a confirmar o discurso que Cristo entregou. Pois quando viu que era desprezado como uma pessoa média e desconhecida, Ele não poderia produzir nada mais apropriado do que o levantamento da serpente, para dizer que eles não deveriam achar estranho, se, ao contrário da expectativa dos homens , ele fosse levantado ao alto da mais baixa condição, pois isso já tinha estado em sombras na Lei pelo tipo da serpente.

A questão que agora se coloca é: Será que Cristo se comparou com a serpente, porque havia alguma semelhança, ou, Ele pronunciou isto por ter sido um sacramento, como foi o maná? Porque o maná foi o alimento do corpo, na intenção do presente uso, mas Paulo atesta que ele era um mistério espiritual (1 Coríntios 10:3.) Sou levado a pensar que este também foi o caso com a serpente de bronze, tanto por esta passagem, e pelo fato de ser preservada para o futuro, até que a superstição do povo o converteu em um ídolo, (2 Reis 18:04). Se alguém formar uma opinião diferente, eu não debato esse ponto com ele.


16. “Porque Deus amou o mundo”. Cristo abre a primeira causa e, por assim dizer, a fonte da nossa salvação, e faz isso de forma que nenhuma dúvida possa permanecer; pois nossa mente não pode encontrar repouso tranqüilo, até que cheguemos ao amor não merecido de Deus. Como toda questão sobre nossa salvação não deve ser buscada em qualquer outro lugar a não ser em Cristo, então devemos ver de onde Cristo veio até nós, e por que Ele foi oferecido para ser nosso Salvador. 

Ambos os pontos são distintamente declarados para nós: a saber, que a fé em Cristo traz vida para todos, e que Cristo trouxe vida, porque o Pai Celestial ama [de tal maneira] a raça humana, e deseja que eles não venham a perecer. E esta ordem deve ser cuidadosamente observada, pois tal é a ímpia ambição, que pertence à nossa natureza, que, quando a questão diz respeito à origem da nossa salvação, nós rapidamente formamos diabólicas imaginações sobre nossos próprios méritos. Assim, imaginamos que Deus é reconciliado conosco porque Ele tem reconhecido em nós algo que seja digno para que Ele olhe para nós. Mas as Escrituras em todos os lugares exalta sua misericórdia pura e sem mistura, o que anula todos os méritos.

E as palavras de Cristo significam nada mais, quando declara a causa para estar no amor de Deus. Pois, se queremos subir mais alto, o Espírito fecha a porta pela boca de Paulo, quando nos informa que este amor foi fundado no propósito de Sua vontade, (Efésios 1:05). E, de fato, é muito evidente que Cristo falou desta forma a fim de afastar os homens da contemplação de si mesmos para olhar somente para a misericórdia de Deus. 

Nem diz que Deus foi movido a nos livrar, porque percebeu em nós algo que fosse digno de uma bênção tão excelente, mas atribui a glória de nosso livramento inteiramente ao Seu amor. E isso é ainda mais claro no que se segue, pois, acrescenta que Deus deu o seu Filho aos homens, para que eles não pereçam. Daí resulta que, até que Cristo conceda a sua ajuda para resgatar os perdidos, todos estão destinados à destruição eterna. Isso também é demonstrado por Paulo a partir de uma consideração do tempo; porque Ele nos amou quando ainda éramos inimigos pelo pecado (Romanos 5:8, 10).

E, de fato, onde reina o pecado, vamos encontrar nada, a não ser a ira de Deus, que arrasta a morte junto com ela. É a misericórdia, portanto, que nos reconcilia com Deus, para que Ele possa também nos devolver à vida.

Essa forma de expressão, no entanto, pode parecer estar em desacordo com muitas passagens das Escrituras, as quais colocam Cristo como o primeiro fundamento do amor de Deus para nós e demonstram que fora Dele somos odiados por Deus. Mas devemos lembrar – como eu já afirmei - que o amor secreto com o qual o Pai Celestial nos ama em si mesmo é superior a todas as outras causas, mas que a graça que Ele deseja que seja conhecida por nós, e pela qual nós somos estimulados para a esperança da salvação, começa com a reconciliação, a qual foi adquirida através de Cristo

Porque, uma vez que Ele necessariamente odeia o pecado, como vamos acreditar que somos amados por Ele, até que a expiação fosse feita pelos pecados em virtude dos quais Ele, justamente, está ofendido conosco? Assim, o amor de Cristo deve intervir com a finalidade de reconciliar Deus conosco, antes de termos qualquer experiência de sua bondade paternal. Mas, como nós fomos primeiramente informados de que Deus, porque nos amou, deu o seu Filho para morrer por nós, assim isso é imediatamente adicionado, que Cristo é quem, estritamente falando, a fé deve olhar.

Ele deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça”. Isso, diz ele, é o próprio olhar da fé, para ser fixado sobre Cristo, em quem vê o coração de Deus cheio de amor: este é um apoio firme e duradouro, para invocar a morte de Cristo como a única garantia desse amor. A palavra unigênito é enfático para magnificar o fervor do amor de Deus em relação a nós. Como os homens não são facilmente convencidos de que Deus os ama, a fim de eliminar qualquer dúvida, Ele declarou expressamente que somos muito queridos por Deus que, por nossa causa, Ele nem mesmo poupou seu Filho unigênito

Uma vez que, portanto, Deus tem mais abundantemente testificado o seu amor para conosco, quem não está satisfeito com este testemunho, e ainda permanece na dúvida, oferece um grande insulto a Cristo, como se Ele tivesse sido um homem comum entregado aleatoriamente à morte. Mas devemos, ao contrário, considerar que, em proporção à estimativa que Deus tem a seu Filho unigênito, tão mais preciosa nossa salvação parecia para Ele, porque para o resgate dos tais Ele escolheu que seu Filho unigênito morresse. Sobre esse nome, Cristo tem o direito, porque Ele é, por natureza, o Filho unigênito de Deus, e comunica essa honra a nós por adoção, quando somos enxertados em Seu corpo.

Para que todo aquele que nele crê não pereça”. É um elogio notável de fé, que nos livra da destruição eterna. Porque Ele pretendia expressamente declarar que, apesar de nós parecermos ter sido nascidos para a morte, sem dúvida a libertação nos é oferecida pela fé em Cristo; e, portanto, e não devemos temer a morte, que de outra forma paira sobre nós. 

E ele empregou o termo universal, “todo aquele que” tanto para convidar todos indiscriminadamente a participar da vida, e para cortar fora todas as desculpas dos incrédulos. Tal é também o sentido do termo “Mundo”, que Ele usou anteriormente, porque nada será encontrado em todo o mundo que seja digno da graça de Deus, mas ainda assim Ele se mostra reconciliado com o mundo inteiro, quando ele convida todos os homens sem exceção a fé em Cristo, que nada mais é do que uma entrada para a vida.

Vamos nos lembrar, por outro lado, que enquanto a vida é prometida universalmente a todos os que crêem em Cristo, ainda a fé não é comum a todos. Porque Cristo é feito conhecido e estendido à vista de todos, mas apenas os eleitos são aqueles cujos olhos Deus abre, para que possam buscá-lo pela fé. Aqui, também, é exibido um efeito maravilhoso da fé, porque nós recebemos Cristo tal como Ele nos é dado pelo Pai - isto é, como tendo nos libertado da condenação da morte eterna, e feito de nós herdeiros da vida eterna, porque, pelo sacrifício de Sua morte, ele expiou por nossos pecados, para que nada pudesse impedir Deus de nos reconhecer como Seus filhos. Uma vez que, portanto, a fé abraça a Cristo, com a eficácia de sua morte e com os frutos de sua ressurreição, não precisamos nos espantar se por ela obtemos igualmente a vida de Cristo.

Entretanto ainda não é muito evidente porque e como a fé concede sobre nós. Isso é porque Cristo nos renova pelo seu Espírito, para que a justiça de Deus possa viver e ser vigorosa em nós, ou isso é porque, tendo sido purificados pelo seu sangue, somos considerados justos diante de Deus por um perdão gratuito? Na verdade, é certo que essas duas coisas estão sempre juntas, mas como a certeza da salvação é o tema agora em mãos, devemos manter principalmente esta razão: que nós vivemos, porque Deus nos ama livremente, não imputando a nós nossos pecados. 

Por esta razão, o sacrifício é expressamente mencionado, pelo qual, juntamente com os pecados, a maldição e a morte são destruídos. Eu já expliquei o objetivo dessas duas cláusulas, que é, nos informar que, em Cristo, recuperamos a posse da vida, da qual somos destituídos em nós mesmos, pois nesta condição miserável da humanidade, a redenção, na ordem do tempo, acontece antes da salvação.

17. “Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo”. Essa é uma confirmação da declaração anterior, porque não foi em vão que Deus enviou seu próprio Filho para nós. Ele não veio para destruir e, portanto, segue-se, que é o peculiar oficio do Filho de Deus, que todos que crêem possam obter a salvação por Ele. Agora não há razão para que qualquer homem esteja em um estado de hesitação, ou de ansiedade angustiante sobre a maneira pela qual ele possa escapar da morte, quando nós cremos que era o propósito de Deus que Cristo nos livrasse dela. A palavra “mundo” é repetida mais uma vez, para que nenhum homem possa se pensar totalmente excluído, se ele somente guardar o caminho da fé.

A palavra juiz é colocada aqui para condenar, como em muitas outras passagens. Quando Ele declara que ele não veio para condenar o mundo, Ele assim ressalta o real desígnio da sua vinda, pois que necessidade havia de Cristo vir para nos destruir, se já estávamos completamente arruinados? Não devemos, portanto, olhar para qualquer outra coisa em Cristo, a não ser que Deus de sua bondade infinita escolheu estender sua ajuda para salvar a nós, que estávamos perdidos, e sempre que nossos pecados nos pressionarem - quando Satanás quer nos conduzir ao desespero - devemos erguer este escudo, porque Deus não está disposto a que sejamos esmagados com a destruição eterna, porque Ele designou seu Filho para ser a salvação do mundo.

Quando Cristo diz, em outras passagens, que Ele veio para juízo, (João 9:39;) quando é chamado de pedra de escândalo, (1 Pedro 2:07;) quando é dito ser destinado para a destruição de muitos (Lucas 2:34:) esta pode ser considerada como acidental, ou como decorrente de uma causa diferente; porque aqueles que rejeitam a graça oferecida Nele merecem encontrá-lo como o juiz e vingador de desprezo tão indigno e vil. Um exemplo marcante disto pode ser visto no Evangelho, porque apesar dele ser estritamente o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Romanos 1:16), a ingratidão de muito faz com que ele se torne morte para eles .. Ambas as coisas foram bem expressas por Paulo, quando ele se orgulha de ter em mãos a vingança, por que ele punirá todos os adversários de sua doutrina, depois que a obediência do santo tiver sido cumprida, (2 Coríntios 10:6)

O sentido resulta nisso: que o Evangelho é especialmente, e em primeiro lugar, designado para os crentes, para que ele possa ser salvação para eles; mas depois para que os incrédulos não escapem impunes ao desprezarem a graça de Cristo e terem preferido Ele mais como o autor da morte do que da vida.

18. “Quem Nele crê não é condenado”. Quando ele tão freqüentemente e tão seriamente repete, que todos os crentes estão além do perigo da morte, nós podemos deduzir da grande necessidade de uma firme e segura confiança, que a consciência não pode ser mantida permanentemente em um estado de tremor e de alarme. Ele novamente declara que, quando nós cremos, não há condenação remanescente, que Ele mais tarde explicará com mais detalhes no quinto capítulo. O tempo presente - não é condenado - é aqui usado em vez do tempo futuro - não será condenado - de acordo com o costume da língua hebraica; porque Ele queria dizer que os crentes estão seguros do temor da condenação

“Mas quem não crê já está condenado”. Isto significa que não há outro remédio pelo qual qualquer ser humano pode escapar da morte, ou, em outras palavras, que para todos os que rejeitam a vida dada a eles em Cristo, não resta nada a não ser a morte, pois a vida consiste em nada mais do que na fé. O tempo passado do verbo “já está condenado” foi usado por ele enfaticamente, para expressar mais fortemente que todos os incrédulos estão completamente arruinados. 

Mas deve ser observado que Cristo fala em especial daqueles cuja maldade será exibido desprezar abertamente o Evangelho. Pois, embora seja verdade que nunca houve qualquer outro meio para escapar da morte, além de recorrer a Cristo, mas como Cristo fala aqui da pregação do Evangelho, que era para ser espalhado por todo o mundo, ele dirige o seu discurso contra aqueles que deliberadamente e maliciosamente extinguem a luz que Deus acendeu.



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Calvino e a falácia da Graça Evanescente



É muito comum em debates as pessoas utilizarem falácias (de forma intencional ou não) para validarem suas opiniões e crenças, e no debate Calvinismo x Arminianismo não seria diferente, ainda mais quando sabemos da total depravação do homem.

Uma das falácias mais utilizadas é a falácia do espantalho. Ela consiste em distorcer a posição/opinião de alguém e contra-argumentar “refutando” esta visão distorcida como se estivesse atacando a posição original.

Por exemplo:



- Charles tem um posicionamento X sobre Z 

- Então Wesley diz que Charles tem o posicionamento Y sobre Z 
- Wesley ataca a posição Y alegando que ela pertence a Charles, e diz que Charles está errado pois Y não pode ser verdade, sendo que Charles nunca defendeu Y e sim X


Estes espantalhos são muito comuns da parte daqueles que tentam denegrir os escritos de João Calvino. Não é muito difícil se encontrar espantalhos como o de que Calvino disse que Deus era autor do pecado (basta ler o comentário do reformador sobre Isaías 45:7, para saber que é mentira); ou que Calvino ensinou que Jesus e Miguel eram a mesma pessoa (basta ler as Institutas, Livro I, Cap. XVIII, pág, 135 e o Capítulo XIV, pág 170-171, para ver que Calvino acreditava que Jesus é Deus e Miguel é um anjo); ou então que Calvino ensinou a teologia da prosperidade; enfim, existem tantos espantalhos sobre Calvino quanto a imaginação do homem pode inventar.

Um espantalho que vem ganhando força no cenário teológico brasileiro é o de que Calvino ensinou uma suposta graça evanescente. Vale a pena destacar que tal termo é estranho aos escritos de Calvino (não aparece em nenhum lugar), e tal falácia é relativamente recente. Ela ganhou certo conhecimento em outubro de 2008 quando o blog Arminian Perspectives publicou a respeito dela, e vem crescendo no Brasil nos últimos anos quando apologistas arminianos a citam como se fosse verdade.

Entre os apologistas arminianos geralmente se encontra a seguinte definição para graça evanescente:

"A Graça Evanescente é a doutrina ensinada por Calvino em que Deus implanta fé nos réprobos, faz com que eles vivam como eleitos, sendo que, por vezes, não há praticamente nenhuma diferença entre os eleitos e os não-eleitos. Isso porque o réprobo, através da graça evanescente, pode, por vários anos produzir frutos."


E para defender tal definição eles alegam que Calvino ensinou isso nas Institutas 3.2.11 e em seu Comentário de Hebreus 6:4.

Vamos agora avaliar tal definição descrita pelos os arminianos e compará-la com os escritos de Calvino, enfatizando as partes onde os arminianos afirmam que Calvino as ensinou.

PARTE 1 - “DEUS IMPLANTA FÉ NELES”

Em nenhum lugar das Institutas existe tal afirmação, pelo contrário, justamente onde os arminianos falam que Calvino ensinou a graça evanescente, ele afirma que a fé é algo próprio dos eleitos, se não vejamos:

“Ainda que os réprobos NÃO SEJAM iluminados à FÉ, nem sintam verdadeiramente a eficácia do evangelho, a não ser aqueles que foram preordenados para a salvação, contudo a experiência mostra que os réprobos são às vezes afetados por sentimento quase semelhante ao dos eleitos, de sorte que, EM SEU PRÓPRIO JULGAMENTO, de fato não diferem em coisa alguma dos eleitos.”(Institutas, Livro III, Capítulo II, parte 11, página 35)


Calvino corretamente diz que os réprobos NÃO TÊM FÉ, mas que eles têm um SENTIMENTO, que no entendimento do RÉPROBO não difere em coisa alguma do eleito.

Observe, que Calvino NÃO DIZ que Deus implantou fé neles, mas que eles têm um sentimento de serem convertidos proveniente de SEU PRÓPRIO JULGAMENTO.

E deve ser ressaltado ainda que Calvino já havia dito anteriormente, que estes simulavam fé, e eram persuadidos a crerem que eram salvos por eles mesmos e não por Deus.

“De sorte que apresentam falaz SIMULAÇÃO de fé não apenas aos olhos dos homens, mas até mesmo sua própria mente. POIS SE PERSUADEM de que a reverência que deferem à Palavra de Deus é realmente piedade, porquanto não consideram haver impiedade, a não ser o manifesto e confesso desrespeito ou desprezo dela.”(Institutas, Livro III, Capítulo II, parte 10, página 34)


Talvez você objete: "Mas Calvino afirma que Deus quem iluminou tais homens". É claro que foi Deus quem iluminou, a bíblia ensina claramente que tudo que se pode conhecer de Deus é porque Ele o manifestou, e note que Deus faz isso para que a humanidade fique indesculpável perante Ele:

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis.”
(Romanos 1:19,20)

A este ponto você talvez esteja pensando: "OK, Calvino não ensinou que os réprobos têm uma fé que Deus implantou neles, mas será que esse ensino de que um réprobo pode pensar que é salvo é bíblico?". Claro, basta olharmos Mateus 7:21-23. Muitas pessoas julgavam em seu próprio entendimento serem salvas (afinal em nome de Cristo profetizaram, expulsaram demônios e fizeram muitas maravilhas), mas qual a resposta de Cristo para elas? “NUNCA vos conheci”. Cristo deixa claro que elas NUNCA foram regeneradas ou fizeram parte dos salvos. Essas pessoas sempre praticaram a iniquidade embora achassem em seu próprio julgamento que eram cristãos.

Ainda a respeito da fé Calvino diz que, quando patenteada aos incrédulos, é indigna do título de fé.

“Esta sombra ou imagem de fé, porém, visto ser de nenhuma relevância, por isso é indigna do título de fé.”(Institutas, Livro III, parte 10, página 34)


Portanto o sentimento que o réprobo tem que persuade a si mesmo não deve ser chamada de fé, deste modo Calvino refere-se a tal sentimento, como “fé informe ou fé temporária”.

CONCLUSÃO DA PARTE 1:
Calvino ensinou que os réprobos não possuem fé, mas que eles podem vir a ter um sentimento de crença em Deus e vir a pensar que são de fato cristãos, mas tal sentimento parte de sua própria persuasão e não porque Deus implantou neles.

Vamos analisar agora, a próxima afirmação da definição:

PARTE 2 - “FAZ COM QUE VIVAM COMO OS ELEITOS... NÃO HÁ PRATICAMENTE NENHUMA DIFERENÇA ENTRE OS ELEITOS E OS NÃO ELEITOS”

Chega a ser um tanto quanto absurdo atribuir tal frase a Calvino como sendo um de seus ensinos. Ela não se encontra em nenhum lugar das Institutas e, ao contrário, Calvino mostra (no capítulo II do livro III) diversas diferenças entre os eleitos e os réprobos. O que Calvino corretamente ensinou (como demonstrado acima) é que o réprobo em seu próprio entendimento se persuade a crer que é igual ao eleito. Vejamos:

“De qualquer natureza, porém, que seja esse assentimento, de modo nenhum penetra até o coração, de sorte que aí resida fixo; e ainda que por vezes pareça haver lançado raízes, entretanto essas não são vivas. Tantos recessos de fatuidade tem, de tantos antros de falsidade se enche o coração humano, de tão enganosa hipocrisia é recoberto, que frequentemente ENGANA A SI PRÓPRIO. Compreendam, pois, os que se gloriam de tais aparências e simulacros de fé que, neste aspecto, em nada lucram aos diabos. Aqueles de quem primeiro falamos lhes são de fato muito inferiores, os quais, apalermados, ouvem e compreendem coisas por cujo conhecimento os diabos estremecem [Tg 2:19]; os outros nisto lhes são pares: qualquer que seja a natureza do sentimento de que são tocados, termina, afinal, em terror e consternação.”


Note que aqui Calvino mostra que ter o conhecimento e crer na existência de Deus não implica em fé. Os demônios creem e temem a Deus (Tiago 2:19), então alguém afirmar e se gloriar que acredita na existência de um só Deus, não torna este alguém em eleito. Na verdade, se este indivíduo se gloria neste simulacro de fé, ele engana a si próprio.

Possivelmente o apologista arminiano apele para a seguinte citação a fim de defender que Calvino ensinou que não há diferença entre o eleito e o não-eleito:

“Se, pois, alguém objeta que aos fiéis não se deixa coisa alguma com que estejam seguros e nutram a certeza de sua adoção, respondo que, embora seja grande a semelhança e afinidade entre os eleitos de Deus e os que são dotados por algum tempo de fé transitória.”


Como já mostrado anteriormente, para Calvino o título de fé é somente digno aos eleitos portanto aos réprobos é atribuída a expressão “fé informe ou fé temporária/transitória”. Tal sentimento, que segundo Calvino parte da própria persuasão do homem e não porque Deus implanta neles, muitas vezes levam os réprobos a apresentarem semelhanças em relação aos eleitos, como já mostramos anteriormente. Eles clamaram pelo nome do Senhor, expulsaram demônios, e etc (Mateus 7:21-23), mas veja que em nenhum momento Calvino afirma que eles andarão segundo o fruto do Espírito Santo (Gálatas 5:22-26). Ou seja, Calvino não ensinou que um réprobo viverá conforme o amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança, portanto é impossível dizer que Calvino ensinou que um réprobo viverá igual a um eleito. Pelo contrário, Calvino mostra que há diversas diferenças entre estes grupos:

“Contudo somente nos eleitos viceja aquela confiança que Paulo celebra, de modo que clamem em alta voz: Abba, Pai [Rm 8.15; Gl 4.6]. Portanto, assim como somente aos eleitos Deus regenera para sempre com uma semente incorruptível [1Pe 1.23], de sorte que jamais pereça a semente de vida implantada em seu coração, assim também neles sela solidamente a graça de sua adoção, para que ela seja estável e confirmada. Entretanto, isto de modo algum impede que essa operação inferior do Espírito tenha seu curso até mesmo nos réprobos. Não obstante isto, os fiéis são ensinados a examinar-se a si próprios cuidadosa e humildemente, para que a confiança da carne não se insinue sorrateira em lugar da certeza da fé.”(Institutas, Livro III, parte 11, página 35)


E diz mais ainda acerca dos eleitos:

“Isto, contudo, deve se manter: por mais exígua e débil que a fé seja nos eleitos, entretanto, uma vez que o Espírito de Deus lhes é o seguro penhor e selo de sua adoção [Ef 1:14], jamais se pode apagar de seus corações o que ele neles gravou. Quanto à iluminação dos réprobos, finalmente se dissipa e perece, sem que possamos dizer por isso que o Espírito engana a alguém, pelo fato de que não vivifica a semente que jaz em seu coração, de sorte que permaneça sempre incorruptível como nos eleitos.”(Institutas, Livro III, parte 12, página 36)


CONCLUSÃO DA PARTE 2:
Como podemos observar, Calvino não ensinou que os réprobos vão andar segundo o espírito embora alguns clamem Senhor, Senhor (Mateus 7:21-23), ele faz distinção entre a fé do eleito que parte da vivificação do Espírito Santo, enquanto que o sentimento do réprobo parte de sua própria persuasão.

Continuando, vamos a próxima frase da definição inventada pelos apologistas arminianos.

PARTE 3 - “PODE POR VÁRIOS ANOS PRODUZIR FRUTOS”

Nesta afirmação, vemos mais uma vez o uso claro da falácia do espantalho, observe o que Calvino disse:

“Nego, porém, que eles ou apreendam a vontade de Deus, como é imutável, ou com real constância lhe abracem a verdade; por isso é que se detêm em um sentimento evanescente, como uma árvore, plantada não bastante funda para produzir raízes vivas, seca-se no decurso do tempo, ainda que por alguns anos SIMULE não só flores e folhas, mas até mesmo frutos.”(Institutas, Livro III, Capítulo II, ponto 12, página 36)


Calvino não diz que dão frutos, mas sim que SIMULAM FRUTOS. Ora qualquer pessoa sabe que algo simulado não é real, a exclusão proposital da palavra “simule” demonstra bem o uso da falácia do espantalho.

CONCLUSÃO DA PARTE 3:
Calvino não ensinou que os réprobos dão frutos.

PARTE 4 – OS USOS DA PALAVRA EVANESCENTE

Como demonstrado acima, a expressão “graça evanescente” não aparece nas Institutas, nem a definição dada a tal graça é condizente com os ensinos de Calvino, portanto se caracterizando como a falácia do espantalho. Entretanto, esta parte do texto foi reservada para avaliar e analisar o que Calvino ensinou nos momentos em que aparece a palavra evanescente.

Vamos aos locais que ela aparece:

“Porque nada impede que Deus ilumine a alguns com o senso de sua presente graça, SENSO que mais tarde se desvanece.”“Por isso é que se detêm em um SENTIMENTO evanescente, como uma árvore, plantada não bastante funda para produzir raízes vivas, seca-se no decurso do tempo.”“Portanto, no réprobo há aquele CONHECIMENTO que mais tarde se desvanece, seja porque ele estende suas raízes com menos profundidade do que se espera, ou porque, ao crescer, é sufocado e murcha.”(Trechos do comentário de Calvino acerca de Hebreus 6:4)


Como o caro leitor pode observar, Calvino não atribui o esvanecer à graça salvadora de Deus. Em nenhum lugar ele diz que a graça salvadora de Deus esvaneceu. O que Calvino corretamente coloca como evanescente é o SENSO DO SENTIMENTO DE CONHECIMENTO acerca de Deus.

Mas seria tal ensino bíblico?

Simples, vejamos a parábola utilizada por Calvino para explicar tal ensino:

“O que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria. Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo se ofende."
(Mateus 13:20-21)

Aqui vemos um réprobo, que ouve (senso) a palavra de Deus (conhecimento) e que recebe esse senso com alegria (sentimento), mas por sua culpa é de pouca duração (esvanesce).

Jesus ensinou claramente que alguns réprobos (que não são terrenos férteis e sim pedregosos)vão ouvir a palavra, vão recebe-la com alegria (sentimento), mas vão deixar este sentimento acabar, se esvanecer. E isso não tem nada de graça evanescente, e muito menos conforme a definição dada pelos arminianos, são as palavras verdadeiras de Cristo, nosso Salvador.

CONCLUSÃO FINAL

A verdade é que tal expressão “graça evanescente” não aparece em nenhum lugar das Institutas nem tampouco em seus comentários bíblicos. Tal expressão foi criada por arminianos, bem como sua definição que não somente apresenta uma visão distorcida dos ensinos de Calvino, mas vai contra os escritos do reformador. Portanto, aqui podemos ver claramente mais uma falácia do espantalho desenvolvida com o objetivo de denegrir a imagem de Calvino.




quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A queda dos iluminados de Hebreus 6:4-6




Este trabalho consiste num estudo bíblico de Hb 6:4-6, baseado no pensamento de João Calvino e Matthew Poole, um teólogo puritano genebrino do século XVII.

Hebreus 6:4-6 "É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia".

Até que ponto Jesus é suficiente para nossa salvação? Certa vez, sintonizei-me numa emissora de rádio que apresentava um programa considerado evangélico e o pregador dizia estas palavras: "Não troque sua salvação por qualquer ‘ninharia’. Há pessoas que perdem a salvação por coisas bobas; mocinhas, por qualquer vaidade, estão perdendo a salvação; por causa do orgulho perdem a salvação. Meus irmãos não percam sua salvação". Isso nos faz indagar: Até que ponto Jesus é suficiente para a salvação desse pregador? As palavras deste texto, à princípio, são palavras que parecem nos fazer pensar que Jesus não foi suficiente para a salvação daqueles hebreus que caíram. Muitos afirmam crer em Jesus para a salvação, mas para eles só Jesus não é suficiente para salvá-los.

Parece até haver um problema nesta epístola em relação ao ensinamento dos outros livros neo-testamentários, pois o autor parece estar ensinando uma perda de salvação ou uma insuficiência de Cristo. E, na verdade, muitos abandonam este texto e não pregam sermão algum nele. Isso, porque muitos, ao se depararem com o conteúdo, sentem dificuldade por dois sérios problemas encontrados aqui.

O primeiro problema de Hebreus 6:4-6 é a queda dos iluminados. O segundo problema é a total impossibilidade de uma restauração ou renovação para os que caíram. O texto diz que é "impossível renová-los para arrependimento". A palavra grega ADYNATON , "impossível", dá a idéia, no N.T., de uma total impossibilidade, aplicada à paralisia ou enfermidade que anula qualquer desempenho de força, e é uma expressão comum para fraqueza, (At 14:8; Rm 8:3; Rm 15:1). Isto indica que não há nenhuma possibilidade de que estes que caíram se levantem novamente e sejam restaurados. Parece-me que aqui também não há perdão para os que caíram. São duas dificuldades. A primeira parece ser um problema para os calvinistas, pois, fala da queda dos que outrora foram iluminados; a segunda parece ser um problema para os arminianos, pois se deparam com o problema da impossibilidade da renovação e do perdão. Não é tão fácil tomar uma postura arminiana em afirmar que o texto afirma a possibilidade da queda dos iluminados, sem levar em conta que esses, por si, não podem voltar ao arrependimento. Como resolver a questão? A igreja ocidental sentiu uma dificuldade com este texto porque aparentemente quem cai não tem mais possibilidade de perdão.

A resposta a estas duas questões está na expressão "cair". Há necessidade de um entendimento teológico desta queda. Que tipo de queda é esta? Se não entendermos a que tipo de queda o autor aos Hebreus se refere, não poderemos entender que negação da possibilidade de renovação e perdão é esta.

Se os iluminados caem por causa de pecado, será que há pecado para o qual não há restauração nem perdão? Qual pecado para o qual não há possibilidade de renovação e arrependimento? Apenas o pecado contra o Espírito. Dessa forma, os iluminados só podem cair de maneira que não haja renovação e perdão para eles se puderem cair num tipo de pecado para o qual não há possibilidade nenhuma de restauração. O autor está dizendo que não há perdão, que é impossível que eles sejam restaurados.

Em certo sentido, o crente pode ser acometido de algumas quedas. A queda do estado de cristão comungante nominal; a queda do vigor espiritual; a queda do crescimento espiritual; a queda no pecado que leva o homem a uma letargia espiritual, ao sono profundo de modo que ele vai se desviando da intimidade com o Senhor, da comunhão dos santos e se torna parcialmente privado da graça de Deus. Veja que privado da graça não significa perder a graça. Os que crêem que pode-se perder a salvação e acham que a queda destes iluminados se dá por causa de algum pecado comum, estão caindo num sério problema da afirmação da insuficiência de Cristo para nossa salvação . Jesus, ou é suficiente para minha salvação ou não o é. Se Ele é suficiente, estarei salvo, mas se Jesus não é suficiente para minha salvação, então eu tenho de cooperar com Ele para alcançar esta salvação e não posso ter certeza disso, nem mesmo um segundo sequer, pois não sei a que hora vou pecar. Portanto é muito sério dizer que estes iluminados caíram por causa do pecado. Ou seja, um pecado de roubo, prostituição, assassinato. O autor aos Hebreus não está tratando deste tipo de pecado aqui. A queda é muito mais séria porque a conseqüência é muito mais severa: é impossível a restauração. Na história bíblica, muitos que praticaram certos pecados foram restaurados pelo arrependimento. Um exemplo disto foi Davi. Mas, então, que queda é esta que não há restauração?

A queda não refere-se a qualquer tipo de pecado contra Deus. A palavra grega para "queda"(PARAPTÔMA), pode muito bem referir-se à "ofensas comuns" do dia a dia de um cristão (Mt 6:14; Mc 11:25; Gl 6:1), bem como ao estado de morte espiritual e condenação eterna, no qual se encontram todos aqueles que ainda não foram vivificados e ressuscitados por Deus em Cristo Jesus (Rm 4:25;5:15-18,20; Rm 11:11; II Co 5:19; Ef 1:7; 2:1,5; Cl 2:13). Destes dois significados, o que de fato deve fazer parte do texto de Hebreus 6 é exatamente o segundo, pelo fato do primeiro referir-se à pecados passíveis de restauração, enquanto o texto em estudo refere-se à algo que não tem restauração. O texto nos traz a revelação de um tipo de pecado tão tremendo que não pode ser restaurado em tempo algum. A queda dos hebreus, para os quais não há perdão, os quais são chamados de iluminados, é a mesma queda a que Paulo se refere em Gálatas 5.1-4:
"Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão. Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo, testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a guardar toda a lei. De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes".

Este é o pecado para o qual não há perdão: a insuficiência de Cristo para a salvação. Eles estavam buscando justificação pela lei: "...procurais justificar-vos na lei...". Era o mesmo problema dos iluminados que caíram em Hebreus 6. Estavam negando toda a obra da redenção para sua salvação e agora queriam enfrentar a Lei "de peito aberto", para serem justificados. Paulo diz que se eles fizessem isso, estariam "obrigados a guardar toda a lei" (Gl 3:10). Só existem dois caminhos para a salvação: O caminho da Lei ou Cristo. Ou você escolhe Cristo pela fé para que a justiça dele seja considerada a sua, colocada entre você e Deus, de tal forma que Deus ao olhar para você não vê seu pecado, mas vê a justiça do Seu Filho Jesus Cristo e assim a Sua ira não lhe encontra; ou você busca cumprir a Lei para a salvação. A lei salva também. Como? Quando Deus propôs vida eterna a Adão, deu-lhe uma Lei e disse: "Adão você cumpre minha ordem e será recompensado". Eis a Lei para a vida eterna. Mas há uma problema: a quem quer salvar-se pela Lei hoje, Deus exige que ela seja cumprida totalmente e por alguém sem pecado; nem um ponto sequer pode ser quebrado, nem um simples tropeçar da Lei. Você quer ser salvo assim? Quer ser salvo pela Lei, então terá de cumprir toda a Lei (Gl 3:10).

O que Paulo estava dizendo era: a pessoa que escolhe ser salva pela Lei está perdida! Por que? Porque não há quem cumpra a Lei e vocês têm de, pela fé, reivindicar a justiça de Cristo para serem salvos. Enfrentar a Lei para a salvação é decair da graça. No estado de pecado a Lei não salva mais o homem, mas sim a graça. Quem quiser se aventurar pelo caminho da Lei tem de cumprir toda a Lei, diz Paulo. Mas, ainda assim, fomos salvos por causa do cumprimento da Lei. Como? Não porque nós a cumprimos, mas porque Jesus a cumpriu cabalmente por nós.

Enquanto o problema dos gálatas era a circuncisão, o problema dos hebreus era a volta ao judaísmo e ao sacrifício judaico. Ambos eram considerados por eles como caminhos de justificação. Dessa forma posso entender por quê os hebreus sofreram uma queda. Como se anula o sacrifício de Cristo? No versículo 2, Paulo diz: "Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará" (Gl 1:2) Ainda em Romanos 4:14 ele diz: "Pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa". É como se ele dissesse: "Enfrentem a Lei e vocês estarão condenados porque se Cristo de nada aproveita, então, é porque vocês decairam da graça e estão tentando a justificação pela Lei".

Então, o problema dos iluminados, o terem caído da graça, não é um problema de pecado do dia a dia. O termo (ANAKAINIZEIN), "restaurar" é uma famosa palavra rara do N.T, encontrada apenas neste texto de Hb 6:6. Este verbo é um composto de (ANA),preposição que forma 26 compostos em todo o N.T. com o significado de "outra vez", "de volta", "para trás". A idéia desse termo único em Hebreus, primariamente, é de uma re-novação, uma volta ao estado anterior. Esta compreensão é reforçada pelo termo PALIN, "de novo", sintaticamente e imediatamente relacionado à "restaurar". Indicaria isto que o real estado anterior dos iluminados seria um estado de graça salvadora? Creio que não, pois é possível que o autor aos hebreus esteja considerando a congregação visível dos santos como um estado de graça , e que a presença e ausência nesta congregação represente um tipo de queda e restauração(o que neste contexto é impossível por causa do tipo de pecado deles). É muito comum esta visão no Novo Testamento, o que se pode perceber também com relação ao pensamento dos apóstolos em relação ao problema da apostasia.

O problema dos nossos pecados atuais Deus já resolveu, já deu a solução (Rm 8:33-39; I Jo 2:1-2). O problema dos hebreus aqui é a anulação da fé e da promessa (Rm.4:14). Isto acontece sempre com os que buscam a Lei para uma auto-justificação. Neste versículo, Paulo diz que "se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa". O que significa isso? Ora, salvação é promessa; somos salvos porque somos herdeiros, porque herdamos e não porque conquistamos por esforço próprio. É herança! Você não pode conquistar porque terá de enfrentar a Lei e ela lhe condena. Por isso, alguém tem de conquistar por você. A justiça de Cristo nos é dada por intermédio da fé que é um dom de Deus (Rm 5:1; Fp 3:9). Paulo diz que salvação é promessa de Deus. Se nós vamos estipular as condições para dar um presente, este não é promessa e sim um salário (Rm. 4:4-5). Quando você promete algo para alguém, e você estipula as condições para ele cumprir, este presente deixa de ser presente e passa a ser salário, porque ele estaria ganhando em decorrência de ter cumprido o estipulado. Mas promessa é graça, pois Paulo contrasta promessa com Lei. Ele diz que, se os da lei é que são os herdeiros, eles não precisam de fé, nem de promessa. Cada um se vira sozinho para conquistar a sua própria salvação. Era como se o apóstolo Paulo estivesse dizendo assim: "Você acha que pode conquistar sua salvação? Então, terá de cumprir a Lei. Vamos retirar a promessa feita a você e vamos retirar a fé". Porque é a fé que chama a justiça de Cristo para nós (fé que Deus nos dá), e a promessa é a garantia da eleição graciosa e incondicional de Deus. Sem fé não temos justiça de fora, mas somente a nossa própria, e sem promessa não temos salvação de maneira graciosa da parte de Deus. Na justificação, convidamos o que está fora, o que não é nosso, a vir para nós. Nossa justiça é, como disse Lutero, "alienígena". Você quer ser salvo sem fé e sem promessa? Vire-se sozinho com a Lei (é isso que Paulo está dizendo aqui); depare-se e enfrente a Lei; tente salvar-se sozinho. Mas há um detalhe que você não deve esquecer: cumpra toda a Lei! Porque se errar num ponto apenas, a Lei o condenará eternamente, porque Deus não se relaciona com pecadores a não ser na base da justiça de Seu próprio Filho.

O apóstolo Paulo diz que a salvação é para pecadores. Nunca devemos pensar que estes iluminados aqui estão caindo (sem perdão) porque pecaram. Não é um problema tão simples de pecado "diário" a que o escritor aos Hebreus se refere, mas um problema muito mais sério porque repousa sobre estes iluminados a ira de Deus e a ausência do perdão.

O apóstolo Paulo diz em Romanos no cap. 7: 14 -25:
"Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado."
Aqui há o que os puritanos chamavam de gemitus sanctorum que é o gemido dos santos, dos regenerados. Há muitas interpretações em cima deste texto. Alguns autores dizem que aqui Paulo está tratando do gemido do não-regenerado. Mas o homem não-regenerado não luta com a Lei de Deus, pois a Lei não faz parte do seu cotidiano, ele está cego e morto, não tem tanta consciência da Lei de Deus a ponto de dizer: "Desventurado homem que sou!". A consciência que ele tem é uma impressão da Lei original no seu coração e mente, mas mesmo assim, afetada pelo pecado (Rm 2:13-16). Um não regenerado não diz isso a não ser que o Espírito o regenere e contraste sua condição de pecador com a Lei de Deus. Isso se dá na regeneração. Se diz também que Paulo estaria se referindo ao farisaísmo de sua época, pois eles eram amantes da Lei. A este argumento respondo que os fariseus eram observadores da Lei de forma exterior. Quanto ao homem interior eles não tinham prazer na Lei de Deus, tendo em vista que eram os maiores transgressores dessa Lei. Jesus afirmou que quanto ao homem interior eles só tinham podridão, eram os "sepulcros caiados", os maiores hipócritas daquela época.

Temos salvação mesmo em estado de pecado porque Jesus disse que Ele veio para os doentes e não para os bons. Mas o pecado ainda é uma realidade na vida do crente. O pecado não tem mais nenhum poder acusador e condenatório sobre os justificados, mas atrapalha a vida espiritual do crente e sua intimidade com Deus(Sl 32; Sl 51). Tanto é que no dia a dia da nossa salvação é necessário que haja um advogado, (I Jo 2:1). Que palavras extraordinárias! Eis a razão de não sermos consumidos por causa dos nossos pecados atuais!
Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.
Jesus é o nosso advogado e nossa propiciação; é a solução de Deus para que o pecado não nos condene, pois temos a justiça de Cristo. Por isso, toda vez que Deus olha para nós, mesmo que estejamos em pecado, Ele considera a justiça de Cristo como a nossa. Aqueles que afirmam que o crente perde a salvação por causa de um pecado cometido, estão, em outras palavras, dizendo que não têm um advogado, ou, se o têm, este é muito fraco porque o apóstolo João está dizendo exatamente isto: "Se todavia, alguém pecar, temos Advogado". Você já tentou chegar diante do juiz sem um advogado? A condenação é certa! Mas esta é a razão de não sermos consumidos em vista dos nossos pecados: temos um advogado!! E João ainda enfatiza mais: "Ele é a propiciação pelos nossos pecados...".

O que significa propiciação? Algumas versões famosas como RSV, NEB, NIV NRSV, traduzem erroneamente esta palavra por "expiação", mas esse não é o significado de HILASMOS, "propiciação", nem de HILASTERION, "propiciatório". Estas palavras, tanto no Velho Testamento como Novo Testamento significam o afastar a ira de Deus. Isso se relaciona sempre com o pecador, com a pessoa que praticou o delito, e não com o delito. Jesus é nossa propiciação porque quando pecamos, Ele é nosso advogado diante de Deus Pai. Jesus sempre diz ao Pai: "Este é justificado, não há condenação para ele". Jesus é o nosso Advogado, nossa propiciação porque, mesmo sendo salvos, quando pecamos diante de Deus, Cristo diz assim: "Pai, caia tua ira sobre mim (como já caiu) e não sobre aquele que foi justificado". Propiciação é afastar a ira de Deus de sobre aquele que merece a ira (Jo 3:36; Ef 2:3). Por isso nós permanecemos salvos mesmo pecando atualmente.

Para aqueles que acham que com o pecado do dia a dia perdem a salvação perguntamos: Quanto tempo podemos crêr que passamos salvos? Quanto tempo você passa salvo durante um dia? Cinco minutos? Um minuto? Um segundo? Quem pode garantir que agora mesmo não está pecando? Pode ser que agora mesmo você esteja condenado. Na verdade a coisa é muito mais séria porque a salvação é para pecadores. Seremos glorificados lá, no dia do juízo, mesmo que para Deus já somos considerados neste estado. Mas enquanto estivermos aqui, estamos naquele gemitus sanctorum. Paulo disse: "Desventurado homem que sou. Quem me livrará do corpo desta morte?". Por que? Porque na ressurreição o que é mortal será revestido de imortalidade e o que é corrupto será revestido pela incorruptibilidade (I Co 15:50-58). Por isso que essa glorificação e essa libertação total do poder do pecado será somente na eternidade. Mas o pecado não pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8:33-39). Se o amor de Deus estivesse em nós, esse amor, do dia para a noite se perderia porque fazemos coisas terríveis que entristecem ao Seu coração. Se dependêssemos da nossa integridade para que Deus nos amasse, não haveria um só dia em que não fôssemos odiados e que, consequentemente, estivéssemos perdidos. Mas o amor de Deus está em Cristo Jesus, porque somente Jesus satisfaz à Lei para nossa santificação e salvação. É algo que não está em nós. Observe as várias repetições da expressão "em Cristo Jesus" (Rm 8:39; Ef 1:5,6; 2:6,7,10).

Aqueles que dizem que perdem a salvação com o pecado, terminam se envolvendo em seríssimas implicações teológicas: 1) Eles não crêem na suficiência de Jesus como nossa justiça, nossa propiciação e nosso advogado; 2) Esses também não crêem na perfeição da justiça de Cristo como suficiente para satisfazer a Lei de Deus em tudo o que ela exige do pecador. Segundo o ensinamento do Novo Testamento sobre a expiação e propiciação, se um pecador volta a ser condenado por causa de seus pecados, isso indicará falhas na obra expiatória de Cristo. O que nos levaria, consequentemente, a concluir que a obra vicária de Jesus foi muito fraca para nos salvar da condenação eterna do pecado. Como compreender a perfeição da obra expiatória de Cristo se o pecado ainda tem poder condenatório sobre os quais foi aplicada esta obra? Como entender a qualidade da obra de Cristo se mesmo depois da nossa expiação e propiciação em Jesus, ainda aissim podemos ser acusados de pecado condenador? Tudo isto seria possível se a obra de Cristo fosse defeituosa e não atendesse as exigências da lei de Deus quanto a nossa salvação eterna.

Qual era o estado desses iluminados antes da queda? Quando olhamos para as características da vida daqueles antigos hebreus percebemos aspectos semelhantes da vida espiritual dos crentes nos dias de hoje. Vejamos:
1.Foram iluminados. Saíram de uma cegueira e começaram a enxergar. 
2.Provaram o dom celestial das bênçãos oferecidas no evangelho. 
3.Foram participantes do Espírito. O Espírito deu conhecimento, entendimento. 
4.Provaram da Palavra. Quando lhes foi pregado o evangelho naquele dia eles se maravilharam com a Palavra. Ouviram da vontade de Deus, e até fizeram votos de observá-la. 
5.Provaram dos poderes do mundo vindouro. Eles tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era apostólica.

O que se tem argumentado normalmente na exegese deste texto é o seguinte:
1.Que a idéia de iluminação encontrada em FOTISTHENTAS,"iluminados" não se refere de fato à iluminação trazida pela verdadeira regeneração, fazendo o pecador enxergar sua própria perdição e necessidade de um Salvador, mas apenas a uma chispa da luz do evangelho. 
2.Que o verbo grego GEYSAMENOS, "provaram", significa apenas"provar", indicando assim que aqueles hebreus apenas tiveram um"gostinho da graça", e não se fartaram da comida celestial. 
3.Que DOREAS, "Dom" é contrastado com CHARISMATA, "Dom", ou "graça salvadora", e que significa apenas "dom", como qualquer outra bênção dada por Deus a todos os pecadores. 
4.Que o termo METOCHOS, sempre indica "participante","companheiro", mas nunca de fato quer significar intimidade, ou no caso do Espírito, "habitação".

Essa exegese de tais palavras e consequentemente a teologia extraída desta análise não podem ser sustentadas em todo o Novo Testamento pelas seguintes razões:
1.O termo FOTISTHENTAS, pode muito bem indicar a iluminação salvadora, que como revelação, é trazida à mente e ao coração dos homens sem Cristo para que entendam a verdade de Deus sobre o pecado e sobre a salvação (Jo 1: 9; Ef 1:18). Ainda mais, o termo HAPAX, sintaticamente ligado à FOTISTHENTAS aponta para algo que acontece uma só vez, o que pode ser dito da regeneração. 
2.O uso de GEYSAMENOS no Novo Testamento não indica que ele sempre refere-se à um "provar" superficial, ou apenas a um "gostinho"daquilo que se prova. Podemos ver seu uso para um total envolvimento com aquilo que se prova, que é o caso de Mc 9:1 e Jo 8:52 (provar a morte). Este termo também pode ser visto como o verbo "comer" (At 10:10). Nestes dois usos distintos deste termo, não há a idéia simplesmente de "provar", mas de envolver e digerir. 
3.DOREAS, (dom), não é necessariamente um contraste com as verdades salvadoras implícitas no termo CHARISMATA. Podemos encontrar DOREAS sendo usado como sinônimo de CHARISMATA em textos como João 4:10 referindo-se a Jesus; Atos 8:20, referindo-se ao Espírito; Romanos 5:15, 17 referindo-se à vida eterna. O autor da epístola poderia estar usando um destes significados sem problema. 
4.A palavra grega METOCHOS também reflete a mesma natureza de abordagem que estamos fazendo. Dizer que o termo ali refere-se apenas a uma "participação" do Espírito em vez de uma "habitação"do Espírito, não é convincente, tendo em vista que este termo também é usado para descrever nossa participação da vocação celestial no mesmo autor (Hb 3:1), e participantes de Cristo (Hb 3:14). O que pesa mais nesse argumento é que as duas ocorrências do termo, que contrastam com a interpretação sugerida, acontecem exatamente no mesmo autor, indicando uma unidade em seu pensamento sobre o termo METOCHOS.
Nosso grande problema com a exegese deste texto é que ela não ajuda a afirmar que o autor aos Hebreus estava falando de uma fé temporal, ou de uma pseudo-regeneração e pseudo-conversão. Calvino refere-se à queda desses hebreus como"fé temporal", mas ele não se baseia na exegese do texto, e sim, como estamos fazendo aqui, no estado posterior deles. Não conseguiremos encontrar pistas para descobrir se eles eram de fato regenerados ou não estudando o estado anterior deles, e sim estudando o estado posterior daqueles hebreus.

Mas, perguntamos: que tão grande queda foi essa que invalidou esse estado de graça e vetou a possibilidade e volta ao antigo estado de graça? Que trágica queda foi essa dos iluminados? A verdade está no versículo 6: "... caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia". Esse pecado é exatamente o problema que Paulo coloca em Gálatas 5:2-5, como já enunciamos anteriormente. Eles decaíram da graça porque procuraram a justificação por outro meio que não Cristo. Para isso não há perdão, não há como o homem ser salvo. Se a fé for anulada e cancelada a promessa, o que sobrará para o homem? A LEI! E sabe o que a Lei faz conosco nesta circunstância? Ela nos condenará friamente e nos levará ao inferno, pois o que ela exige para a nossa justificação não podemos cumprir. Estão condenados, diz o apóstolo Paulo. Você quer ser salvo Pela Lei? Cumpra toda a Lei. E por não podermos, estamos condenados, decaídos da graça, miseravelmente perdidos.

Esses Hebreus, diz o autor, estavam "crucificando para si mesmos o Filho de Deus". O que isso significa? Que esses "irmãos" estavam praticando obras da Lei, que era um caminho totalmente oposto ao caminho da graça. Por isso Paulo diz que os gálatas caíram da graça. Eles voltaram à prática desta Lei para sua justificação. Eles estavam negando o sacerdócio de Cristo, negando a nova aliança, toda a obra vicária do Senhor e voltando ao farisaísmo tão combatido por Jesus e pelo apóstolo Paulo. O uso da expressão "cair da graça" não quer dizer necessariamente "perda de um genuíno estado de salvação anterior", pois, geralmente encontramos essa expressão no Novo Testamento sempre que é feita referência à descristianização de algum membro da igreja ou relacionado à apostasia, e geralmente à pessoas que nunca tiveram salvação. Percebamos que nem Paulo, nem o autor aos Hebreus estão emitindo alguma forma de juízo revelacional, ou trazendo uma revelação sobre o estado espiritual daqueles que decaíram da graça. Não! Não é isto que está em vista aqui. Tanto Paulo quanto o autor aos Hebreus estão se dirigindo à igreja visível de Cristo, de maneira exortativa, e emitindo um parecer inspirado sobre a condição deles a partir de uma visível apostasia da graça. Ora, se alguém abandona o caminho da graça e abraça o caminho das obras, a conclusão inevitável é: ele decaiu da graça; voltou para o caminho das obras, para o caminho da Lei. Nesta condição, quem se salvará?

Quando os apóstolos chegaram em Éfeso (Atos 19), eles fizeram uma pergunta àqueles discípulos de João Batista. Quando lemos esta palavra "discípulos" aplicada a eles, parece que eram crentes, mas vamos saber se são, de fato, crentes, quando continuamos a leitura do texto e vemos o apóstolo perguntando:"Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando crestes?". Então eles responderam: "Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo". Para Paulo aquilo era uma anormalidade: "Não receberam quando creram? O que está havendo?" Paulo pergunta ainda para eles: "Em quem vocês foram batizados? ". Eles responderam: "No batismo de João Batista quando estava pregando". Parece que estou ouvindo Paulo dizer: "Eis aí a causa. Por isso que vocês não conhecem a Jesus". Porque a expressão "batismo em nome de Jesus", em todo Novo Testamento, significa conversão, regeneração. Isso porque, durante muito tempo, na igreja apostólica, batismo era, não apenas um sinal, mas a própria conversão. Era uma evidência clara da conversão pois eles perguntavam logo: "Vocês foram batizados em nome de quem?". Se não fosse em nome de Jesus, eles concluíam logo que não estavam salvos, pois eles tinham credenciais apostólicas para perguntar e concluir que o batismo em nome de Jesus representava a conversão.

Mas, por que a pregação e batismo de João Batista não salvaram aqueles discípulos? A resposta é que eles não haviam crido, tanto é que Paulo afirmou que eles deveriam ter recebido o Espírito quando cressem. Isto era porque João Batista estava pregando a mensagem messiânica e não a mensagem evangélica. Depois da vinda de Jesus, nenhuma mensagem messiânica pode salvar o homem. Bruner diz algo muito importante em seu livro TEOLOGIA DO ESPÍRITO SANTO, pág. 161 "Desde a vinda de Jesus, o caso de cristãos crerem no Messias e, porém, serem batizados no batismo de João é naturalmente uma anomalia. E este é o problema por detrás desta passagem. Somente quando a fé no Senhor Jesus Cristo é ligada com o batismo nEle é que o cristão, é lógico, recebeu a iniciação cristã autêntica. O elo que faltava na formação espiritual dos efésios, portanto, não era o ensino sobre como ser batizado no Espírito Santo, era a fé e o batismo em Jesus. E quando foram dados esta fé e este batismo, assim também, gratuitamente, o Espírito também foi dado."

Por isso, ninguém da velha dispensação que entrou na nova pode deixar de ser batizado em nome de Jesus. Mas o importante é que a mensagem messiânica não leva o homem, na era do Messias que chegou e está presente, à salvação. Por isso, eles estavam perdidos, sem salvação. Ora, se aquela mensagem messiânica não salvou àqueles, o que dizer daqueles hebreus que voltaram aos sacrifícios do Judaísmo? Estão perdidos tentando a justificação pela Lei. Para eles não existe nenhuma "obra" da Nova Aliança - Cristo - e sim somente a Lei, suas próprias obras e a aventura de buscar a justificação por ela. Por isso que eles decaíram da graça. Por isso que eles ao abandonarem o cristianismo e ao se voltarem para o judaísmo ficaram sacrificando `a Jesus. O autor perguntava: "Será que vocês vão novamente para um sacrifício que já foi consumado? Se é assim, Cristo de nada vale para vocês". A pregação messiânica não serve mais, a pregação deve ser evangélica - as Boas Novas. O que são as Boas Novas? Cristo, Deus Emanuel, Deus presente.

Mas, não estou dizendo com isso, que os crentes fiéis do Velho Testamento foram salvos cumprindo a Lei. Não pensem nunca nisso. O judaísmo e os fariseus de todas as épocas, como o homem natural, pensam que a salvação é uma conquista dele mesmo. O homem natural diz em relação à salvação: "Devo fazer". O homem regenerado pelo evangelho diz: "Está feito". No VT os crentes eram salvos pela fé em Deus. A prova disto é a exigência do sangue no relacionamento entre Deus e o pecador. Esta exigência já era prova de que o caminho a ser trilhado pelo pecador deve ser sempre o da graça, e nunca o das obras. Por isso o sangue já pregava o Evangelho da graça. Mas não era fé no sangue do animal, como queriam os fariseus, mas fé em Deus. O sangue deveria dirigir os olhares dos israelitas para o caminho da graça, para a salvação que era promessa. Mas muitos entendiam erroneamente que era o próprio sacrifício que expiava. Paulo diz destes que eles decaíram da graça porque só conseguiam enxergar o caminho das obras.

Quem são estes do judaísmo que tentam justificação pela Lei? São exatamente aqueles que entenderam erroneamente o caminho da salvação. O próprio Deus havia providenciado sacrifícios que pregariam as Boas Novas, dizendo que o pecado seria expiado e a ira de Deus seria aplacada, mas através do sacrifício de Cristo que viria, mas que já era dado eficazmente como certo - as Boas Novas, Jesus, Deus Emanuel, Deus conosco. Esta é a pregação evangélica. Paulo falou sobre isso: "Bem que eu poderia confiar na carne (como muitos confiam). Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais; circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível (Fl.3:4-6) . Esta é a expressão máxima: "quanto à justiça que há na lei... ". Este é o pensamento farisaico quanto à salvação. Os homens queriam conquistar a sua salvação cumprindo a Lei por si mesmos. Os fariseus pensavam assim. Paulo era um exemplo disso, pois ele diz que quanto a isso ele era "irrepreensível" .

O texto diz que, se eles abandonaram o verdadeiro caminho para a justificação que é Cristo, se estes iluminados saíram deste caminho e foram para o caminho do judaísmo para buscar esta justificação pelas obras da Lei, então, podemos concluir que não eram justificados. Se estes iluminados foram buscar a justificação através da Lei, concluímos então, que eles não haviam sido verdadeiramente justificados. Anularam a fé, cancelaram a promessa e tornaram Cristo algo inútil. Deus não perdoa este pecado. Deus não perdoa esta anulação da obra redentora. Este é o pecado contra o Espírito. Só os não regenerados são passíveis de um pecado desta gravidade. Isto significa que nos tais nunca houve a regeneração, a obra da regeneração do Espírito, e a prova disso é que seu estado de suposta graça não foi suficiente para mantê-los no caminho da graça - abandonaram a Cristo. Mas que regeneração é esta que os faz abandonar as Boas Novas? Eles sempre estiveram em Adão e não em Cristo (I Co 15:22). Em Adão todos morrem e em Cristo todos são vivificados. Se o estado destes iluminados é estado de morte e sobre eles repousa a ira de Deus, não há propiciação para eles. Estão ainda em Adão naturalmente condenados. Não há perdão para estes iluminados porque eles resolveram caminhar nesta trilha da justiça pelas obras da Lei, pois é sempre esse o caminho da religião natural da humanidade.

É bem verdade que a exegese daqueles termos importantes não apontam para uma falsa fé naqueles hebreus, mas a falsa conversão daqueles "crentes temporários" pode ser facilmente constatada pelo autor da epístola por contemplá-los num caminho de obras. Nada denuncia mais a nossa condenação do que tentarmos nos salvar a nós mesmos.

Como entender a iluminação destes que caíram da graça? A pergunta seria: Pode, então, um não eleito, um não salvo, um não regenerado, participar, de alguma forma, da graça de Deus? Será que o homem natural, pode, em algum sentido, ser iluminado? Será que aqueles que não foram eleitos, que não foram contemplados para a obra da justificação sobre suas vidas, podem participar, em algum sentido, da graça de Deus? Em Marcos 4:14-19 temos esta resposta. O versículo 16 diz que estes "ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria". Percebamos o envolvimento da fé temporal com a Palavra de Deus! Mas como "não têm raiz em si mesmos, sendo, antes, de pouca duração, e lhe chegando a angústia ou a perseguição por causa da Palavra, logo se escandalizam. Os outros, os semeados entre espinhos, são os que ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a Palavra, ficando ela infrutífera. Os que foram semeados em boa terra são aqueles que ouvem a palavra e a recebem, frutificando a trinta, a sessenta e a cem, por um". Por que a palavra frutificou? Porque a semente caiu em boa terra, criou raiz e essa raiz foi aprofundada. O v. 17 diz que os que se escandalizam ficam assim porque"não têm raiz em si mesmos". Por isso não duram, são de pouca duração. Nestes não há regeneração. A obra do Espírito na regeneração tem a dimensão de uma raiz que é cravada no interior do homem, num coração preparado por Deus (Ez 36:24-27). Sem esta raiz profunda não há regeneração, nem fé, nem santificação, nem obediência (Ef 1:4,5,13,14). Observem que esses foram os elementos indiscutíveis pelos quais, tanto Paulo quanto o autor aos Hebreus procuraram naqueles crentes, e que naquele momento estavam ausentes na vida daqueles irmãos. Então ele conclui: "Da graça decaístes". Por isso dura tão pouco. Mas há um envolvimento com a Palavra. Há uma duração, mesmo que pequena, há uma caminhada, uma iluminação, há um partilhar desta graça, mesmo sem raiz. Foram iluminados, mas não receberam os olhos da verdadeira visão espiritual, porque não tinham raiz. Entenderam certos princípios da vontade de Deus e até mesmo aguçaram suas consciências com a verdade do evangelho. Apenas se afastaram temporariamente das trevas do paganismo, do judaísmo, do caminho das obras da Lei. Os verdadeiros filhos de Deus têm a luz da vida (Jo 8:12), enquanto que os perdidos têm apenas pequenas faíscas, centelhas de luz dessa graça. Os iluminados de Hebreus 6 provaram o dom celestial mas não digeriram verdadeiramente o corpo e sangue de Cristo que está em João 6:53. Não comeram a carne, nem beberam o sangue de Cristo.

Foram participantes das operações do Espírito mas nunca chegaram a ser batizados com o Espírito tornando-se assim habitação deste Espírito. Provaram da boa Palavra e até se alegraram, mas faltou-lhes raiz. Provaram a Palavra, viram e maravilharam-se com as coisas que estão nesta Palavra. Até guiaram-se pelos seus preceitos de vida e dirigiram suas famílias por eles, mas não durou muito, pois, não havia raiz, por isso abandonaram esta Palavra.

Em Romanos capítulo 8:9, Paulo diz que, se o Espírito de Deus não está no crente este tal não é dEle. Eles não poderiam ter o Espírito de Cristo porque seria uma contradição. Como poderiam eles terem o Espírito de Cristo e ainda assim não estarem em Cristo? Logo, eles não tinham essa habitação. Apenas provaram das manifestações do Espírito, mas, não da habitação do Espírito. Estes estão condenados, pois não têm o Espírito, mas sim o pendor da carne. Portanto, esse"provar do Espírito", esse ser "participante do Espírito" que mais tarde leva o crente à salvação por obras não corresponde à teologia paulina da habitação do Espírito, pois o resultado da habitação do Espírito é contrastante com a postura daqueles hebreus apóstatas da graça (Rm 8:4-27).

Provaram os poderes do mundo vindouro, mas, contentaram-se apenas com as centelhas da ira de Deus. Entenderam que haverá um grande juízo sobre o mundo mas se contentaram com o que Paulo diz em Romanos 2:14-15 - "Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se". Esse era o tipo de lei, de poder do mundo vindouro com o qual esses iluminados que caíram se contentaram. Porque os não crentes também têm uma lei, só que não é aquela Lei que milita contra a carne, mas é uma lei que apenas provoca o remorso no coração do assassino. Que leva depressão ao espírito daquele que pratica o pecado, mas nunca o leva de volta à vontade de Deus. Nunca ele dirá: "no tocante ao homem interior, tenho prazer na Lei de Deus" (Rm 7:22). Mas, ao contrário, se contentam apenas com estas pequenas faíscas da luz de Deus, do Seu grande julgamento. Se contentaram apenas com esta concepção do julgamento de Deus. Uma outra concepção sobre os poderes do mundo vindouro é fundada no significado de DINAMEIS MELLONTOS AIÔNOS, "os poderes do mundo vindouro". O termo DYMANEIS pode ser entendido por milagres ou prodígios, indicando que aqueles hebreus poderiam ter provado dos poderes do reino dos céus, o que poderia ser exemplificado pela participação deles em uma época como a era apostólica, a qual foi confirmada com muitos poderes miraculosos.

Provaram do dom celestial. Certamente que eles até se esforçaram em conhecer melhor o Dom de Deus, Jesus. Até louvaram-no, fizeram-lhe orações e se alegraram com ele. Talvez tenham buscado socorro e amparo em Jesus. Quem sabe se eles, como muitos nos nossos dias, até foram curados, seus problemas solucionados, suas lágrimas estancadas nessa dimensão da presença de Cristo. Muitos deles até mesmo evangelizaram outros judeus e pregaram Jesus para eles. No entanto, abandonaram tudo isso, negaram tudo o que fizeram e voltaram para um caminho de obras. Então, o autor aos Hebreus diz: "Quão horrenda coisa é essa que vocês fizeram! Não há restauração para vocês!"

Tudo isso é a operação do Espírito na vida dos não regenerados como fruto da graça de Deus. E ainda assim, quando esses não regenerados caem deste estado, eles pecam contra o Espírito.

CONCLUSÃO DO NOSSO ESTUDO

  • O Autor aos Hebreus não está querendo ensinar com aquelas qualidades dos iluminados que elas são superficiais. A exegese do texto não aponta para este caminho. As qualidades que estão ali (iluminação, dom celestial, provar a Palavra e os Poderes celestiais, ser participante do Espírito Santo) são as qualidades que devem ser encontradas em todos os que são verdadeiramente regenerados.
  • Mesmo não tendo aqueles hebreus, de maneira profunda e eficaz, aquelas qualidades, a prova disto é que vieram a negá-las mais tarde, o autor da epístola estava dizendo que era impossível, depois da queda, para eles, o restaurar para o arrependimento. Neste ponto, o verbo ANAKAINIZEIN"restaurar ou renovar" está no infinitivo ativo, não trazendo nenhuma idéia passiva de "serem renovados ou restaurados por Deus". Tanto ADYNATON ("impossível"), quanto ANAKAINIZEIN ("renovar") referem-se aos iluminados, tirando-lhes qualquer possibilidade deles mesmos chegarem à graça salvadora de Deus. Então a melhor tradução do texto seria: "É impossível a estes iluminados, por suas próprias obras, voltarem ao caminho da graça."
  • O autor aos Hebreus olhando para a igreja de Cristo, contemplava a assembléia dos que foram iluminados, provaram o dom celestial, a Palavra de Deus e os poderes do Reino e eram participantes do Espírito, e entre estes estavam aqueles irmãos que mais tarde abandonaram esta assembléia dos santos. Para o autor da epístola, estes irmãos participaram de forma visível das bênçãos que cercam os eleitos de Deus. A prova deste meu argumento é o fato de não conter no texto nenhuma forma de avaliação revelacional ou profética sobre o interior de cada um daqueles hebreus desviados do evangelho de Cristo. O capítulo 6 inicia exatamente ao estilo de uma exortação (1-3), encaixa uma advertência em forma de lembrança, e continua com a exortação (9-12). O que quero dizer é que sua avaliação dos iluminados é do ponto de vista da assembléia visível dos santos. Se o julgamento que o autor faz sobre os iluminados é exortativo e em relação à assembléia dos santos, a qual ele podia contemplar, então, com o termo "queda", não devemos entender necessária e teologicamente "cair do estado de salvação eterna", nem a perda da justificação, pois eles nunca tiveram isso verdadeiramente. A idéia da queda corresponde a um abandono não somente da assembléia dos santos, mas também do caminho da fé e da graça salvadoras. Isto significa que o mero fato do autor dizer que caíram, quer dizer que eles deixaram a congregação dos santos e voltaram para o judaísmo. O participar das bênçãos dos regenerados quer dizer que tiveram um proveito de certa forma da atmosfera da graça. E o não serem restaurados para o arrependimento quer dizer que se isso depender das obras deles e do caminho que tomaram, jamais chegarão à graça salvadora e consequentemente nunca haverá perdão para eles.
  • A queda dos iluminados de Hebreus 6 refere-se também a uma total renúncia de Deus, da Sua Palavra, do seu dom e do Seu Espírito. Esses iluminados alienaram-se do Evangelho de Cristo e da graça salvadora, e foram totalmente excluídos do perdão. Este tipo de pecado somente pode ser cometido pelos não eleitos, pois àqueles que violam a segunda tábua da Lei de Deus é-lhes dado o perdão, mas àqueles que caem da graça são deixados por Deus permanecer neste estado.
Qual a lição prática que estes iluminados que caíram trazem para nós?
1. Nós não podemos nos contentar apenas com esses sinais dessa iluminação para pensarmos em regeneração. Nunca confundamos esses sinais dos iluminados com a regeneração. Nem tudo que for chamado evangélico, nem toda movimentação no meio evangélico é o Evangelho. A prova está aqui. Iluminados participaram da graça, mas nunca foram salvos. Somos tendenciosos a considerar salvos, crentes, e evangélicos, aqueles que confessam uma iluminação deste tipo. Mas a Palavra de Deus ensina a perseverança na vontade de Deus e a suficiência de Cristo como evidências de nossa regeneração ( Mt 24:13; Jo 3:15,36; 5:24-25; 8:31; 10:26-29; 15:1-6; 15:10; I Jo 2:3-6,19,24,28,29; 3:7-10,24; 4:7,8,13,15,16; 5:4,5,18,19). O evangelho somente é verdadeiro quando Jesus é suficiente para a nossa salvação. Porém vemos tanto "marketing", tanta propaganda de um evangelho em que só Jesus não é suficiente. 
2. O autor aos Hebreus se dirige a todos os crentes. Esta palavra não é dirigida apenas aos que caíram. Isso não está sendo escrito somente aos judaizantes da época do apóstolo; não se reduz apenas a uma época. Sua palavra é principalmente para os crentes fiéis que permanecem na congregação dos santos como um alerta para que ninguém venha a cair no mesmo delito da apostasia da graça. Decair da graça regeneradora só será possível se a pessoa nunca tiver sido alcançada por esta graça salvadora. Mas o "cair da graça" aqui é o participar visivelmente da graça e abandoná-la. É negar a graça, é anular a fé e cancelar a promessa. Sobre aqueles que decaem da graça o juízo é eterno. Mas sobre aqueles que decaem do estado de uma boa vida espiritual com Deus, Ele também tem juízo para eles. Ele também está dizendo que devemos nos sensibilizar de que os nossos pecados, a falta de sensibilidade para com o pecado, o cultivar o pecado na nossa vida, o achar que um pecado esporádico não faz mal a ninguém; o pensar que a mentira é menos pecado do que o adultério; e que a falta de compromisso, a insinceridade, a irresponsabilidade, a negligência, tudo isso são pecados menores do que o roubo ou assassinato é uma falta gravíssima nossa para com Deus.
Muitos pregam que perdem a salvação por caírem em adultério, ou num roubo ou qualquer pecado crasso, que chame atenção. Mas estão esquecidos de que João disse em Apocalipse que vão ficar de fora também os mentirosos (Ap 21:27; 22:15). Para os que têm tal concepção da salvação, um irmão mentiroso quase sempre nunca é visto como tão perdido quanto um "adúltero". Mas a Palavra de Deus diz que esse vai ficar de fora tanto quanto aquele que foi feiticeiro, que estava sob o paganismo ou judaísmo, que anularam a graça. Muitos mentirosos pensam que estão salvos, mas está escrito no livro: "MENTIROSO". Os que defendem a perda da salvação sempre estão pensando nos pecados graves e escandalosos, ao estilo da concepção do "pecado mortal" da Igreja Católica Romana. Nunca lhes vem à mente que se a estabilidade da salvação dependesse de nossa integridade ela seria perdida ao menor pecado, pois a Lei de Deus não admite qualquer forma de pecado, (Gl 3:22).

Com relação à vida espiritual da igreja o autor está dizendo: "Irmãos, fiquem em guarda contra a possibilidade de um sono em que um "pecadinho" se torne um pecado de estimação e vai vagarosa e sutilmente rastejando em vossas almas até tomar conta do coração e da mente. Tomem cuidado com este pecado que vai encontrando razões sociológicas, psicológicas, antropológicas e lógicas para um habitat em suas vidas, e quando vocês menos esperam estão na mais profunda letargia espiritual, distante da abundância da graça". Sobre estes Deus pesará a Sua mão. Estamos dizendo isso para que o povo de Deus se consagre cada dia mais.


por Moisés C. Bezerril
Fonte: www.monergismo.coom

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