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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O que é o Batismo com o Espírito Santo no Novo Testamento?



O ASPECTO TEMPORÁRIO DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO
 Prof. Moisés C. Bezerril



Introdução

A questão de grande importância que se deve abordar quanto ao batismo com o Espírito Santo é a sua função na igreja cristã primitiva e o significado teológico da expressão batismo com Espírito Santo para a igreja moderna.

Normalmente as pessoas deixam de perceber que a expressão batismo com o Espírito Santo também aplica-se a dimensões e significados específicos para a era apostólica que não estão mais presentes hoje na igreja. Essa falta de conhecimento sobre o assunto tem feito surgir vários movimentos chamados pentecostais que reivindicam a mesma natureza apostólica do batismo com o Espírito Santo para hoje. Neste trabalho pretendo mostrar que o batismo com o Espírito Santo tem quatro significados teológicos, sendo três deles específicos para a era apostólica e um para os nossos dias. São eles os seguintes:

  1. incluir espiritualmente todos os crentes no corpo de cristo por meio da fé;
  2. capacitar os apóstolos, pelo poder do alto, com credenciais apostólicas;
  3. incluir visivelmente gentios no pacto abraâmico por meio de línguas e profecia;
  4. incluir samaritanos distintamente de todos os outros povos na aliança abraâmica.
Destes quatro significados básicos, o 2, 3 e 4 foram apenas para a era apostólica, não se aplicando mais aos dias de hoje, enquanto o significado 1 é o que a igreja vive hoje em dia. Assim, os significados 2, 3 e 4 correspondem ao aspecto temporário do batismo com o Espírito Santo.


Prolegómenos

O sentido mais amplo do batismo com o Espírito Santo no Novo Testamento é o de confirmar a entrada de estrangeiros como povo de Deus na aliança abraâmica. Como o batismo com o Espírito Santo tem função primária de introduzir espiritualmente indivíduos no corpo de Cristo, um grande problema estaria para acontecer quando judeus e gentios fossem contemplados dentro de uma mesma aliança. Desde os dias do Antigo Testamento, Deus já havia prometido fazer de Abraão uma bênção para “todas as nações” (Gn 12:3). Paulo afirma que essa promessa feita a Abraão, também chamada de bênção de Abraão, era o Espírito prometido. A história registrada em Atos é também a história dos gentios recebendo a bênção de Abraão, o Espírito Santo (Gl 3:14). Deus não permitiu os gentios receberem sozinhos o Espírito da aliança abraâmica porque assim surgiriam duas igrejas primitivas. Como só existe uma aliança feita com Abraão, na qual Deus promete dar do seu Espírito a todas as nações, todos os gentios eleitos teriam que entrar pela mesma porta: os apóstolos judeus. A aliança é judaica, feita com Israel desde muito tempo atrás. Deus não criou outra aliança com gentios, mas a mesma aliança abraâmica é, agora, estendida ao mundo pagão. Essa é a razão por que Felipe (At 8: 4-25), após evangelizar os samaritanos, mesmo constatando que eles já tinham fé em Cristo, ainda assim não pôde conferir-lhe o batismo com o Espírito Santo. Neste caso, a expressão batismo com Espírito Santo ou descida do Espírito Santo aqui nada tem a ver com fé.

Os discípulos convertidos pela pregação de Felipe eram crentes genuínos, pois foram batizados no nome de Jesus (Lucas usa a palavra “somente” porque era incomum o batismo em nome de Jesus desacompanhado do batismo com o Espírito Santo). O batismo com o Espírito Santo dos samaritanos significava simplesmente a confirmação visível da entrada dos samaritanos na aliança abraâmica. Isso eles tiveram que receber dos apóstolos, pois os samaritanos já se consideravam um outro povo pactual de Iavé. Como os apóstolos possuíam apostolicidade dada no momento em que foram batizados com o Espírito Santo, eles representavam a aliança abraâmica estendida aos gentios; mesmo que os samaritanos não fossem gentios, ainda assim eram considerados estrangeiros à promessa. A demora em receber o batismo não foi condicionada a nenhum requisito espiritual que faltava aos crentes samaritanos, mas ao cumprimento histórico do derramamento do Espírito para formar todos os povos (pagãos e judeus) em um único povo. Certamente se os samaritanos tivessem recebido “o batismo” do Espírito Santo sem os apóstolos, teriam se tornado mais uma igreja primitiva samaritana rival da igreja cristã apostólica.

A verdade sobre o batismo com o Espírito Santo requer ser compreendida em duas dimensões de significados: no sentido mais estrito, ele significa introduzir pecadores no corpo de Cristo e, consequentemente, na aliança da graça; no seu sentido mais amplo, tal batismo está relacionado com o credenciamento apostólico e com a sinalização histórica da entrada dos gentios e samaritanos no pacto da graça, outrora feito apenas com o povo de Israel. Assim, para uma melhor compreensão, o tema deve ser abordado em duas grandes seções:

O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO PARA DESCRENTES

A primeira promessa de João Batista do batismo com o Espírito Santo é feita para os filhos perdidos da casa de Israel, que mesmo sendo judeus haviam se desviado do verdadeiro evangelho, (Mt 3:7-12).

Essa promessa também é feita por Pedro aos descrentes em seu primeiro sermão evangelístico, logo após o evento de pentecostes, no qual ele convida os incrédulos judeus ao arrependimento para receberem “o dom” do Espírito Santo, interpretado pelo próprio Pedro como Batismo com o Espírito Santo,( At 11:15-18). Veja também a interpretação do apóstolo João sobre o Batismo com o Espírito Santo e sua relação com a fé (Jo 7:37-39). O batismo é entendido por todos estes escritores bíblicos como algo condicionado unicamente à fé, e nada mais.

Paulo também tem uma concepção de batismo com o Espírito Santo como uma necessidade essencial para os gentios incrédulos entrarem pela fé no corpo de Cristo. Em Atos 19:1-7, ao perguntar se os discípulos de Éfeso tinham recebido o Espírito Santo “quando creram”, o apóstolo entendia que a fé era o único elemento autenticador do Batismo com o Espírito Santo, bem como sua condição. A ausência do Espírito coincidia com a ausência de fé. Essa teologia é confirmada por Pedro em Atos 11:17, pela expressão quando cremos no senhor, quando trata da conversão de um gentio.

Em que sentido, pois, os não crentes são batizados com o Espírito Santo? A resposta a essa pergunta é: em seu sentido ordinário e permanente.

Esse sentido de confirmar a entrada de pecadores na aliança feita com judeus ainda é válido nos nossos dias. Quando uma pessoa ouve o evangelho e se arrepende em fé, ela é introduzida no corpo de Cristo, (1 Co 12:13); recebe o Espírito prometido a Abraão ou batismo com o Espírito Santo (Gl 3:14), tornando-se participante da mesma aliança feita com judeus (At 11:18). Assim, o zambujeiro é enxertado na oliveira boa. Receber o Espírito hoje é confirmado pelos frutos de arrependimento e fé. O batismo com o Espírito Santo é o meio que Deus determinou introduzir os filhos da promessa no pacto da graça (1 Co 12:13). Portanto, quando usamos a expressão batismo com o Espírito Santo estamos falando da nossa regeneração e conversão a Cristo.

Entende-se por esses registros bíblicos que o batismo com o Espírito Santo era a necessidade vital para judeus e gentios incrédulos entrarem no corpo de Cristo por meio da fé. Isso significa que fé e batismo com Espírito Santo coincidem e se confirmam mutuamente. Neste primeiro momento, a função do batismo com o Espírito Santo é introduzir espiritualmente pela fé pecadores no corpo de Cristo (1 Co 12:13) da mesma forma como o batismo com água introduz visivelmente incrédulos na igreja visível.
O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO PARA CRENTES

O batismo com o Espírito Santo não foi uma realidade prometida somente para os incrédulos. Jesus prometeu o batismo com o Espírito Santo aos seus apóstolos, os quais já eram crentes, (cf. Lc 24:49; At 1:2-5). O batismo com Espírito Santo prometido foi experimentado pelos samaritanos que também já eram crentes (At 8:12-13). É claro que a função do batismo com o Espírito Santo para os crentes não era a de introduzi-los no corpo de Cristo pela fé, pois isso já tinha acontecido quando creram. Em que sentido, pois, os apóstolos e os discípulos crentes foram batizados com o Espírito Santo? A essa pergunta podemos responder: em seu sentido extraordinário e temporal, que são:

1) O sentido de conferir apostolicidade aos apóstolos

Neste sentido, Cristo prometeu “poder do alto” aos apóstolos, e não conversão, pois eles já eram crentes. Essa ideia é registrada por Lucas (Lc 24:49) e confirmada por ele como Batismo com o Espírito Santo (At 1:2-5). No desenrolar da história da igreja em Atos, podemos perceber que os apóstolos e os evangelistas que estavam com eles detinham “poder” para realizar prodígios (At 8:4-8), mas somente os apóstolos detinham apostolicidade para “dar o Espírito Santo” tanto a judeus quanto gentios, quer fossem crentes ou incrédulos, (At 8:14-18). É notável que, depois do evento de pentecostes, não existe nenhum episódio de recepção do batismo com o Espírito Santo sem que seja por intermédio dos apóstolos. Os apóstolos eram o canal inicial pelo qual o Espírito tinha que fluir para judeus e gentios. Como fundamento da igreja e depositários da fé da nova aliança, os apóstolos eram o recipiente do batismo com o Espírito Santo que deveriam fundar a igreja de Cristo. Essa apostolicidade pode ser percebida nas credenciais que Paulo reclama para si por meio de sinais, prodígios e poderes (o que faz lembrar as palavras de Jesus “poder do alto”) (2 Co 12:12).

O sentido de apostolicidade não é mais contemplado hoje em dia pela igreja de Cristo. Constitui, pois, um massivo erro o tentar considerar o batismo com o Espírito Santo hoje como “um enchimento de poder”, credencial apostólica prometida somente aos apóstolos (At 1:2-4).
O sentido de validação do chamado histórico dos gentios à aliança abraâmica por meios visíveis das línguas e profecia

É bem verdade que, para que haja inauguração de aliança, é necessário que ela seja confirmada. Quando Deus inaugurou a nova aliança entre os homens, ele começou com os judeus, antigo povo da aliança abraâmica. Dentro dos planos divinos, aprouve a Deus iniciar a nova aliança com judeus e depois estendê-la aos gentios. Se Deus tivesse simplesmente pulado da antiga aliança com os judeus para uma nova aliança com os gentios, os judeus jamais reconheceriam a aliança gentílica como válida. Era necessário, pois, que as cláusulas confirmadoras da aliança judaica fossem as mesmas da aliança gentílica; do contrário, não haveria provas de que a aliança com Abraão era a mesma oferecida ao gentios. Para isso, Deus programou um plano cronológico de pregação do evangelho para validar a nova aliança no meio de dois povos diferentes.

Primeiro, enviou João Batista e Jesus para inaugurar a nova aliança somente com a casa de Israel. Certamente os judeus deveriam experimentar a mesma realidade da nova aliança que os gentios experimentariam mais tarde, com os apóstolos. O fruto do trabalho de Jesus foram apenas doze apóstolos e poucos discípulos. Jesus diz aos apóstolos que o Espírito Santo continuaria a mesma obra que Jesus havia começado, e que não faria nada diferente do que já estava posto por ele (Jo 16:13-15). Os apóstolos apenas dariam continuidade à obra que Jesus começou (pregação do reino) no poder do Espírito Santo. É por essa razão que Deus deu o dom da apostolicidade: eles foram os únicos escolhidos para fundar a igreja de Cristo a partir de dois povos. Mas como provar para judeus e gentios que a aliança feita com gentios era a mesma dos judeus? Como provar para judeus e gentios que o Espírito prometido a Abraão era o mesmo que estava sendo dado a ambos os povos? A reposta a essas perguntas é: por meio de línguas e profecia.

O batismo com o Espírito Santo e línguas

A esta altura, já entendemos que a expressão batismo com Espírito Santo coincide com fé. Onde há fé há o Espírito. Entendemos também que o batismo com Espírito Santo tem mais de uma função na história do cristianismo apostólico. É possível afirmar com dados bíblicos, por enquanto, que todos os que são batizados com o Espírito Santo necessariamente têm fé, mas, ao mesmo tempo, os que têm fé não possuem os mesmos carismas operados pelo batismo com o Espírito Santo, tendo em vista que Deus opera funções múltiplas ao dar o seu Espírito aos crentes. Vejamos a relação das línguas com o Batismo com o Espírito Santo.

Existem apenas três episódios de línguas relacionados com o Batismo com o Espírito Santo. É incorreto considerar as línguas como evidência de tal batismo, tendo em vista que os samaritanos não falaram em línguas (os samaritanos não são gentios, adotavam o Velho Testamento como Escrituras deles). Nesse caso, se as línguas fossem evidência do Espírito prometido a Abraão, os samaritanos continuariam sendo rechaçados pelos judeus, pois não possuíam a evidência do acolhimento no pacto abraãmico. Paulo não ensina em lugar nenhum que línguas são a evidência do batismo, e considera que nem todos possuiriam as línguas (1 Co 12:29-31).

Outra peculiaridade das línguas em Atos é que elas só ocorrem na presença de gentios e judeus. Isso se dá pelo fato das línguas corresponderem a um sinal de inclusão dos gentios na aliança abraâmica. Durante três mil e oitocentos anos, o evangelho só era conhecido na língua de Israel. Por todo este tempo, Deus não houvera se revelado em nenhuma outra língua no mundo. Esse era o sinal de que a aliança abraâmica, por enquanto, só contemplava judeus (Rm 9:1-5). O evangelho só veio a ser universalizado a partir de pentecostes, quando idiomas gentílicos (dialekto) foram contemplados com a palavra inspirada (profecia) que, até então, o Espírito de Deus só dava à aliança feita com Israel. Com a universalização do evangelho, todas as cláusulas da antiga aliança deveriam ser entregues nas línguas dos gentios, como o Espírito fazia no Antigo Testamento (“assim diz o Senhor”). Essa mesma fórmula é encontrada no dia de Pentecostes, quando Lucas escreve “passaram a falar noutras línguas conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. Os gentios agora tinham os oráculos de Deus em suas próprias línguas. Israel tinha perdido o monopólio da revelação. Deus agora se revela aos gentios em suas línguas.

Quando o batismo com o Espírito Santo ocorre acompanhado de línguas no Novo Testamento, representa duas verdades novas para os dias na nova aliança: primeiro, é que pelo batismo, os gentios estão entrando na aliança abraâmica; segundo, é que as línguas confirmam que a revelação agora é compartilhada com outras nações – o evangelho não pertence mais a Israel. Deus está tão interessado em outros povos que o Espírito dá a revelação em outras línguas. Essa é a razão porque em um livro tão vasto de história da igreja as línguas acontecem tão pouco. O propósito das línguas, então, era apenas o de confirmar visivelmente a entrada dos gentios na nova aliança. Quando os judeus vissem gentios em variedade de línguas falando “as grandezas de Deus”, que outrora só pertenciam a Israel, logo ficariam convencidos de que “também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida” (At 11:18). Essa confirmação por meio de línguas não era apenas para judeus; todos os gentios deveriam descansar na evidência das línguas que Deus não tem mais uma única nação contemplada como seu povo. As línguas confirmam que o batismo com o Espírito Santo é a entrada de todas as nações no pacto da Graça. As línguas constituem, assim, um sinal de bênção para os gentios, mas ao mesmo tempo um sinal de maldição para Israel, pois esse antigo povo do pacto perdeu o direito de povo exclusivo da aliança.

Uma peculiaridade que ainda devemos levantar sobre as línguas é que sendo o seu nome “variedade de línguas” (1Co 12:10), no livro de Atos não há interpretação das mesmas, enquanto que na igreja de Corinto era proibido o uso de línguas sem interpretação, (1 Co 14:28). A pergunta que normalmente é feita é, por que em Atos as línguas funcionam sem interpretação, e em Corinto tem que haver intérprete? A resposta é que fora da igreja as línguas constituem um divisor de águas. No dia de Pentecostes, as línguas não foram entendidas por todos; alguns acharam que os discípulos estavam bêbados, ou seja, não entendiam as línguas faladas por eles. Quando as línguas não são entendidas é porque tais pessoas estão sendo preteridas (rejeitadas) pela graça. Jesus deixou muito claro que o fato das pessoas não entender suas parábolas era porque “… a estes não é dado conhecer os mistérios do reino” (Mt 13:11). Essa é a natureza primária do dom de línguas: sinal para os incrédulos (1 Co 14:22). Paulo refere-se ao cativeiro dos judeus incrédulos no Antigo Testamento, que foram arrastados à prisão por um povo de “língua estranha”, e usa esse exemplo histórico como princípio para falar da natureza das línguas não interpretadas. Isso significa que o uso de línguas sem interpretação é o mesmo que maldição para os que ouvem, pois ouvir sem entender é ser rejeitado pela graça. Como a igreja é a reunião dos escolhidos, seria uma contradição o uso de um dom que sinalizava a condenação da própria igreja. Línguas como sinal de maldição para incrédulos não deveria ser usado na igreja, a não ser que fossem interpretadas e transformadas em ensino, profecia, revelação ou conhecimento (1 Co 14;6).

O Batismo com o Espírito Santo e profecia

A profecia só é encontrada explicitamente relacionada ao batismo com o Espírito Santo em Atos 19:1-5. Podemos deduzir léxicamente que em Atos 2:4, a ideia de profecia também está presente na expressão “conforme o Espírito concedia que falassem”. Este último verbo – “falar” – é a tradução da palavra grega “falar inspirado”, o que indubitavelmente corresponderia à profecia; o que os discípulos falaram em outras línguas era exatamente aquilo que o Espírito falava. Somente em Atos 10:46 não há nenhuma indicação clara de profecia acompanhando o batismo com o Espírito Santo; encontramos apenas a vaga expressão de que eles engrandeciam a Deus. Mas, à luz dos outros textos citados, e levando-se em conta que Cornélio era gentio, podemos supor que ali também aconteceu um fenômeno profético. Por que então o batismo com o Espírito Santo era acompanhado de profecia? A resposta para essa pergunta tem a ver também com a resposta dada às línguas: a profecia era elemento de confirmação de que a aliança inaugurada entre os gentios tinha o mesmo valor da antiga aliança abraâmica inaugurada com judeus.

O apóstolo Paulo reconhece que a revelação da glória, das alianças, da legislação, do culto e das promessas, só foi dada a Israel; nenhum povo além de Israel recebeu qualquer luz da revelação divina informada dentro de um pacto. Incrivelmente o contrário estava acontecendo em Pentecostes: uma aliança é inaugurada com povos que não eram povo de Deus. Como seria possível provar para judeus e gentios que aquela aliança era genuína como foi com os filhos de Abraão no Antigo Testamento? Tal aliança só seria levada em conta se os apóstolos, judeus e gentios, pudessem ver Deus se revelando aos gentios por meio da profecia, pois profecia era o canal de comunicação das cláusulas de todas as alianças que Deus já fez com o homem. É exatamente isso que aconteceu com Pedro, o apóstolo que tinha dúvida da validade da aliança com os gentios. Pedro tinha dificuldade em acreditar que Deus tinha chamado gentios à aliança abraâmica. Somente depois de constatar que Cornélio (gentio) participou do mesmo fenômeno profético de Pentecoste, foi que ele afirmou: “… quem era eu para que pudesse resistir a Deus” (At 11;15-18). Portanto, para um judeu, o falar profeticamente constitui elemento pactual conhecido apenas de Israel. Se a nova aliança feita com gentios contém os mesmos elementos pactuais que antes foram dados apenas a Israel, isso é sinal de que Deus ampliou, de fato, sua graça. Ninguém pode negar. Essa é a razão pela qual na inauguração da nova aliança a profecia foi dada em línguas gentílicas (At 2) e os gentios profetizaram (At 10 e 19). A prova incontestável para o mundo inteiro de que Deus expandiu sua graça de Israel para todas as nações é que os gentios experimentaram daquilo que era privilégio apenas da nação judaica. As línguas e a profecia estão registradas acompanhando o batismo com o Espírito Santo para provar que a entrada para o céu não pertence mais a um povinho do oriente médio, e sim que a graça de Deus agora é sem fronteira.

3) O SENTIDO DE INTRODUZIR OS SAMARITANOS NA ALIANÇA ABRAÂMICA

De todas as ocorrências do Batismo com o Espírito Santo, o caso dos samaritanos é a mais distinta. O primeiro problema com os samaritanos é que o Batismo com o Espírito Santo em Samaria não significou credenciamento apostólico, nem confirmação de inclusão gentílica no pacto abraâmico, nem mesmo conversão. Os samaritanos creram no evangelho, receberam o Espírito regenerador, mas tiveram que esperar pelos apóstolos para serem batizados com o Espírito Santo no sentido de serem introduzidos historicamente no pacto abraâmico. Curiosamente, os samaritanos não falaram línguas e nem profetizaram porque eles não eram gentios, apenas estrangeiros. Como vimos anteriormente, línguas e profecia acompanham historicamente o batismo com o Espírito Santo apenas dos gentios nos únicos casos de Atos 2, 10 e 19.

Alguns sugerem que o sinal visível do batismo com o Espírito Santo entre os samaritanos (Atos 8) teria sido o fenômeno das línguas ou profecia. Essa ideia deve ser rejeitada por dois motivos: quanto às línguas, não pode ser porque os samaritanos não são gentios, mas judeus mistos (2 Rs 17:24-41), que continuaram com práticas judaicas misturadas a crendices pagãs. Durante toda a história eles aparecem reivindicando sangue judeu e a aliança abraâmica ainda foi lembrada por Deus em favor deles. Já no Novo Testamento eles receberam de Jesus a mesma atenção e tratamento dado aos judeus, inclusive estendendo seu ministério entre os samaritanos (Lc 10:29-37; 17:16-18; Jô 4:1-42); o mesmo não aconteceu aos gentios, (Mt 15:21-28), pois esses só tiveram contato com o evangelho depois da confirmação da aliança abraâmica no dia de Pentecostes. Jesus não considerou os samaritanos como gentios, pois os usou como exemplo para os judeus (Lc 10:29-37) e os chamou de “estrangeiros” (Lc 17:18), e não de cachorrinhos. Quanto à profecia, é impossível porque os samaritanos dos tempos de Jesus não diferiam dos judeus quanto aos grandes temas teológicos dos israelitas, identificando-se especialmente com os saduceus. Eles esperavam o Messias (Jo 4:25) e possuíam o Pentateuco Samaritano; a única diferença era que eles não partilhavam dos escritos proféticos. Sendo assim, o batismo com o Espírito Santo não precisaria confirmar que Deus estava dando aos samaritanos suas verdades reveladas que dera aos judeus, pois eles já possuíam desde há muito tempo.

Como, pois, confirmar a entrada de um povo que não é gentio na aliança abraâmica? A resposta é que ninguém sabe qual foi o elemento visível comprobatório de que eles foram batizados com o Espírito Santo a ponto de ser notado por todos os que estavam ali naquele dia. A verdade é que Deus usou um outro sinal visível que sinalizou para judeus e samaritanos que o pacto abraâmico foi estendido a eles também. Isso torna a entrada dos samaritanos no pacto distintamente dos gentios.

Conclusão

O batismo com o Espírito Santo para crentes não existe mais. A função do batismo com o Espírito Santo que vai além de introduzir incrédulos pela fé no pacto da graça não cabe no cenário eclesiástico moderno. O batismo com o Espírito Santo de pessoas crentes foi um marco na história da redenção e do cristianismo apostólico, que tinha em vista registrar na Palavra de Deus a verdade de que a promessa abraâmica foi cumprida, e que hoje todos os povos são bem vindos à graça de Deus.


por Moisés Bezerril
Fonte: BÍBLIA, LÍNGUA E LITERATURA

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cessacionismo - por Lee Irons



Embora os excessos “carismáticos” de hoje em dia extrapolam-se para além da tradicional prática de falar em línguas e descambam-se para os verdadeiros espetáculos que raiam ao bizarro (haja vista as manifestações extáticas associadas à Bênção de Toronto), as línguas ainda podem ser consideradas assunto em pauta, ante a necessidade de esclarecimento acerca da matéria. Não nos estendemos pelos muitos outros pontos teológicos envolvidos, como a teologia da segunda bênção, o papel da experiência subjetiva na vida cristã, e assim por diante. O que se segue é meramente uma compilação dos melhores argumentos cessacionistas que demonstram que as línguas e a profecia cessaram com o fim da era apostólica. De modo algum estes argumentos são originais. Para tanto, baseamo-nos muito no trabalho de Richard Gaffin em Perspectives on Pentecost (1979), o qual consideramos o melhor livro sobre o assunto. De fato, muito do que se segue não passa de simples esboço dos argumentos de Gaffin, citados por nós de forma completamente livre. Outras fontes são citadas também a título de corroboração e exposição.

ENUNCIADO DA TESE CESSACIONISTA

"Cessacionismo": assim entendida a tese que alguns dons (e seus correspondentes ministérios) descritos no Novo Testamento são ordinários e perpétuos, enquanto outros eram extraordinários e foram paulatinamente desaparecendo da vida da igreja a partir do fim da era apostólica.

DONS ORDINÁRIOS/MINISTÉRIOS (para justificação dessa tríplice classificação, veja Brown)

1. Pastores e mestres - Rm 12:7; Ef 4:11; I Tm 3:1-7 2. Presbíteros (dom de dirigir e governo) - I Co 12:28; Rm 12:8; I Tm 5:17 3. Diáconos (dom de serviço, distribuição, misericórdia) - Rm 12:7-8; I Tm 3:8-13

DONS EXTRAORDINÁRIOS/MINISTÉRIOS (I Co 12:28-30; Ef 4:11)

1. Apóstolos 2. Profetas (palavra de sabedoria; de conhecimento - I Co 12:8) 3. Evangelistas 4. Discernimento de espíritos (I Co 12:10) 5. Línguas 6. Interpretação de línguas 7. Operadores de milagres; curas ("fé" inclusive(?) I Co 12:9)

NOTA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE DOM E MINISTÉRIO

Não podemos detalhar aqui, mas nos parece razoável presumir que há um relacionamento íntimo entre dom e ministério. No caso dos dons extraordinários, é desnecessário presumir que um apóstolo tivesse de impor as mãos sobre cada pessoa para recebesse um determinado dom extraordinário (apesar de que isso ocorreu em alguns exemplos - At 8:17; 19:6; II Tm 1:6). Em vez disso, a outorga de carismas ocorria por ocasião da ordenação.

No que diz respeito aos dons ordinários, emerge o seguinte quadro. Nas Epístolas Pastorais (que nos dão uma ideia da ordem a ser perpetuada na igreja após a era apostólica), vemos as qualificações (I Tm 3:1-13), o teste probatório (I Tm 3:10), e a ordenação (I Tm 5:22; Tt 1:5) como elementos fixos a ser considerados no estabelecimento de oficiais ou lideres na igreja, os quais eram dotados de dons de ensinar (pastor), reger (presbítero) ou exercer misericórdia (diácono).

Além dos ministérios especiais, há também o ministério geral de todos os crentes (Ef 4:11-13). Uma vez que todo o Corpo de Cristo é dotado espiritualmente, cada um pode (e deve) exercitar o seu, ou os seus, dons, "para a obra do ministério" e da edificação do corpo, sem ter que necessariamente ser ordenado a um ministério/oficio especial (Rm 12:4-8; Ef 4:16; I Pe 4:10-11).

AFIRMAÇÕES POSITIVAS

A questão não é se o cessacionista aceita (ou rejeita) a realidade da obra do Espírito Santo na vida dos crentes.

A posição cessacionista afirma que todos os crentes possuem “o dom” do Espírito Santo (Jo 7:37-39; At 2:38; I Co 12:13). Todos os que são batizados em Cristo são batizados com o Espírito Santo.

Além disso, afirma-se que a igreja pós-apostólica continua sendo abençoada ricamente com várias distribuições do Espírito Santo, ("dons") para a edificação do corpo de Cristo através de diversas formas de ministério (I Co 12; Ef 4:11-16). Todo o crente possui tanto “o dom” como “dons”. Nem todos crentes têm todos os dons, uma vez que estes são distribuídos por Deus conforme lhe apraz (I Co 12).

Sobretudo, a posição cessacionista não nega o subjetivo, o aspecto experiencial da vida cristã, que pode ser considerado como um elemento intrínseco do ministério do Espírito Santo. Tão profunda e misteriosa é a obra do Espírito na vida dos crentes que chega a ser por vezes indescritível (Rm 11:33; II Co 9:15; 12:4; I Pe 1:8), ministrando-nos num nível de nosso ser que suplanta o nosso intelecto. O Espírito ministra a nós …

• a ajuda na oração (Rm 8:26-27; Ef 6:18; Jd 20)
• o derramamento do amor de Deus em nossos corações. (Rm 5:5)
• a impressão em nós de um antegozo da glória celeste. (II Co 1:21b; Ef 1:13ss.)
• a nossa santificação (I Co 6:11; I Pe 1:2)
• o enchimento de nossos corações com o amor, alegria, paz, esperança etc. (Rm 15:13; Gl 5:22ss.)
• o nosso despertamento com poder para a mortificação da carne (Rm 8:13)
• a testificação em nosso espírito de que somos filhos de Deus (Rm 8:15b)

Certamente essa lista é incompleta, e sem dúvida muitos aspectos do ministério do Espírito Santo, acima descritos, são sobrepostos ou se tornam indistinguíveis na experiência atual.

Os cessacionistas afirmam também que, embora todo o verdadeiro filho de Deus tem o Espírito como um dom permanente (Rm 8:9), a experiência subjetiva do crente é variável. Portanto, é possível entristecer e apagar o Espírito Santo (Ef 4:30; I Ts 5:19), e, por isso, somos ordenados a nos enchermos e andarmos no Espírito (Ef 5:18; Gl 5:25).


PRESSUPOSTO BÁSICO


"As línguas no NT sempre estavam intimamente associadas à profecia e, quando interpretadas, eram funcionalmente equivalentes à profecia, como revelação de Deus para edificar os outros. De fato, as línguas eram uma forma de profecia" (Gaffin, p. 102)

“Talvez pudéssemos até falar um certo tipo de línguas essencialmente proféticas, a diferença é que, ao contrário da profecia, essas línguas requerem interpretação para serem entendidas pelos outros” (Gaffin, p. 80)


PRESSUPOSTO PROVADO


1.  "Um deliberado contraste entre profecia e línguas estrutura todo o capitulo. Este par de dons percorre segue uma linha mestra em quase todo o contexto... O que estrutura I Coríntios 14 é a junção da profecia com as línguas, o que leva a concluir que de fato ambos, justapostos, são dons da palavra revelatória." (Gaffin, pp. 56, 81). "O que liga profecia às línguas, o que ambas têm em comum é o que as fazem comparáveis (contrastáveis) e explicam suas equivalências funcionais, sendo isso o que determina que elas são o dom da palavra." (Gaffin, p. 58)

2. A possibilidade de interpretação das línguas indica (I Co 12:10,30;14:5,13,26-28) que é uma comunicação inteligível de Deus. Conseqüentemente, deve ser uma revelação divina. (Este ponto é válido ainda que as línguas em Corinto fossem línguas atualmente existentes.)

3. “Conforme I Co 14:5 ("o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete"), as línguas interpretadas são funcionalmente equivalentes à profecia. (Robertson, p. 27) "A inferioridade fundamental ou a depreciação das línguas em relação à profecia aparentemente aplica-se somente às línguas não interpretadas e é removida quando ocorre interpretação." (Gaffin, p. 57)

4. “O caráter revelacional e inspiratório das línguas é também visto no fato de que pelo Espírito 'quem fala em línguas… fala mistério' (I Co 14:2)." Compare-se com I Cor. 13:2. (Gaffin, p. 79) "Este termo 'mysterion', no NT, tem um verdadeiro significado específico que inerentemente evoca a idéia de comunicação da revelação divina." (Robertson, p. 23)

5. "Em Atos, encontramos indicações de uma associação definida entre profecia e línguas." Atos 2:4 (cf. vv. 17-18, citando Joel 2:28 em diante); 19:6 ("eles falaram em línguas e profetizaram"). (Gaffin, pp. 81-82)

6. Exegese cuidadosa de I Co 14:14 (veja 2. abaixo) conduz a seguinte tradução: "Porque se eu oro em línguas, o Espírito em mim [ou, o espírito que me foi dado] ora, mas o meu intelecto fica inativo." (NEB). Desse modo, alguém que fala em línguas fala palavras inspiradas pelo Espírito Santo, o que é a definição de profecia. Cf. v. 2. (Gaffin, pp. 73-78)


PRESSUPOSTO DEFENDIDO


O fato das Escrituras mencionarem outros usos secundários das línguas não prejudica o seu caráter intrínseco fundamentalmente profético e revelacional. Os três argumentos seguintes têm sido utilizados para relevar os usos secundários do dom de línguas e dessa maneira minimizar ou eliminar o seu elemento profético/revelacional.

1. “HÁ UMA UTILIZAÇÃO DIVINA DAS LÍNGUAS”

"Em I Coríntios 14 Paulo diz que 'alguém que fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus' (v. 2) e as línguas redundam em 'oração,' 'cânticos,' e 'ações de graças' a Deus (vv. 14-17). Um argumento por vezes contrário a natureza revelacional das línguas em Corinto e que é mais uma direção divina das línguas e menos, ou nada a ver, com uma direção à revelação."

Resposta:

“Em contraposição… quando nos debruçamos sobre os Salmos e outras porções doxológicas da Escritura. Caso recitemos algum salmo que é dirigido a Deus e não aos homens, por essa razão então não seria revelação? Em sentido contrário, sob a direção divina é revelação inspirada e registrada na Escritura para que pudesse servir para edificação do seu povo da aliança, e é isso o que as línguas (interpretadas) também são e para isso que elas também serviriam (v. 5)." (Gaffin, p. 80) 

2. LÍNGUAS NÃO REVELACIONAIS

I Coríntios 14:14 diz: "Porque se eu orar em língua, o meu espírito ora, sim, mas o meu entendimento fica infrutífero." Alega-se que este texto ensina que há uma função não-revelacional para as línguas, ou seja, é uma expressão das profundezas do espírito do crente, sub-racional e não-conceitual.

Resposta:

Esta visão precisa tomar a expressão "meu espírito" como uma referência ao espírito humano, e deve empregá-la em contraste com a "minha mente". Mas isso é exegeticamente indefensável pelas seguintes razões: 

• A antropologia do NT nunca coloca o "espírito" e a "mente" humanas uma contra a outra assim desse jeito. O único dualismo que a escritura aceita é entre o corpo e o espírito/mente/coração/alma, ou entre "o homem exterior" e "o homem interior." O fato de Paulo poder falar em "renovar no espírito da vossa mente" (Efé. 4:23), mostra que "espírito" e "mente" pertence ao mesmo domínio semântico. Cf. também Marcos 12:30. (Gaffin, pp. 74f) 

• A palavra "espírito" em I Coríntios 14:14 não deveria ser interpretada antropologicamente (como um componente da psicologia humana) mas carismaticamente (como uma referencia ao dom dado a cada profeta pelo Espírito Santo). Este é um uso estabelecido: "o que fala em língua... (pelo) em (seu) espírito fala mistérios" (v. 2); "já que estais desejosos de dons espirituais," (lit. "espíritos," v. 12); "os espíritos dos profetas são sujeito aos profetas" (v. 32); "a outros, o dom de discernir os espíritos" (I Co 12:10); "não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo." (I Jo 4:1); "o Deus dos espíritos dos profetas" (Apocalipse 22:6). 

3. USO PRIVADO DAS LÍNGUAS

I Coríntios 14:4 nos diz que "quem fala em línguas edifica-se a si mesmo." Usualmente, este verso está mencionado em conexão com uma interpretação antropológica de "espírito" nos vv. 2 e 14 (que examinamos acima e deixa muito a desejar). O argumento é que, embora as línguas precisem ser traduzidas, se exercitadas em publico, elas ainda são espiritualmente benéficas ao individuo que as usa privadamente ("Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus." v. 28).

Resposta A:

“Qualquer uso privado das línguas, separadas, acrescidas, ou independentes do seu exercício publico, ligado à interpretação, certo modo, descaracteriza o dom. É como se dissesse que há um dom de línguas para o uso privado, e outro para o uso público (com interpretação). No entanto, particularmente, qualquer utilização privada das línguas evoca um aspecto estritamente subsidiário, periférico do dom. As línguas privadas são vistas como adjuntos benéficos, subsidiários, desfrutados pelo recipiente do dom (a ser interpretado) que tem função revelacional distintiva. Note-se que estão debaixo das reiteradas ordens de Paulo justamente os que oravam e louvavam em línguas (v. 14b), no sentido de que houvesse interpretação (v. 13; cf. v. 5), os quais freqüentemente entendiam como central o exercício privado do dom. Da visão que sustenta que as línguas foram primeiramente dadas para a vida de oração pessoal do crente, e não para exercitá-las publicamente na congregação, distanciadas da interpretação, pode-se dizer apenas que isso inverte complemente o ponto de vista focalizado por Paulo em I Coríntios 14". (Gaffin, p. 83)

Resposta B:

É precisamente este aspecto não-intelectual, sub-racional do falar inspirado, extático que fazia tão atrativo o dom de línguas aos cristãos imaturos do Corinto. E é justamente este aspecto que Paulo quer controlar, limitar, e minimizar. É verdade que não proíbe que se falem em línguas (de fato, ele proíbe que seja proibido - 14:39). Mas ele reprova os coríntios por suas prioridades imaturas (14:20), visto que eles exaltavam a expressão extática acima do o falar inteligível, edificante (profecia, interpretação de línguas). Paulo permite o dom extático, obviamente, porque ele era um dom genuíno do Espírito para aquele tempo, mas ele solicita que este dom seja exercido em determinada forma, precisamente por causa dos abusos que poderiam surgir devido seu elemento necessariamente não-racional, extático. Ele o limita de três maneiras:

• Como a profecia, as línguas estão sujeitas à avaliação e ao discernimento dos seus conteúdos pelos companheiros-profetas existentes na igreja reunida (I Co 12:10; 14:29). Todas supostamente inspiradas, as expressões extáticas precisam ser julgadas para ver se elas estão "de acordo com a analogia da fé" (Rm 12:6 – para exegese veja Gillespie, cap. 1). "não desprezeis as profecias; mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom" (I Ts 5:20ss/comp. I Jo 4:1-3).

De acordo com Gillespie, os pneumáticos de Corinto aparentemente criam que as expressões ininteligíveis, extáticas (glossolalia) eram o principal sinal verificador do falar inelegível autêntico (profecia). "Os que eram infantes espiritualmente a viam [línguas] com o sine qua non da obra do Espírito, sem dúvida, como um 'sinal' confirmatório da expressão profética." (Gillespie, p. 160)

Mas, em I Co 12:1-3 Paulo contesta essa avaliação simplista e imatura da importância das línguas. Parafraseando: "Vocês sabem que as evidencias de êxtase não são critérios confiáveis para apurar a autenticidade da inspiração divina por que no passado pagão de voes elas os dirigiam aos ídolos mudos (v. 2). Então, a legitimidade das expressões proféticas precisa ser julgada puramente com base no seu conteúdo material (v. 3)." (Gillespie, p. 83)

• A segunda limitação é intimamente relacionada à primeira, mas aduz-se outra dimensão: o falar extático não é evidência suficiente de que alguém está sob inspiração do Espírito.

De acordo com a exigência de que as línguas estejam em consonância com o evangelho ortodoxo, Paulo insiste que elas precisam ser traduzidas de modo a que seu conteúdo ortodoxo possa edificar o corpo. É claro que a edificação inteligível, racional, doutrinária é a única justificativa para o exercício das línguas na assembléia. Se elas não servem para este propósito, elas meramente enchem de orgulho o possuidor do dom, o que está em oposição ao amor (I Co 13).

• Por fim, argumentar que a utilização privada, auto-edificadora, não-revelacional das línguas deveria continuar hoje implica em prejudicar a força do argumento de Paulo em I Co 14. Porque é precisamente este elemento extático, não-racional, que Paulo insiste que deve ser colocado totalmente em subserviência à função revelacional, pública, verificável e corporativa do dom. De acordo com Paulo, qualquer beneficio do falar não revelacional e extático deve ser considerado como secundário, efeito colateral subordinado ao propósito e função próprios do dom, e então não é algo para ser procurado à parte deste propósito e função precípuas.

"A noção de línguas não-revelacionais, como as incontidas vocalizações, se pré-conceituais, provenientes do lado inconsciente da personalidade … não é ensinada em I Coríntios 12-14, ou em qualquer outro lugar do NT." (Gaffin, p. 81)

TRÊS ARGUMENTOS CESSACIONISTAS

A. O ARGUMENTO DO ENCERRAMENTO DO CÂNON (MENOS PERSUASIVO)

1. O apostolado foi um evento redentivo-histórico irrepetível do mesmo modo que a morte, sepultamento e ressurreição de Cristo, por que "o anúncio da redenção não pode ser separado da própria história da redenção." (Ridderbos, pp. 12-15).

2. O apostolado foi encerrado depois da chamada de Paulo, uma vez que ele estabelece que Cristo apareceu-lhe "o último de todos" (I Co 15:8 – veja o detalhamento da exegese em Jones). A Doutrina Católica Romana da sucessão apostólica não tem fundamentação exegética (Cullmann, pp. 207, 236).

3. A presença do apostolado era uma condição necessária para a produção das Escrituras inspiradas do Novo Testamento. "A base redentivo-histórica do cânon do Novo Testamento somente poderia ser procurada na autoridade apostólica e tradição." (Ridderbos, p. 24)

4. Conseqüentemente, como o apostolado, a escritura do Novo Testamento é um evento redentivo-histórico irrepetível, único, e completo. "Quando entendido em termos de história da redenção, o cânon não pode ser aberto; por principio ele precisa ser fechado. Conseqüência direta da natureza única e exclusiva do poder dos apóstolos recebido de Cristo… A natureza fechada do cânon do Novo Testamento permanece no final das contas de significância definitiva, de uma vez por todas, na própria história da redenção apresentada pelas testemunhas apostólicas." (Ridderbos, p. 25)

5. A partida definitiva do apostolado necessariamente implica no encerramento do cânon do Novo Testamento.

6. Para que a profecia (incluindo línguas- veja "pressuposição básica" acima) pudesse continuar nas gerações subsequentes pós-apostólicas da igreja, para além do período fundacional, teria que necessariamente criar tensões com o caráter fechado, finalizado, do cânon. De fato, do mesmo modo, a continuação poderia acabar com o cânon em seu sentido estrito. (Gaffin, p. 100).

7. Conseqüentemente, os dons proféticos (profecia, línguas etc.) tinham que passar da vida da igreja com o encerramento do cânon do NT.

B. O ARGUMENTO DE EFÉSIOS 2:20

1. Tecnicamente, este argumento não deve ser separado do precedente. São fundamentalmente criveis algumas considerações teológicas (a natureza única e temporária do apostolado). De qualquer forma, é mais pedagogicamente útil apresentar este argumento separadamente, uma vez está baseado mais num texto-prova explicito do que numa dedução apenas.

2. “Texto decisivo, de importância crucial, é Efésios 2:20 (no seu contexto) e precisa ser apreciado…. I Coríntios 14 … tem um escopo relativamente estreito e está confinado à situação especifica de Corinto. O texto de Efésios, por outro lado, pode ser visto como uma carta circular, pela qual originalmente Paulo tinha em mente um leque de destinatários mais amplo do que a congregação de Éfeso. O mais importante ainda é que 2:20 é parte duma seção que analisa a igreja como um todo de forma mais abrangente e compreensiva. Efésios 2:20 padroniza, vê o edifício inteiro, e situa nesse contexto a profecia (uma parte das fundações do edifício); I Coríntios e outras passagens sobre profecia examina antes de tudo uma parte desse todo. Efésios 2:20, então, com seu escopo amplo tem que ter um papel essencial e dominante na busca do entendimento de outras menções de profecias no NT que têm foco mais estreito, mais particular e mais detalhado…." (Gaffin, p. 96)

3. "Efésios 2:20 associa 'profetas' com os apóstolos em atividade de testemunhas fundamentais ou de ministros da palavra." (Gaffin, p. 93)

4. Esses "profetas" não são os profetas do Antigo Testamento, mas estes são encontrados em todo o NT (At 13:1 em diante; 21:10ss.; I Co 12:28; 14:1-40; Ef 4:11; Ap 1:1-3). O fato de que os profetas do AT não são iguais aos do NT é demonstrado em Ef. 3:5 que usa a mesma frase "apóstolos e profetas" em contraste com a revelação no AT.

5. Um estudioso não-cessationista admite que a exegese de Gaffin de Efésios 2:20 está correta e pode favorecer a posição cessacionista. No entanto, ele tenta esquivar-se de focalizar este argumento através da interpretação de que havia "os apóstolos que eram também profetas" (Grudem, pp. 45-64). Mas essa exegese não passa pelo crivo de qualquer análise gramatical séria (Wallace), e os demais argumentos de Grudem tem sido respondidos ponto por ponto (White).

6. "Línguas estão ligadas à profecia e se mantém, por assim dizer, nas sombras. Há pelos menos uma sugestão no capítulo [I Co 14] de que as línguas não têm lugar na vida da congregação à parte de sua coexistência, e exercício conjugado, com a profecia." (Gaffin, p. 58)

7. Mesmo que o dom de línguas per se não aparece em Ef 2:20, a evidência aduzida no "pressuposto básico" (acima) nos força a concluir que na medida em que as línguas são interpretadas elas são funcionalmente equivalentes à expressão profética, e assim pôde participar na aludida fundação da Igreja.

8. Inerente à analogia da fundação é a ideia de que uma vez que o fundamento foi lançado , todo o trabalho que resta é edificar sob o fundamento(I Co 3:10-15). Quando Paulo identifica os apóstolos e os novos profetas da aliança com a fundação da igreja, afirma desse modo seu papel original, não-perpétuo.

9. Conseqüentemente, o dom de línguas era para a fundação da igreja, e conseqüentemente nada mais natural que tenham "desaparecido da vida da igreja juntamente com a profecia e os demais dons fundacionais, ligados à presença do apostolado na igreja." (Gaffin, p. 102).

C. O ARGUMENTO DAS LÍNGUAS COMO UM SINAL

1. Paulo declara que as línguas como línguas (isto é, à parte do conteúdo revelacional, quando interpretadas) foram dadas como um sinal de juízo de Deus contra os descrentes (I Co 14:20-22).

2. De maneira análoga às parábolas de Jesus (Marcos 4:12), as línguas foram dadas primariamente (mas não exclusivamente) para endurecer Israel na incredulidade. Essa função "está ligada inseparavelmente à transição definitiva da velha para a nova e final história da aliança, uma transição que resulta na fundação da igreja." (Gaffin, p. 107)

3. A citação por Paulo de Isaías 28:11-12, característico da utilização do AT no NT, evoca intencionalmente o contexto mais amplo de Isaías 28, particularmente, o v. 16 ("Eis que ponho em Sião como alicerce uma pedra, uma pedra provada, pedra preciosa de esquina, de firme fundamento"). "No NT este versículo é proeminente nas passagens relativas à edificação da Igreja; é mencionado em I Pedro 2:6 (cf. v. 4) e evidentemente se baseia no que se encontra em Efésios 2:20 (cf. I Co 3:11). Cristo como o fundamento da Igreja é o cumprimento desta profecia. Mas é também citado em Romanos 9:33 (cf. 10:11), onde é aplicado contra o Israel infiel a Cristo e ao Evangelho (cf. 9:31ss.). O julgamento sobre Judá foi predito por Isaías, inclusive por meio da manifestação das línguas estranhas enviadas por Deus, o que foi cumprido mediante o lançamento do alicerce da Igreja em Cristo e nos apóstolos (e profetas). O tempo de Deus (de uma vez por todas) lançar um firme fundamento em Sião é também o tempo de conclusão do julgamento dos infiéis em Sião provocado por essa atividade." (Gaffin, p. 108)

4. "Dentro deste amplo contexto de profecia e cumprimento, pois, o ponto que Paulo salienta em I Coríntios 14:21ss. é que as línguas são sinal de juízo de Deus ocorrido durante a inauguração da nova aliança e a fundação da Igreja. Línguas são o sinal de julgamento correlato ao ocorrido em outras oportunidades (lançar fundamentos), relativo às ações divinas (primariamente no contexto judaico) contra os infiéis e o julgamento escatológico que o acompanha."

5. Apesar de não podermos restringir as línguas como um sinal exclusivamente aos judeus infiéis (uma vez que I Co 14:22 o aplica a todos os descrentes), continua sendo verdade isso especificamente em relação aos judeus infiéis, o que conduz à ab-rogação da antiga ordem da aliança e o lançamento das bases para uma nova aliança. Além disso, vemos em At 18:1-17 que a oposição judaica à missão gentílica era muito forte em Corinto.

6. "Não pode ser negligenciado que, seja qual for significância das línguas como um sinal, Paulo ensina claramente que essa função de sinal é uma característica integral das línguas, presente sempre quando o dom é exercitado." (Gaffin, p. 109)

7. Então, visto que as línguas são um sinal pertencente ao período de transição na história da redenção, quando o antigo Israel estava sendo rejeitado e o novo Israel estava sendo instaurado, hoje elas não são mais necessárias.

NOTA SOBRE I COR 13:8 EM DIANTE (ARGUMENTO [A] PELA CESSAÇÃO) 

1. Alguns cessacionistas, em busca de um argumento conclusivo e definitivo contra o contemporanismo de línguas e profecia, têm tentado identificar “o perfeito” com o encerramento do cânon do NT. De qualquer forma, os melhores exegetas cessacionistas admitem que esta interpretação não pode ser exegeticamente sustentada.

2. A chegada do "perfeito" (v. 10) pode coincidir com a vinda de Cristo, porque é somente ai que conheceremos como somos conhecidos (v. 12).

3. Se isso for admitido, estamos forçados a opor a conclusão de que as línguas e a profecia continuariam até a Parousia?

4. Não necessariamente. "Paulo bem que poderia ter também mencionado a escrituração como uma forma de revelação", a qual é, assim como a profecia e as línguas, um modo "parcial" de conhecer a Deus, que será substituído pelo "perfeito" na Parousia. "Mas cessou a escrituração. E se concordamos com isso, então é despropositado insistir que essa passagem ensina que os modos de revelação mencionados, profecia e línguas, continuariam em funcionamento na Igreja até a volta de Cristo." (Gaffin, p. 111)

5. "O momento da cessação da profecia e línguas é uma questão aberta até agora, ainda que essa passagem referia a isso. Deveria ser decidida a questão com base em outras passagens e considerações." (Gaffin, p. 111)


FONTES CITADAS


BROWN, Mark R., ed. Order in the Offices: Essays Defining the Roles of Church Officers. Duncansville, PA: Classic Presbyterian Government Resources, 1993.
CULLMANN, Oscar. Peter: Disciple, Apostle, Martyr. Philadelphia: Westminster, 1953.
GAFFIN, Jr., Richard B. Perspectives on Pentecost: New Testament Teaching on the Gifts of the Holy Spirit. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1979.
GILLESPIE, Thomas W. The First Theologians: A Study in Early Christian Prophecy. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1994.
GRUDEM, W. A. The Gift of Profecy in the New Testament and Today. Westchester, IL: Crossway, 1988.
JONES, Peter R. "I Corinthians 15:8: Paul the Last Apostle." Tyndale Bulletin 36 (1985) 3-34.
RIDDERBOS, Herman N. Redemptive History and the New Testament Scriptures. Second Revised Edition. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1988 (originalmente publicado em 1963).
ROBERTSON, O. Palmer. The Final Word: A Biblical Response to the Case for Tongues and Profecy Today. Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 1993.
WALLACE, D. B. "The Semantic Range of the Article-Noun-KAI-Noun Plural Construction in the New Testament." Grace Theological Journal 4 (1983) 59-84.
WHITE, Fowler R. "Gaffin and Grudem on Ef 2:20: In Defense of Gaffin's Cessationists Exegesis." Westminster Theological Journal 54 (1992) 303-20.


Fonte: Monergismo.com

domingo, 25 de outubro de 2015

Dom de Línguas - Eram humanas, para uma finalidade e para um período próprio!


Defendem que este é um padrão que deve ser considerado importante na formação do cristão, pois leem 1 Co 14.4 - "O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja" - acreditando que esta colocação de Paulo é uma exortação a que os cristão falem em línguas, nem que isto seja para sua edificação. Isto é um mito. Apesar do texto dizer que o que fala em línguas edifica si próprio, o objetivo de Paulo é mostrar que os Coríntios deveriam cuidar da edificação coletiva. Se formos considerar o objetivo da carta aos Coríntios neste ponto em questão, devemos levar em conta que Paulo não está exortando ou incentivando a que falassem em línguas para que cada um saia edificado. Ele está corrigindo o egoísmo dos cristãos de Corinto, os exortando a profetizar.
O dom de línguas no contexto em que ele aparece está intimamente vinculado ao dever de proclamação. O profetizar em 1Co 14.3 é nada mais do que dizer, ou revelar o que as línguas desconhecidas queriam dizer sobre as verdades espirituais. O falar mistérios (1Co 14.2) é falar o que não é conhecido. Não são as línguas um mistério, mas o que Deus quer dizer por meio delas. O pentecostalismo ao dar enfase ao termo "mistério" subverteu o texto de 1Co 14.2, que diz que "em espírito (o crente) fala mistérios". Para o pentecostal, agora o crente fala “em” mistério. Este mistério para eles são as línguas.  Elas também são mistérios porque acreditam que são línguas angelicais, desconsiderando totalmente que toda vezes que as línguas foram faladas, elas estavam em um contexto de diversidade de cultura, logo de idiomas. para os pentecostais estas línguas servem para a edificação individual e como continuístas, dizem que isto é uma evidência daqueles que foram batizados no Espírito Santo.
Neste estudo, vamos compreender que as línguas estranhas faladas eram para proclamação e edificação coletiva, eram línguas estrangeiras e humanas, jamais foram angelicais. Veremos também que estas línguas eram uma evidência para incrédulos, inseridos num propósito de evangelização e que estas línguas cumpriam um propósito para um período, portanto, cumprindo seu propósito, já cessaram . O que a Bíblia tem a dizer sobre o tema?
Há pelo menos 6 textos que mencionam línguas como um dom:
Mc 16.17; At 2.1-12; At 10.46; At 19.6; 1Co 12.10, 28, 30; 1Co 14.1-39
Um dos argumentos muito usado para justificar a existência de uma língua angelical é a maneira como as versões apresentam as qualidades das línguas (novas, outras, variadas ou estranhas). O argumento é construído da seguinte forma: “Ora, se a língua é estranha, então é porque os homens não a conhecem, logo deve vir do céu.” Outra coisa muito comum para este argumento é que o falar mistérios significam coisas fora de compreensão.
Entendendo a estranheza da língua
Quando as versões Bíblicas trazem as palavras “novas, outras, variadas ou estranhas” é muito comum as pessoas associarem estas palavras a língua de anjos. Mas precisamos deixar claro que não há evidência na Bíblia de que alguém falou em língua de anjos. O fato de aparecer num texto a palavra “estranha” com relação a uma língua, não significa que esta estranheza venha de algo celestial ou angelical, até porque como já foi dito, não há nenhum texto que afirme que alguém falou em língua de anjos. Então, que línguas são essas?
Dos 6 textos acima onde línguas aparecem como dom, 2 deles só mencionam que o dom é uma distribuição divina (Mc 16.17; 1 Co 12.10, 28, 30). Estes nada explicam e seu exercício ou função.
Restam 4, destes 4, 3 mostram o dom sendo exercido publicamente (At 2.1-12; 10.46; 19.6) e 1 texto explica a finalidade do dom.
Vamos examinar os 3 textos e verificar o seguinte: não houve manifestação alguma de línguas angelicais neles.
1. At 2.1-12
Quando desceu o Espírito Santo sobre os que estavam reunidos, o que lemos é que eles começaram a falar em outras línguas (v.4)
Mas quais línguas?
Segundo os próprios ouvintes, cada um na sua própria língua (idioma) de origem (vs. 8-11). Os medos, partos, cirineus e assim por diante estavam atônitos por um simples fato:
Não são galileus todos os que estão falando?” (v.7)
Ou seja, os galileus falam no máximo aramaico (ainda que houvesse uma certa influência do grego no meio deles), e na ocasião, por distribuição do Espírito Santo, os galileus falavam em línguas que eles mesmos não conheciam. Eles falavam na língua dos outros povos.
2. At 10.46
Este é um texto que mau interpretado tem servido para os que acreditam que a distribuição de língua angelical é Bíblica. Isto porque alguns anulam detalhes simples de se observar na ocasião em que este grupo falou em línguas.
Pegue todo o capítulo 10 e veja que alguns personagens são centrais, estes são “Pedro e Cornélio”. Nesta ocasião temos que levantar algumas coisas importantes.
Cornélio
1. Natural de onde? – Roma2.Ocupação – ­soldado de patente alta (pretoriano) do exército romano3. Sua língua de origem – Latim4. Outras línguas que poderia falar – grego e aramaico (sua função exigia um grau de intelectualidade e habilidade com outras línguas, uma vez que ele vivia na cidade de Cesareia, em Israel e que Roma enviava seus soldados a muitas terras estrangeiras.
Pedro
1.Natural de onde? – Galileia (era judeu)2. Ocupação – pescador3. Sua língua de origem – Aramaico4.Outras línguas que poderia falar – nenhuma além da sua de origem, sua ocupação como pescador não o exigia ter algum contato com alguém de fala estrangeira.
Se levarmos em conta que todos falaram em línguas ali na casa de Cornélio que era um romano, e que Pedro era galileu, vem a tona a pergunta: “Que língua falou Pedro”?
Na ocasião Pedro vai a casa de Cornélio para compartilhar das maravilhas de Cristo e proclamar o evangelho, pois Cornélio e os outros presentes precisavam receber a mensagem de fé. Pedro obviamente falou em aramaico, pois Cornélio e os da sua casa falavam também esta língua. Logo depois da pregação de Pedro os presentes ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas.
Em At 11.1-3, Pedro é questionado pelos apóstolos e os outros judeus sobre sua pregação na casa de Cornélio. A pergunta foi:
“Como estes ficaram sabendo disso?”
A pergunta é bem clara e objetiva, quem perguntou isto a Pedro sabia o que os da casa de Cornélio falavam. O que eles ficaram sabendo naquele momento? Possivelmente muitas coisas a respeito de Cristo e começaram a proclamar numa língua que não era a deles. Se judeus sem conhecimento da língua romana, frios e incrédulos, ouviram algo na casa de Cornélio, eles ouviram a proclamação do evangelho em sua língua para que também pudessem crer. Segue-se o mesmo padrão de At 2.1-12.
No mínimo algum judeu estava na casa de Cornélio. Afinal, Cesareia, apesar de ser uma província romana em Israel, tinha habitantes judeus que frequentavam a casa do piedoso romano. Algum judeu ouviu tudo o que foi dito. Se este judeus creram na mensagem ou não a Bíblia não trás nenhum relato.
3. At 19.6
Este é outro texto mau compreendido e que deixa no ar uma ideia de que a linguagem de anjos é concedida aos homens. Entre At 18.24 e 19.6 aparece o personagem Apolo pregando a judeus em Éfeso.
Apolo tem quase as mesmas características que identificamos em Cornélio, era um estrangeiro que convivia com judeus, sua língua deveria ser o grego, pois em Éfeso, região da Ásia Menor esta língua predominava. Sua ocupação é desconhecida. Havia uma mistura clara de fala judaica e grega na região de Éfeso. Note que a pregação era destinada aos judeus e que o Espírito Santo concedeu que a mensagem fosse provavelmente levada a eles na linguagem judaica, para que os judeus entendessem a pregação e não só a manifestação.
Pare e pense - A finalidade das línguas
Avalie At 10.46 e 19.6 e perceba que há sempre judeus no meio, até mesmo os que eram prosélitos (At 2.1-12). Nos capítulos 2; 10 e 19 de Atos dos Apóstolos sempre houveram judeus questionando os eventos mencionados. Em At 11 vemos a indignação dos judeus ao saberem que Pedro foi a casa de um romano e que os romanos que estavam ali receberam o Espírito Santo. Esta observação nos conduz para uma reflexão sobre o propósito fundamental do dom línguas naquele período, e que é mencionado em 1 Co 14.
A manifestação é um sinal para os incrédulos (v.22). As manifestações distribuídas e avaliadas até aqui sempre estavam ligadas ao fato de proclamar a Jesus Cristo aos judeus, que se achavam donos das bênçãos divinas. Também aos que não eram judeus, que eram chamados de escória, que também estavam na incredulidade. Todas as manifestações estavam ligadas a anunciar a verdade de Jesus Cristo, por isso que a linguagem humana é intimamente ligada ao dom de línguas e não de anjos. O que mais impressiona e comprova esta questão tão polêmica e mau resolvida é que Paulo em 1 Co 14.21 repete o que Isaías já havia dito:
Assim por lábios gaguejantes, e por outra língua, falará a este povo.” (Is 28:11)
A conexão dos textos afirmam que a linguagem estrangeira e não a angelical seria o canal de comunicação para um período onde um número muito grande de variedades de idioma estava presente na missão da igreja. Então, tudo o que vimos até aqui é que o dom de línguas era útil para os incrédulos num contexto em que a mensagem poderia ser universalizada, pois seus primeiros anunciadores na ocasião não falavam mais do que dois idiomas. Fazia-se necessário que algo extraordinário acontecesse para que etíopes, medos, gregos ou romanos pudessem compreender a anunciação das boas novas.
Conclusão
John Piper, diz que “os textos possuem argumentos, ideias e significado”, Qual é o grande problema para esta questão e todas as outras que surgem sobre os temas Bíblicos? Este problema é uma junção entre desistência, que leva ao eu acho e por fim arrogância. Vamos entender isto?
Quando você lê um texto, nele já existem conclusões, existe uma verdade, e isto precisa ser garimpado. Mas se o problema inicial é uma desistência de garimpar o texto, como acharemos a verdade? Isto fatalmente nos levará a ao que muitos chamam de o eu acho. Geralmente, quando não sabemos exatamente o que dizer sobre algum assunto, ou responder a alguma pergunta, nós iniciamos a frase assim: “eu acho”. Isto mascara o que é a verdade, a verdade não é o “eu acho”. Por último, depois de desistirmos e dar a resposta do eu acho, vem a arrogância. Quando não se tem uma resposta óbvia para um questionamento importante, em geral muitos cristãos apelam para a sua própria experiência para justificar no que acredita. Isto tem levado as pessoas a serem acomodadas e presunçosas, com um tom de espiritualidade. Parece que tudo aquilo que acontece e que não tem uma explicação racional deve ser colocado num pedestal de honra, e quem não quiser seguir isto está cego e fraco espiritualmente.
O que acabamos de ver aqui é que nos é exigido um exame da Palavra de Deus, é um chamado a observarmos o que ela tem a nos oferecer, e quanto mais difícil o texto, mais precisamos estudá-lo para que a verdade salte do texto e nos atinja em cheio.
______________________________Fonte: O Presbiteriano

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