segunda-feira, 2 de novembro de 2015

As Igrejas Reformadas são uma nova seita?

 
Talvez você tenha ouvido falar de uma Igreja Reformada. Esta Igreja tem um ensino, um padrão de culto, um governo, e um estilo de vida bem diferente de muitas igrejas que se chamam evangélicas.


Talvez alguém já tenha lhe falado: “Cuidado! É uma seita, uma seita nova.”

Se você não tiver medo da verdade, convido-o a ler um pouco sobre o que são verdadeiramente as Igrejas Reformadas. Depois de tomar melhor conhecimento dos fatos, você pode tomar uma decisão sobre a pergunta que é o título deste humilde post.
A Grande Reforma Protestante (1517)

Nos quase 1500 anos entre a igreja primitiva e a Reforma protestante, a Igreja estava se desviando mais e mais da pureza da doutrina e da adoração que a Bíblia ensina. A Igreja através dos séculos estava se afundando mais e mais na superstição católica romana. Mas Deus sempre manteve um remanescente fiel que conhecia o verdadeiro evangelho: que Deus salva pecadores por pura graça, não por obras.

Na Grande Reforma Protestante, Deus usou homens como Martinho Lutero e João Calvino para reformar a Igreja. O intuito dos reformadores, especialmente João Calvino e seus sucessores, nunca foi de estabelecer uma nova igreja. Eles entenderam que estavam reformando a única Igreja de Cristo e trazendo-a de volta à doutrina e prática das Escrituras.

As Igrejas Reformadas do Brasil são ligadas pela história e pela confissão da fé apostólica com todas as igrejas fiéis que voltaram à pura doutrina e à verdadeira adoração bíblica na Grande Reforma. A Grande Reforma redescobriu a ligação Bíblica com a igreja primitiva e apostólica, e assim as Igrejas Reformadas têm uma linhagem que vai até o tempo dos apóstolos.

As Igrejas Reformadas no Brasil: primeira igreja evangélica no país (1555-1558)

Em 1555, iniciou-se uma colônia francesa na baía da Guanabara, onde hoje se encontra a cidade de Rio de Janeiro. Em 1557, chegou um grupo de cristãos reformados, junto com vários pastores mandados pelo reformador João Calvino. Assim os primeiros cultos evangélicos em nosso país foram celebrados no Rio de Janeiro, por uma Igreja Reformada francesa.

A Igreja Reformada da Baía da Guanabara: primeiros mártires brasileiros (1558)

Infelizmente, os reformados foram traídos e perseguidos pelos romanistas franceses, e assim a Igreja Reformada foi dizimada. Os primeiros mártires brasileiros pelo evangelho do Senhor Jesus Cristo foram membros da Igreja Reformada. Antes de morrerem, eles escreveram a Confissão de Guanabara1 – a primeira confissão de fé do Novo Mundo.

As Igrejas Reformadas no Nordeste: primeira igreja missionária do país (1630-1654)

Muitos conhecem o nome de Maurício de Nassau, que governou o Brasil holandês com uma tolerância e sabedoria muito adiantadas para a sua época. Poucos sabem que o Conde Maurício de Nassau fazia parte da família real da Holanda. A família Nassau estava sob juramento de defender a fé reformada e promover a tolerância religiosa e liberdade de consciência. Durante os anos que Pernambuco e uma grande parte do Nordeste ficaram debaixo do governo holandês, as Igrejas Reformadas embarcaram num projeto missionário impressionante. Dezenas de pastores e missionários pregaram a fé em vários idiomas: inglês, holandês, espanhol, francês, português, e até tupi (a língua indígena). O Catecismo de Heidelberg,2 que ensina o caminho da salvação, foi traduzido em tupi. Muitas aldeias conhecerem a graça de Deus em Jesus Cristo, e muitos indígenas se converteram ao Senhor. Você já ouviu do famoso índio Poty? Ele foi membro da Igreja Reformada do Recife.

As Igrejas Reformadas e a Tradução da Bíblia em Português (século XVII e XVIII)

Convido você a abrir sua Bíblia nas primeiras páginas. A grande maioria das Bíblias usadas no Brasil fazem uso da tradução de um tal “João Ferreira de Almeida”. Quem foi este homem? Ele foi um dos primeiros portugueses a abraçar publicamente a fé reformada, em 1642. Mais tarde ele se tornou um pastor das Igrejas Reformadas numa região da Ásia onde se fala português, e iniciou o trabalho de traduzir a Palavra de Deus para a língua portuguesa. A obra que ele iniciou foi completada por outros pastores reformados no século XVIII.

As Igrejas Reformadas e a Segunda Vinda da Igreja Evangélica para o Brasil (século XIX)

No século XIX, depois de muitos séculos, a igreja evangélica voltou para o Brasil. Foram os presbiterianos e congregacionais que trouxeram desta vez a pregação da fé reformada: Deus salva pecadores por pura graça, não por obras. É importante observar que as igrejas presbiterianas e congregacionais originalmente foram herdeiras da Grande Reforma por meio de Genebra, que é o berço das Igrejas Reformadas. As igrejas da reforma no continente da Europa costumam chamar-se “Igrejas Reformadas”, enquanto as igrejas que surgem da reforma na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos costumavam chamar-se “presbiterianas” ou “congregacionais”.

As Igrejas Reformadas no Brasil (século XX e XXI)

No decorrer do século XX, várias igrejas reformadas foram estabelecidas no Brasil por imigrantes vindos da Holanda. No ano de 1970 as Igrejas Reformadas do Canadá iniciaram trabalhos missionários em pequenas aldeias de pescadores entre Recife e Maceió; na mesma época, as Igrejas Reformadas holandesas iniciaram uma obra missionária no estado do Paraná. Hoje, existem Igrejas Reformadas oriundas da Reforma continental em muitos estados e cidades do Brasil.

Qual é sua conclusão?

As Igrejas Reformadas vêm da Grande Reforma do século XVI, e através desta reforma têm uma ligação com a igreja primitiva apostólica. O primeiro culto evangélico no Brasil foi um culto da Igreja Reformada, já no século XVI. Os primeiros mártires brasileiros foram membros da Igreja Reformada. A primeira confissão de fé escrita foi desenvolvida por membros da Igreja Reformada. A primeira igreja missionária no Brasil foi a Igreja Reformada. A primeira tradução da Bíblia para a nossa língua foi obra de um pastor reformado, e depois foi completada por seus colegas. A segunda vinda da igreja evangélica no Brasil foi por meio de igrejas que são descendentes da Igreja Reformada continental.

À luz destes fatos, o que você vai responder quando alguém, que faz parte de uma igreja que apareceu apenas 100 anos atrás, lhe disser que as Igrejas Reformadas são uma seita nova?
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Por Rev. Kenneth Wieske Ministro da Palavra e dos Sacramentos da Canadian Reformed Church em Surrey na Colúmbia Britânica, Canadá. Atualmente o Rev. Kenneth desempenha o trabalho missionário junto com a Igreja Reformada no Grande Recife e faz parte da CLIRE.

Porque não devemos celebrar o dia de Finados?

ORIGEM E SIGNIFICADO
O dia de finados foi instituído no século X por Santo Odílio, abade beneditino de Cluny, na França, para os mosteiros de sua ordem especificamente, até que a igreja católica universalizou a data.
Conforme o Monsenhor Arnaldo Beltrami, o dia de finados é o dia da celebração da vida eterna das pessoas queridas que já faleceram. É o dia do amor, porque amar é sentir que o outro não morrerá jamais. Para Beltrami, finados é a celebração da vida eterna que não vai terminar nunca, pois a vida cristã é o viver em comunhão íntima com Deus, agora e para sempre.
De acordo com a doutrina romanista, no dia de finados, os católicos não festejam a morte, mas a certeza da ressurreição. Em cada sepultura vê-se a imagem da páscoa cristã e a promessa da vida eterna, como vontade e desejo de Deus.
Desde o século I, os cristãos (católicos) rezam pelos falecidos. Visitavam os túmulos dos mártires nas catacumbas para rezar pelos que morreram sem martírio. No século IV, já encontramos a memória dos mortos na celebração da missa. Desde o século V, a igreja dedica um dia por ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém se lembrava, até que no século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVIII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia por ano pelos mortos.
A partir do século XIII, esse dia anual por todos os mortos passou a ser comemorado no dia 2 de novembro, porque no dia 1º de novembro se realiza a festa de todos os santos. O dia de todos os santos celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados. O dia de finados celebra todos os que morreram e não são lembrados na oração do dia de todos os santos, devendo-se acender uma vela no cemitério para simbolizar a vida eterna do falecido.
Para os católicos, dizer que quando uma pessoa morre acabou não é verdade. Crêem que o testemunho de vida daquele que morreu fica como luz acesa no coração de quem continua a peregrinação. Esse é um dos significados da vela que se acendem nos cemitérios: a luz do irmão não se apagou. A luz da fé reacende a chama dos corações. No dia de finados, ao acenderem velas, os católicos buscam para si a iluminação interior que, sabemos pala Palavra de Deus, só é encontrada em Cristo Jesus, João 12:46.
REFUTAÇÃO BÍBLICA
Por essas considerações doutrinárias e informações históricas, creio que os verdadeiros cristãos não devem celebrar o dia de finados. Não há certeza de ressurreição sem Cristo e não há possibilidade de vida eterna sem que haja fé salvadora no coração enquanto vivos, João 3:16; João 11:25-26.
A Bíblia é clara ao asseverar que após a morte só nos resta o juízo de Deus, Hebreus 9:27; Mateus 25:31-46, alertando para o fato de toda e qualquer decisão por Cristo deve ser tomada em vida. Não há base bíblica para se orar, rezar ou se penitenciar pelos mortos, mas sim um mandamento imperativo de Jesus para se proclamar o evangelho para os vivos, Mateus 28:19-20.
É verdade que o amor pelos entes queridos não cessa com a morte da mesma forma que é verdadeiro o fato de que o testemunho daqueles que morreram também não cessa com o sepultamento, Hebreus 11:4. Porém, acreditar que os mortos estejam na sepultura, no purgatório ou no limbo aguardando uma segunda oportunidade para a salvação é prova de total desconhecimento da Palavra de Deus. Infelizmente este engodo é fomentado pelo romanismo, bem como por alguns seguimentos ditos evangélicos, mas devemos rejeitá-lo com veemência bíblica.
A Palavra de Deus assevera que a salvação é alcançada a partir do arrependimento, conjugado a fé incondicional em Jesus, Atos 3:19; Romanos 3:21-26, razão pela qual devemos compreender e aceitar a dura realidade da perdição eterna daqueles que amamos, mas que morreram sem Cristo. Se não proclamamos ou se não testemunhamos de Jesus durante a vida de nossos estes queridos, não adianta chorar ou se penitenciar e nem mesmo acender velas ou reformar sepulturas, no dia de finados. Não deixemos escapar as oportunidades de tentar conduzir nossos familiares a Jesus enquanto vivos, para que o sangue destes jamais esteja em nossas mãos (Ezequiel 3:20).
Amados irmãos e irmãs, não devemos celebrar o dia de finados, mas sim proclamar vida que Jesus deseja oferecer aos nossos entes queridos a partir do nosso testemunho e da pregação do evangelho verdadeiro que vivenciamos em nosso cotidiano.
Assim como Jesus asseverou que cabe aos mortos cuidar e sepultar os seus mortos, Lucas 9:59-60, devemos transformar todos os nossos dias em dias de vida em Jesus. Assim sendo, pela fé e motivados pelo nosso testemunho, nossos familiares e amigos encontrarão vida em Jesus.

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por Pr. Fernando Fernandes
Pastor da 1ª Igreja Batista em Penápolis/ SP, e professor no Seminário Teológico Batista de São Paulo

domingo, 1 de novembro de 2015

Deus emprega de modo justo agentes ímpios


Uma dificuldade maior é-nos apresentada por aquelas passagens das Escrituras onde se diz que o próprio Satanás e todos os ímpios são controlados e dirigidos pela vontade de Deus. Pois a mente natural dificilmente pode compreender como Deus pode operar pela instrumentalidade deles, e ainda permanecer livre de toda a culpa e lavrar uma sentença justa contra Seus próprios agentes. Para enfrentar esta dificuldade, alguns inventaram uma distinção entre aquilo que Deus faz e aquilo que Ele permite. Mas isso, embora seja bem intencionado, é uma tentativa para vindicar a honra de Deus por meio de uma teoria falsa; porque Ele mesmo repudia tal defesa ao dizer claramente que faz as coisas referidas. Inúmeras passagens das Escrituras comprovam claramente que os homens não realizam nada senão de acordo com o decreto sigiloso de Deus.

Quando o salmista diz: "No céu está o nosso Deus; e tudo faz como lhe agrada" (Sl 115:3), fica evidente que isto inclui todas as ações dos homens; e esta verdade é vista mais claramente em ocorrências especiais. Sabemos pelo livro de Jó que Satanás se apresenta diante de Deus para receber ordens tanto quanto os santos anjos que obedecem de boa vontade. Logo, quando Satanás e os sabeus afligiram e roubaram a Jó, ele reconheceu que a mão de Deus o fizera, e disse: "O Senhor o deu, e o Senhor o tomou." Da mesma maneira, quando foi da vontade de Deus que Acabe fosse enganado, "Então saiu um espírito e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu o enganarei." Disse o Senhor: "Tu o enganarás, e ainda prevalecerás; sai, e faze-o assim." Se a cegueira e a estultícia de Acabe lhe sobrevieram como julgamento da parte de Deus, a teoria de uma simples permissão é vã; porque seria absurdo para um juiz meramente permitir a execução de uma sentença, e não decretar que fosse executada.

E mais: era o propósito dos judeus destruir a Cristo; Pilatos e os soldados cumpriram seus desejos furiosos, mas os discípulos confessaram na linguagem solene da oração que os ímpios fizeram somente o que a mão de Deus e o Seu propósito predeterminaram (At 4:27-28). Eu poderia aduzir muitos outros exemplos de outras partes das Escrituras.

Aquilo que Salomão diz a respeito do coração do rei, isto é, que está na mão do Senhor que o dirige para onde quiser, é igualmente verdadeiro acerca dos corações de todos os homens. Até os conceitos de nossas mentes são dirigidos pelo poder sigiloso de Deus para cumprir Seus propósitos. Nada pode comprovar isto mais claramente do que o fato de que Deus tão frequentemente nos diz que cega as mentes dos homens, aflige-os com delírio, derrama sobre eles o espírito do sono, fere-os com loucura, endurece seus corações. (Ver Rm 1:26 e 11:8). Muitos, conforme dissemos, atribuem todas estas declarações à "vontade permissiva de Deus" mas esta solução não me parece sábia, visto que o Espírito Santo expressamente declara que a cegueira e a loucura são infligidas sobre os ímpios pelo reto juízo de Deus.

Até este ponto tenho apenas exposto o que é aberta e claramente ensinado nas Escrituras; portanto considerem que tipo de censura tomam sobre si todos aqueles que estigmatizam os oráculos sagrados com difamação. Se disserem, "Tais coisas estão além do nosso conhecimento, e queremos crédito pela nossa modéstia em deixá-las como estão", eu respondo: "O que pode ser mais arrogante do que falar uma única sílaba contra a autoridade de Deus, e dizer: "Eu penso de modo diferente", ou "É melhor não tocar em tais doutrinas?" Semelhante arrogância não é novidade; pois em todos os tempos houveram homens ímpios, sem Deus, que têm atacado esta verdade como cães furiosos. Tais insolentes descobrirão que as palavras de Davi são verídicas, que Deus "será tido por justo... no seu julgar" (Sl 51:4).

Tem-se argumentado que, se nada acontece senão segundo a vontade de Deus, então Ele deve ter duas vontades contrárias, pois secretamente decreta o que na Sua lei abertamente proíbe. É fácil desmascarar esta falácia, mas antes de fazer isso, deixem-me lembrar aos meus leitores que se trata de uma cavilação contra o Espírito Santo e não contra mim; pois o Espírito Santo certamente ensinou a Jó a dizer: "O Senhor o tomou", quando salteadores o despojaram dos seus bens. Está escrito também que os filhos de Eli não obedeciam a seu pai, porque o Senhor resolvera matá-los (1Sm 2:25). Assim também, em tempos posteriores, a Igreja diz que Herodes e Pilatos conspiraram juntos para fazerem o que a mão de Deus e o Seu propósito predeterminaram (At 4:27-28). Realmente, se Cristo não tivesse sido crucificado pelo desígnio de Deus, como poderíamos ter obtido a redenção?

O fato é que Deus não está em desacordo com Si mesmo, nem sofre mudança Sua vontade, nem finge que não deseja as coisas que deseja. Sua vontade é una e indivisa, mas parece-nos, por causa da fraqueza do nosso entendimento, que está em desacordo com ela mesma. Sobre este assunto Agostinho tem uma declaração com a qual todas as pessoas piedosas concordarão: "Alguns homens têm bons desejos que não estão de acordo com a vontade de Deus, e outros têm maus desejos que estão de acordo com a vontade de Deus. Por exemplo, um bom filho pode corretamente desejar que seu pai viva, ao passo que é a vontade de Deus que morra; e um mau filho pode maldosamente desejar que seu pai morra, quando é também a vontade de Deus que o pai morra. E mesmo assim, o filho piedoso agrada a Deus ao desejar aquilo que não é da vontade de Deus; enquanto o filho ímpio desagrada a Deus ao desejar aquilo que é da vontade de Deus." 

Deus às vezes cumpre Seus propósitos justos mediante os maus propósitos dos ímpios. O mesmo escritor (Agostinho) diz que os anjos apóstatas e todos os ímpios, no que lhes dizia respeito, fizeram aquilo que era contrário à vontade de Deus; mas, quanto à Sua onipotência, era impossível para eles fazerem qualquer coisa contra a Sua vontade; pois, enquanto agem em oposição à vontade de Deus, ela é cumprida por eles. Acrescenta que um Deus bom não permitiria que o mal fosse feito, a não ser que um Deus onipotente pudesse transformá-lo em bem.

Uma resposta semelhante pode ser dada a outra objeção que tem sido feita contra a verdade que agora estamos considerando. A objeção é a seguinte: Se Deus não somente emprega a instrumentalidade dos ímpios, como também governa seus planos e paixões, porventura não seria Ele o autor de todos os seus crimes? E quanto aos homens que estão sujeitos à Sua vontade, não estariam injustamente condenados por cumprirem Seus decretos? Este falso raciocínio confunde a vontade de Deus com Seu mandamento, embora fique evidente por muitos exemplos que há uma diferença muito grande entre eles. Foi a vontade de Deus que o adultério de Davi fosse vingado pela imoralidade de Absalão (com as concubinas do seu pai); mas não se segue que Deus ordenou a Absalão cometer tal ato incestuoso; a não ser que possamos falar assim a respeito de Davi, da mesma maneira que ele fala das maldições de Simei. Quando o rei disse: "Deixai-o, que amaldiçoe, pois o Senhor lhe ordenou" (2Sm 16:11), de modo algum recomendava Simei por sua obediência a Deus; mas, reconhecendo que a língua maligna daquele homem era o flagelo de Deus, submeteu-se pacientemente a ser castigado por ela. Devemos apegar-nos firmemente ao princípio de que os ímpios, por cujo intermédio Deus realiza os Seus justos julgamentos e decretos, não devem ser considerados inculpáveis como se tivessem obedecido ao Seu mandamento, mandamento este que atrevida e deliberadamente quebram.

É sábio abraçarmos com mansidão e humildade tudo quanto é ensinado nas Sagradas Escrituras. Aqueles que têm a insolência de difamar suas doutrinas soltam suas línguas contra Deus e não são dignos de mais refutação.



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Por João Calvino
Fonte: CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. Vol. 1, Cap. XVIII. São Paulo: Cultura Cristã, 2006

Dia de Finados - É bíblico celebrá-lo?


O "Dia de Finados" é um dia santo para os católicos romanos, onde eles fazem homenagens aos seus mortos e, através de "rezas", eles creem que almas podem ser libertas de suas penas temporais no purgatório.

O catecismo católico afirma: "Uma vez que os fiéis defuntos, em vias de purificação, também são membros da mesma comunhão dos santos, nós podemos ajudá-los, entre outros modos, obtendo para eles indulgências, de modo que sejam libertos das penas temporais devidas por seus pecados".

Esta celebração tem as suas origens numa prática começada por Odilio (962-1049), monge e abade do mosteiro de Cluny em 994. Os monges de Cluny faziam preces especiais e cantavam salmos pelos defuntos no dia imediato ao Dia de Todos os Santos. Depois disso, a ICAR oficializou a data.

Desde o séc. I, os cristãos visitavam as tumbas para rezar pelos falecidos que morreram sem martírio. No séc. IV, já encontramos a memória dos mortos na celebração da missa. Desde o séc. V, a ICAR dedica um dia por ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém se lembrava, até que no séc. XI os Papas Silvestre II (1009), João XVIII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia por ano pelos mortos.

O católico crê que as almas do Purgatório estão já no caminho certo para o céu, assim, com as sus orações, eles podem abreviar o seu tempo de espera e de purificação. Esta prática de reservar um dia especial e oficial para sufragar as almas do purgatório tornou-se popular e divulgou-se por muitas comunidades católicas da Europa e das Américas.

A partir do séc. XIII, esse dia anual por todos os mortos passou a ser comemorado no dia 2 de novembro, já que no dia 1º se realiza a festa de todos os santos, que celebra os que morreram em estado de graça e não foram canonizados. O dia de finados celebra todos os que morreram e não são lembrados na oração do dia de todos os santos, devendo-se acender uma vela no cemitério para simbolizar a vida eterna do falecido. 

Os católicos creem que o testemunho de vida daquele que morreu fica como luz acesa no coração de quem continua a peregrinação. Esse é um dos significados da vela que se acendem nos cemitérios: A luz do irmão não se apagou. A luz da fé reacende a chama dos corações. No dia de finados, ao acenderem velas, os católicos buscam para si a iluminação interior que, sabemos pala Palavra de Deus, só é encontrada em Cristo Jesus (João 12.46).

Cemitério enfeitado com flores e iluminado por velas

Diante dessas considerações doutrinárias e informações históricas, pode-se concluir que os verdadeiros cristãos não devem celebrar o dia de finados. Não há certeza de ressurreição sem Cristo e não há possibilidade de vida eterna sem que haja fé salvadora no coração enquanto vivos (conf. João 3.16; 11.25,26). 

A Bíblia afirma que após a morte só nos resta o juízo de Deus (Hebreus 9.27; Mateus 25.31-46), alertando para o fato de toda e qualquer decisão por Cristo deve ser tomada em vida. Não há base bíblica para se orar, rezar ou se penitenciar pelos mortos, mas sim um mandamento imperativo de Jesus para se proclamar o Evangelho para os vivos (Mateus 28.19,20). Além disso, a fé em Cristo vem mediante o ouvir a pregação do Evangelho (Romanos 10.17) e, para ouvir, é preciso estar vivo. Não existe nas Escrituras, nada que nos leve a crer que as almas dos mortos estejam sofrendo penas temporais no chamado purgatório, aguardando uma 2ª oportunidade para a salvação.

O apóstolo João declarou em Apocalipse 14.13 que bem-aventurados são os mortos que descansaram no Senhor, ou seja, aqueles que durante sua vida, tomaram a decisão por aceitar o plano da salvação. A felicidade é creditada pelo fato de que um dia Deus devolverá a vida a estas pessoas mediante a ressurreição (1Coríntios 15). 

As Escrituras afirmam que a salvação é concedida pela graça de Deus a partir do arrependimento dos pecados e da fé somente em Jesus Cristo (Atos 3.19; Romanos 3.21-26). Dessa forma, o crente deve compreender e aceitar a dura realidade da perdição eterna daqueles que amamos, mas que morreram sem Cristo. Se não pregamos a Palavra ou se não testemunhamos de Jesus durante a vida de nossos entes queridos, não adianta chorar ou se penitenciar e nem mesmo acender velas em sua memória. 

O melhor que podemos fazer pelas pessoas em geral, é testemunhar de Cristo para elas enquanto em vida, porque depois da morte, apenas o juízo final nos espera. As Escrituras afirmam que os mortos não louvam ao Senhor (Salmos 115.17), não sabem de cousa alguma e nada podem fazer (Eclesiastes 9.5,6,10), portanto, todo nosso esforço deve ser o de levar a mensagem de Cristo aqui e agora.


Medite nisso!
________________________________por 
Fonte: Pensamento Quase Livre


Dupla predestinação, o barro "decaído" e a arbitrariedade de Deus!



Por Jorge Fernandes



A partir do livro Eleitos de Deus, de R. C. Sproul, farei algumas considerações sobre a sua abordagem relacionada à dupla predestinação, o barro "decaído" e a arbitrariedade de Deus. Boa parte desses argumentos podem ser lidos nos meus comentários ao livro, disponíveis aqui.

Ressalto ainda que o meu intento não é o de polemizar pelo gosto da polêmica, mas revelar os meus pensamentos e fazer com que tanto eu como o leitor pensemos a partir do próprio texto bíblico. Não estou a sugerir nenhuma "saída" das Escrituras, nem uma tentativa estúpida de explicar algo inexplicável. Ao meu ver, o que tem feito os crentes permanecerem vulneráveis ao mundo e a si mesmos (em suas pressuposições) é exatamente o medo de ver na Bíblia aquilo que ali está revelado. Sem fazer-me dono da verdade ou especulador, nem exaustivo no que me proponho: uma reflexão a partir de considerações escriturísticas; e que pode levar muitos ao estudo sério de algumas questões que nem mesmo cogitamos pensar. O que acabará por nos tornar em replicantes de um esquema intruso à Bíblia, reverberando o deleite que o homem tem de ouvir sua própria voz. Então, sem mais delongas, mãos-à-obra!

Na questão da dupla predestinação, ainda que Sproul tente amenizar a eleição dos réprobos, ao dizer simplesmente que Deus escolheu os eleitos e deixou de lado ou à própria sorte os réprobos, não neutraliza a ideia do favor divino, da Sua escolha para a salvação dos eleitos; e o desfavor, mas ainda assim uma escolha, para com os ímpios.

Da mesma forma, dizer que Deus não endurece efetivamente o coração ímpio, mas retira a restrição do pecado sobre eles, deixando-os livres para pecar, é muito simplória e faz o malabarista derrubar todos os pratos no chão e estatelar-se sobre eles, além de não haver respaldo bíblico para essa conjectura.

Usar termos como "endurecimento passivo", "entregá-los ao pecado", "decreto positivo e negativo","destinação não simultânea", etc, não exclui de Deus o desejo de que seus corações sejam endurecidos, os pecadores se voltem mais e mais ao pecado, e de que destinando alguns para a salvação, estará destinando os demais para a condenação. É fato que Deus não os quis salvar; é fato que Ele quis condená-los. Então, por que a necessidade de se tentar "aliviar" Deus quando Ele claramente diz o que fez e porquê fez? Não seria uma forma de subestimá-lo, e de até mesmo considerá-lo imperfeito, necessitando que o adequemos aos nossos defeitos para assegurar-lhe a perfeição? Isso cheira mal, algo muito próximo da rebeldia ou, na melhor das hipóteses, ignorância disfarçada de piedade. Em muitos casos é não querer aceitá-lo como é; em outros é a incapacidade de vê-lo como se revelou a Si mesmo.

Sproul chegou ao ponto de utilizar a passagem de Êxodo 7.2-5 (quando Deus afirmou a Moisés que endureceria o coração do Faraó) como um exemplo de endurecimento passivo, onde Deus não interviu diretamente no coração do Faraó, mas ao remover a sua restrição sobre ele, deixou que "as inclinações malignas de Faraó fizessem o restante"1. Ao que pergunto: se isso não é o mais escancarado malabarismo argumentativo a fim de tirar de Deus o poder de mover a vontade do Faraó a fim de que se cumprissem exatamente os Seus desígnios, o que mais pode ser? De certa forma, não passa de uma tentativa ilusória para transformar o irreal em verdade através de hábeis jogos semânticos.

Passiva ou ativamente, o Faraó não cumpriu o decreto divino? Tal qual ele foi estabelecido na eternidade? E, ainda que passivamente (especulativo), estaria-se a dizer que Deus obteve o resultado desejado sem querer produzi-lo? E se Ele não quis produzi-lo, quem o produziu? Nós? Há uma nítida inversão de papéis e de valores; sempre como uma justificativa para eximi-lo de suposta culpa, o que redundará em uma tentativa, mesmo inconsciente, de desprezá-lo e a Sua santidade, sabedoria e perfeição.

Da mesma forma, ao referir-se a Romanos 9, Sproul diz: "Soa como se Deus estivesse ativamente fazendo pessoas ser pecadoras. Mas isso não é requerido pelo texto... veremos que o barro com o qual o oleiro trabalha é barro 'decaído'. Um pouco de barro recebe misericórdia para tornar-se vaso de honra. Essa misericórdia pressupõe um vaso que já está culpado. Da mesma maneira, Deus precisa 'tolerar' os vasos de ira, próprios para a destruição, pois eles são vasos de ira, culpados"2.

Não sei quanto a você, mas me parece outro contorcionismo desnecessário para não concluir o que o texto bíblico evidentemente afirma: Deus é quem FAZ os vasos de honra e os vasos de ira, lançando "as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou" (v.23); assim como a "sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" (v.22).

Quem preparou? Quem destinou? Quem é o oleiro? Ou seja, quem fez os vasos destinando-os a ser o que são? Se não foi Deus, quem foi? Outro deus? Satanás? O homem? Mas se mesmo o mal, e apenas o mal e o pecado, não foi criado e ordenado à existência pelo Senhor, Ele não é soberano, e estamos de alguma forma enganados ou sendo enganados. Se como a Bíblia assegura que não há outro deus além do Senhor, e de que Ele é o criador de todas as coisas, por que ainda resistimos? Por que não nos sujeitamos às evidências internas das Escrituras? Certamente porque os nossos conceitos e argumentos não se encontram em unidade e harmonia com essas manifestações certeiras; os quais penetram sorrateiramente pela porta dos fundos, como se fizessem parte da revelação proposicional quando não passam de parasitas a provocar a verdade, no exercício de induzir o crente a uma aventura desastrosa, a culminar numa imagem distorcida de Deus.

O barro não existia previamente antes de Deus fazê-lo existir. O barro "decaído" não decaiu alheio à vontade de Deus, à sua revelia, por vontade própria. O barro "decaído" não foi auto-criado, ou criado por outra "força". O barro "decaído" surgiu pelo poder e vontade de Deus, e apenas por Ele poderia existir. O mesmo poder que destinou alguns para a glória e outros para a perdição. Ou seria possível ao homem escolher a forma como Deus o faria? E de como seria? Por exemplo, a cor dos olhos, cabelos ou pele? E o que dizer de coisas como o estado pecaminoso e o redentivo? Afinal, qual poder temos sobre nós mesmos? E a história? E a eternidade?

Fico com a impressão de que o autor quer ao mesmo tempo dizer e não dizer o que diz. E suas atenuações acabam por enfraquecer e confundir o conceito de soberania, predestinação e eleição divinas.

Isso é manipulação teológica, com todo o respeito e admiração que o Dr. Sproul merece. Bastaria ater-se ao texto bíblico, que é claro e límpido como água (especialmente os dois textos citados), sem a preocupação de imputar a Deus qualquer injustiça, pois, o menor pensamento de que isso seja possível somente poderá vir de uma mente doentia e caída; de uma mente não regenerada e carente da misericórdia divina. Nesses casos, vale a mesma resposta dada por Paulo: "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?" (Romanos 9.20).

Outra questão é a definição de arbitrário. Ele afirmou que Deus não é arbitrário, porque "por si só, ser arbitrário é fazer alguma coisa por nenhuma razão"3. Bem, acho que esse conceito do autor, demonstra o seu nível de excentricidade, ou seria arbitrariedade?

A palavra arbitrário designa alguém que decide como árbitro, que não é regulado por leis, mas só depende da sua vontade. Nesse sentido, Deus é completamente arbitrário. Há algo igual ou superior a Ele, ao qual esteja condicionado? Deus faz exatamente tudo aquilo que quer, como quer e da maneira que quer, segundo a Sua perfeição, santidade e justiça. E quem somos nós para questioná-lo? Ou para moldá-lo a um padrão humano?

Não nascemos por nossa vontade, nem escolhemos o país, os pais, sexo ou nível de inteligência que gostaríamos de ter. Nascemos pecadores sem desejar sê-lo; somos eleitos sem querer sê-lo; e muitos irão para o inferno sem querer ir. Essas coisas todas aconteceram e acontecerão à nossa revelia, pela arbitrária vontade divina. Então, considero Deus arbitrário no sentido de que tudo no universo acontecerá segundo o seu arbítrio, sem nenhuma consulta prévia, sem nem mesmo Ele se preocupar se Suas decisões me agradarão ou não. E, por quê? Porque Ele é santo, justo, perfeito, sábio, Todo-Poderoso. E porque somos pecadores, injustos, imperfeitos e tolos, criaturas metidas a besta, julgando ter algum poder quando não temos nada, e o pouco que temos (o que é muito para a nossa condição) provém d'Ele, e é por Ele, para a Sua glória.

Descrever a vontade divina como não-imperativa, não-absoluta, em que o governo de Deus não depende exclusivamente de Si, nem é independente do universo governado é professar a maior heresia que o homem é capaz de produzir. Numa tentativa tola de diminuí-lo aos nossos olhos. Portanto, concluo que Deus é arbitrário, e não há como não ser. Em qualquer situação que se vá explicar a soberania divina, não há como não ligá-la à arbitrariedade. Senão não estaríamos falando de Deus, mas de deus, algo diminutivo, depreciativo, frágil como nós.

Nos aspectos citados, a despeito de muita coisa valorosa e pautada biblicamente que o Dr. Sproul diz e escreve, não posso concordar com suas afirmações. Elas me parecem com o marido desesperado, que ao encontrar a esposa em adultério no sofá da casa, joga fora o sofá.

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Notas: 
[1] - Eleitos de Deus - R. C. Sproul - Editora Cultura Cristã - página 109.
[2] - Idem - página 114.
[3] - Ibidem - página 116.


Por Jorge Fernandes

Leandro Quadros e a predestinação satânica



Leandro Quadros já disse João Calvino foi um"honesto, inteligente homem usado por Deus", aliás "um dos maiores reformadores que contribuíram de maneira significativa para o pensamento cristão". Quanto aos seus ensinos, que "não há motivo para considerá-lo herético". Sobre a origem da doutrina da predestinação, diz que "quando atribuí os cinco pontos da predestinação a João Calvino, quis deixar claro que os mesmos se originam na ideia dele". Agora, porém, ele conclui que "a predestinação calvinista é em si diabólica... é demoníaca e não faz parte da Bíblia".


Sua conclusão foi resposta a uma pessoa que perguntou "como analisaremos os versículos de Efésios 1:4-5 e Romanos 8:30, sobre a eleição e a predestinação?" (vídeo aqui, a pergunta está no tempo 50:00). Por alguma razão ele achou que ajudaria no entendimento das passagens atacar como diabólica uma doutrina atribui a um homem de Deus. Por ora, deixarei de lado a questão da origem satânica da predestinação e me limitarei a analisar a resposta que o professor deu e tentar apresentar uma resposta alternativa às duas passagens.

Tirando o ataque à "predestinação calvinista", após ler Ef 1:4-5 Leandro reconhece que "aqui fala que Deus, realmente, de antemão nos predestinou". Mas emenda: "Ele predestinou que todos, obviamente os que aceitassem a Cristo, fossem santos e repreensíveis em sua presença". Primeiro, de que parte do texto lido ele tirou"os que aceitassem a Cristo"? Ele empurrou isso para dentro do texto, não estava lá. Segundo, se Deus predestinou que somente os que aceitassem a Cristo seriam salvos, a conclusão lógica é que Ele não predestinou a todos, mas apenas a alguns. Usando suas palavras, “Deus foi com a cara” de quem Ele viu que iria aceitar a Jesus e os predestinou. E terceiro, isto contradiz o que ele afirma em outro lugar, que Deus predestinou a todas as pessoas para a salvação.

Então ele vai para Romanos 8:28-30, que ele considera “um resumo do plano de salvação”. Depois de ler o verso 29, ele diz que Deus “predestinou que os que aceitarem a Cristo sejam a imagem de Seu Filho”. Novamente, o elemento “aceitar a Cristo” é imposto ao texto, não extraído dele, pois todas as ações mencionadas ali são efetivadas por Deus. Depois, mais enfático diz que “Deus não predestina uma pessoa em si para ir para o céu ou para o inferno”. Ou seja, a passagem não tem caráter soteriológico. Mas ele não tinha dito que a passagem era “um resumo do plano de salvação”? Agora diz que tudo o que “Ele predestina é o tipo de caráter que a pessoa que vai para o céu precisa ter aqui na terra”. Diferentemente do que ele afirma, quem lê a passagem descobre não o que uma pessoa precisa fazer ou ter, mas o que Deus faz para e nas pessoas que Ele conheceu de antemão. Em resumo, a resposta do professor é confusa e inconsistente.

Respondendo ao consulente do Leandro Quadros, o que as duas passagens dizem exatamente sobre eleição e predestinação? Efésio 1:4 diz que Deus “nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele”. A voz média de “nos escolheu” indica que Deus nos escolheu por e para Ele mesmo, portanto, não traz a ideia de escolher baseado em algo visto no objeto da escolha. Para indica o propósito para o qual fomos escolhidos, não a causa de nossa escolha. “Sermos santos” significa que Deus nos “escolheu de todos os povos que há sobre a face da terra, para lhe serdes seu povo próprio” (Dt 14.2), como a Israel outrora. E “irrepreensíveis perante ele” significa que o eleito comparecerá “isento de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus” (1Ts 3.13). Noutras palavras, “antes da criação do mundo, Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da nossa união com Cristo, a fim de pertencermos somente a Deus e nos apresentarmos diante dele sem culpa” (Ef 1.4, NTLH). Se isto não é eleição para a salvação, não sei mais o que seja.

Paulo continua dizendo que “em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5). Predestinar significa “decidir de antemão”, “predeterminar”, “destinar antecipadamente”. O quando é "antes da fundação do mundo", referido no verso anterior. Os objetos da predestinação não são coisas, como a fé ou o caráter, mas pessoas: “nos predestinou". "Para Ele, para a adoção de filhos” indica o propósito, quer dizer que estamos de antemão destinados a nos tornar filhos de Deus. Isto se dá “por meio de Jesus Cristo”, que é o agente da adoção, pois "Deus enviou seu Filho... a fim de que recebêssemos a adoção de filhos" (Gl 4:4-5). E a predestinação para a vida foi “segundo o beneplácito de sua vontade”, ou seja, “porque assim foi do teu agrado” (Mt 11.26) e não por alguma razão em nós encontrada. Numa paráfrase moderna, “por causa do seu amor por nós, Deus já havia resolvido que nos tornaria seus filhos, por meio de Jesus Cristo, pois este era o seu prazer e a sua vontade” (Ef 1:5, NTLH). Com isto concluímos que o ensino de Efésios é que Deus nos escolheu e nos predestinou soberanamente para a salvação. Nada indica que seja menos que salvação, nem que ela se deva a alguma coisa prevista em nós.  

Romanos 8:30 diz e aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. Basta que notemos, aqui, que todos os verbos tem Deus como sujeito, e não o homem. Voltando ao verso anterior, temos que “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). Note, de início, que o que é conhecido de antemão são pessoas, e não o que essas pessoas tinham ou fariam. As mesmas pessoas conhecidas, são predestinadas, com o sentido que já demos para a palavra. "Para" indica que a predestinação é "segundo o seu propósito" (Rm 8:28) que é "serem conformes à imagem de seu Filho". Já vimos em Efésios que o propósito da predestinação é nos fazer filhos de Deus, aqui a ideia é ampliada para dizer que é nos fazer filhos de acordo com o molde, modelo ou imagem de Jesus. "A fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos", o primogênito é filho natural, os "muitos irmãos" por adoção, como explicado em Efésios.

O que expus sobre o que as duas passagens ensinam sobre eleição e predestinação é o que se pode chamar de "doutrina da predestinação calvinista". Claro que se for conveniente a alguém, ele pode caricaturizar à vontade essa doutrina, é a tal falácia do espantalho. Mas essencialmente, ela ensina que Deus nos escolheu para a salvação e que preordenou todos os meios que nos conduziriam à fé e nos preservaria até à glória. Segundo o professor Leandro, tal interpretação é "bem diferente da predestinação bíblica", mais que isso, é "diabólica e demoníaca". A despeito disso, é a interpretação que leva em conta o significado verdadeiro dos termos utilizados, que atenta para as construções sintáticas e que trabalha com o que encontra no texto, sem fazer inserções de conceitos humanos tais como "aceitar a Jesus".

Esta doutrina, posto que bíblica, é inaceitável ao homem natural. Até mesmo o nascido de novo, acostumado com o discurso humanista que coloca o homem como o ponto para o qual tudo converge, tem dificuldade em se ver como mero objeto da escolha divina, cuja existência é ser utilizado para glória Dele, sem participação decisiva nesse processo. A imagem do barro a mercê do Oleiro lhe é incômoda. Porém, é necessário afirmar o que o texto afirma, como afirma, sem artifícios que o tornem menos áspero a paladares delicados. Também para isso precisamos da graça de Deus. “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5).


Por Clóvis Gonçalves
Fonte: Cinco Solas

O problema do Mal



Ronald Nash escreveu que “o mais sério desafio ao teísmo foi, é e continuará sendo o problema do mal”.[1] Warren acredita que “parece não haver acusação mais frequente e forte ao teísmo de tradição judaico-cristã” que a complicação decorrente da existência do mal.[2] E David E. Trueblood sustenta com ousadia que o obstáculo representado pela existência do mal e do sofrimento no mundo é uma “evidência em favor do ateísmo”.[3] 

Os próprios autores bíblicos não fogem do tema da relação entre Deus e o mal. O profeta Habacuque queixou-se, Tu, que tens olhos tão puros que não podes ver o mal, nem contemplar a perversidade, por que olhas para os que procedem traiçoeiramente e te calas enquanto o ímpio destrói aquele que é mais justo do que ele?” (1:13). E Gideão perguntou, Ai, Senhor meu, se o Senhor é conosco, por que todo este [sofrimento] nos sobreveio?” (Juízes 6:13). 

Se, de acordo com a Bíblia, Deus, que é onipotente e bom, decretou desde toda a eternidade tudo o que vem a acontecer, e se Ele, soberana e providencialmente, controla todas as coisas, porque Ele não seria o autor do mal? Como pode o mal existir no mundo? Como justificar as ações de Deus na causação do mal, do sofrimento e da dor? Esta é a questão da “teodicéia”. Esta palavra, que supostamente foi elaborada pelo filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646-1716), derivou-se de duas palavras gregas (theos, Deus, e dike, justiça) e está relacionada com a justificação da bondade e correção de Deus em face ao mal no mundo. 

Como nós veremos, entretanto, o problema do mal não é um argumento tão corrosivo quanto parece. Na realidade, como Gordon Clark afirmou, “enquanto diversas outras doutrinas se desintegraram neste ponto, o sistema conhecido como calvinismo e expresso pela Confissão de Fé de Westminster oferece uma resposta satisfatória e completamente lógica”.[4] A resposta, como veremos, repousa no ponto de partida epistemológico do cristianismo: a Palavra de Deus. 

Através dos séculos, tem havido numerosas tentativas quase-cristãs de lidar com este assunto. Mary Baker Eddy, a fundadora da Igreja de Cristo Cientista, simplesmente negava que o mal existisse; ou seja, o mal é ilusório. Mais recentemente, E. S. Brightman e Rabi Harold Kushner optaram por um deus finito. Seu deus é limitado em poder ou inteligência; assim, não pode ser acusado pelo mal existente no mundo. O zoroastrismo e o maniqueísmo, por sua vez, apontam explicitamente para um princípio dualista no universo. O bem e o mal existem tanto co-eterna, como independentemente, na forma de divindades finitas. Nenhuma dessas divindades destruiu a outra até agora. Isto explicaria a mistura de bem e mal no nosso mundo. Leibniz argumentou de forma racionalista que Deus era moralmente obrigado a criar “o melhor dos mundos possíveis”. Assim, em que pese haver mal no mundo, Deus deve ter concluído que este era o melhor de todos os mundos possíveis.

Estas teorias, é claro, estão longe de ser uma teodicéia bíblica. A Bíblia deixa muito claro que o mal não é ilusório. O pecado é real; provocou a queda do homem e a maldição de Deus sobre todo o cosmos.[5] Também Deus não deve ser visto como menos que uma divindade onipotente e onisciente. Ele é o Criador ex nihilo do universo. Mais ainda, o fato de Deus ser o Criador e Sustentador de todas as coisas vai de encontro a qualquer forma de dualismo.[6] Deus não sofre nenhuma concorrência.

Leibniz também está errado. Ele fala da responsabilidade moral de Deus de criar o melhor dentre os mundos possíveis. Leibniz tem uma visão invertida. Deus não escolheu este mundo porque ele é o melhor; ao invés, ele é o melhor porque Deus o escolheu. As escolhas de Deus não são determinadas por nada ou ninguém fora dele mesmo. Calvino claramente entendeu este princípio quando ele escreveu: “Pois a vontade de Deus é de tal modo a regra máxima de retidão que aquilo que Ele deseja, pelo simples fato de que Ele o deseja, deve ser considerado correto. Quando, portanto, alguém quer saber a razão da vontade de Deus, está procurando uma coisa maior e mais elevada que a vontade de Deus, algo que não pode ser encontrado”.[7] 

Do mesmo modo, a visão de Leibniz também tende a eliminar a responsabilidade do homem pelo pecado ao representar o pecado por pouco mais do que um infortúnio que lhe sobreveio. Novamente, a Bíblia é muito clara ao declarar que o homem é responsável pelo seu pecado. Na oração de arrependimento de Davi, no Salmo 51, ele põe a culpa não em Deus, nem em sua mãe, nem em Adão, embora todos fossem elos na cadeia que levava às suas ações pecaminosas. Ao contrário, com sinceridade Davi põe a culpa no pecador: ele mesmo.

Agostinho, bispo de Hipona, também ponderou sobre a natureza do mal. Na sua Cidade de Deus, como em seus outros escritos, ele sustentava que desde que Deus criou todas as coisas “boas” (Gêneses 1:31), o mal não pode ter uma existência própria. O mal é a ausência do bem, como a escuridão é a ausência da luz. O mal, portanto, não é a presença positiva de alguma coisa. Desse modo, disse Agostinho, o mal não pode ser a causa eficiente do pecado; trata-se, sim, de uma causa deficiente na criatura. O mal, sendo a ausência do bem, ou a presença de um bem menor, é o resultado de a criatura se afastar dos mandamentos de Deus em direção a algo menos bom: a vontade da criatura. Aqui está a essência do mal: é a criatura, não Deus, o autor do pecado. Mas isto também não nos oferece uma solução. Como Clark escreveu, “causas deficientes, se as há, não explicam porque um Deus bom não abole o pecado e garante ao homem sempre escolher o bem mais elevado”.[8]

O arminianismo, como um sistema quase-cristão, também falha em nos dar a solução. Os teólogos arminianos atribuem a origem do mal ao livre arbítrio do homem, em vez de à vontade de Deus, estabelecendo um outro tipo de dualismo. Na sua liberdade, Adão escolheu pecar, à parte da vontade soberana de Deus. Adão tinha uma “liberdade de indiferença” em relação à vontade de Deus. Deus “apenas permitiu” que o homem pecasse. Esta visão, contudo, não resolve o problema. Clark explicou: “Apesar de a idéia de que Deus permite o mal, sem decretá-lo, parecer absolvê-lO da acusação de ser o autor do pecado, deve se ter cuidado tanto em relação à lógica do argumento, como em relação ao conteúdo das Escrituras. Deus permitiu Satã afligir Jó, mas, uma vez que Satã não poderia ter agido sem a Sua aprovação, a idéia de permissão dificilmente exonera Deus. Afinal, a santidade perfeita é mais compatível com a aprovação ou a permissão do mal satânico? Se Deus pudesse ter evitado, não apenas a provação de Jó, mas todos os outros pecados e tentações a que a humanidade está sujeita – e, ao contrário, Ele os previu e decidiu deixá-los ocorrer – seria Ele menos repreensível [nesta perspectiva] do que se positivamente os decretasse? Se um homem pudesse salvar um bebê de uma casa em chamas, mas decidisse permitir que o bebê morresse queimado, quem se atreveria a dizer que ele fora moralmente perfeito na sua decisão?”.[9]

Um conceito tão pouco cristão de permissão e livre arbítrio não pode coexistir com o atributo da onipotência. Nem o ponto de vista arminiano sobre o livre arbítrio é compatível com a onisciência de Deus, uma vez que onisciência resulta num futuro fixo. Se Deus prevê todas as coisas, então necessariamente elas ocorrerão; de outro modo, elas não poderiam ser “previstas”. Deus previu e até mesmo preordenou a crucificação de Seu Filho pelas mãos de pecadores. Os homens que levaram a cabo o ato são responsáveis pelos seus pecados (Atos 2:22-23; 4:27-28). Poderiam eles ter agido de modo diferente? Poderia Judas Iscariotes não ter traído Jesus Cristo? Perguntar estas questões é respondê-las. 

A teologia cristã não nega que Adão (como aliás, todos os homens após ele) tenha tido “livre arbítrio” enquanto “agente moral livre”. Homens não são rochas nem máquinas. Todos os homens pensam e escolhem (neste sentido do termo); de outro modo, não poderiam agir. Os homens escolhem o que querem pensar e fazer; na realidade, eles não podem fazer mais que escolher. O que a teologia cristã faz é negar que o homem tenha a “liberdade de indiferença”. Sua capacidade de escolher está sempre governada por fatores, como o seu intelecto, os seus hábitos e assim por diante. Todas as suas escolhas são determinadas pelos decretos eternos de Deus.

Isto não é apenas verdade em relação ao homem pós-Queda, como também em relação ao Adão anterior a Gênesis 3. A maior diferença é que o homem pós-Queda, apesar de permanecer um agente moral, perdeu o que Adão possuía originalmente: a capacidade de escolher o que Deus requer. O homem caído, no seu estado de total depravação, sempre escolhe aquilo que deseja, mas sua mente pecaminosa e em revolta contra Deus determina que ele sempre escolha o mal (Rm 3:9-18; 8:7-8; Ef 4:17-19). A capacidade de escolher o bem só é restaurada através da regeneração.

Assim, o homem nunca se encontra indiferente na sua vontade de fazer alguma coisa. Deus determinou todas as coisas que venham a ocorrer. A soberania de Deus não mina, mas, ao invés, estabelece a responsabilidade do homem. A Confissão de Fé de Westminster (3:1, 5:2, 4), afirma com razão que:

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo conselho sábio e santo de Sua própria vontade, livre e imutavelmente, ordenou tudo o que venha a ocorrer: ainda assim, nem Deus é o autor do pecado, nem a vontade das criaturas é violentada, nem a liberdade ou contingência das causas secundárias deixa de existir, sendo, ao invés, estabelecida. Apesar de que, pela presciência e pelo decreto de Deus – a primeira causa –, todas as coisas venham a ocorrer de modo imutável e infalível; ainda assim, pela mesma providência, Ele ordena que elas aconteçam de acordo com a natureza das causas secundárias, seja de modo obrigatório, ou livre, ou contingencial. O poder ilimitado, a sabedoria insondável e a bondade infinita de Deus, manifestam-se na Sua providência, que inclui até mesmo a primeira Queda e todos os outros pecados de anjos e homens, não como uma simples permissão, mas de modo tal que reúne a sabedoria e o poder limitante de Deus, que os ordena e governa para os Seus objetivos sagrados; e ainda assim, a pecaminosidade do ato procede apenas da criatura e não de Deus, que, sendo o mais santo e justo, nem é nem pode ser o autor ou aprovador do pecado.”

Deus, afirma a Confissão, é a causa soberana primeira de todas as coisas, muitas das quais ocorrem através das ações livres dos homens. O fim decretado por Deus nunca deve ser separado dos meios que Ele também decretou como causas secundárias. Deus, escreveu Clark, “não dispõe as coisas nem controla a história à parte das causas secundárias... Deus não decreta [o fim] sem os meios. Ele decreta que o fim deve realizar-se através dos meios”.[10]

Esta é a explicação, de acordo com a Confissão, para Deus não ser considerado “o autor ou aprovador do pecado”. Deus é a causa soberana primeira do pecado, mas não é o seu autor. Apenas as criaturas podem cometer e de fato cometem pecado. Esta visão, ensinada pela Confissão de Westminster, é o conceito calvinista de determinismo. A palavra determinismo geralmente carrega uma conotação ruim, mas não deveria ser assim. Determinismo expressa uma visão de Deus bastante bíblica e elevada, além de oferecer a única teodicéia plausível. Deus determina ou decreta cada acontecimento da história e cada ação de suas criaturas, inclusive o homem.

Mais ainda, o que Deus decreta é certo, simplesmente porque Deus decreta; Deus não comete erros. Deus, afirma as Escrituras, não se justifica perante ninguém: “Ele não presta contas de Seus atos” (Jó 33:13). Ele é o legislador (Is 33:22); o homem está sob a lei. Deus não tem que se explicar com ninguém; Ele é ex lex (“acima da lei”), enquanto o homem está sub lego (“debaixo da lei”). Os Dez Mandamentos são obrigação para o homem, não para Deus. A única precondição para a responsabilidade é que um legislador – neste caso, Deus. Desse modo, o homem é necessariamente responsável pelo seu pecado, porque Deus o tem como responsável; o que Deus faz, é justo por definição, e Deus encontra-se completamente livre da acusação de ser o autor do pecado.

O determinismo expresso nos enunciados da Confissão de Westminster não é o mesmo que fatalismo ou behaviorismo (comportamentalismo). No fatalismo, deus, ou os deuses, ou o destino, determinam alguns, se não todos os resultados, aparentemente sem relação com os meios. No behaviorismo, as ações do homem são determinadas não por Deus, mas pela química no cérebro e nos músculos. 

Alguém poderá objetar: “Assassinar não é pecado e contra a vontade de Deus? Então, como pode Deus desejar isto?” A resposta está em Deuterononômio 29:29: As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que observemos todas as palavras desta lei.” Aqui, Moisés distingue entre a vontade decretiva de Deus (“coisas encobertas”) e Sua vontade normativa (“as coisas reveladas”). A vontade decretiva (os decretos de Deus) determina o que vai acontecer; a vontade normativa (os mandamentos de Deus) é a lei que os homens são obrigados a obedecer. A vontade decretiva está, em sua maior parte, escondida na mente de Deus; não cabe ao homem conhecê-la, a não ser que Deus a revele. A vontade normativa, por sua vez, encontra-se inteiramente revelada nas Escrituras. Trata-se da vontade de Deus para o homem, segundo a qual ele deve viver. Assim sendo, cabe a nós e a nossos filhos conhecê-la e obedecê-la. Na realidade, a palavra vontade é ambígua, sendo preferível falar de mandamentos e decretos de Deus. O homem é considerado responsável pela sua desobediência aos mandamentos de Deus, e não aos decretos de Deus. O homem não pode desobedecer aos decretos de Deus, uma vez que Deus é soberano. No exemplo já citado, Deus decretou, desde toda a eternidade, a crucificação de Cristo, e, ainda assim, quando levada a cabo pelas mãos de pecadores, ela foi contrária à lei moral, isto é, aos mandamentos de Deus.

Assim, sentados sobre a “fundação de rocha” que é a Palavra de Deus, o nosso ponto de partida axiomático (Mt 7:24-25), nós temos uma resposta ao problema do mal. Deus, que é totalmente santo e perfeito, soberanamente decreta que o mal ocorra para os Seus próprios bons propósitos (Is 45:7). Apenas porque Ele decretou, Sua ação é correta. Como observou Jerome Zanchius:


“A vontade de Deus é de tal modo a causa de todas as coisas, quanto ela própria não tem causa, uma vez que não há nada que possa ser a causa daquilo que causa todas as coisas. Assim, nós encontramos todo assunto resolvido, em última instância, na simples satisfação soberana de Deus. Ele não tem outro motivo para aquilo que faz, além da ‘ipsa voluntas’ , Sua mera vontade – vontade esta tão longe de ser injusta, quanto ela é a própria justiça”.[11]

O pecado e o mal existem, portanto, por boas razões: Deus os decretou como parte do Seu plano eterno e eles ocorrem não apenas para a Sua própria glória, mas também para o bem do Seu povo. Com essa premissa bíblica na mente, é fácil responder a anti-teístas, tais como David Hume, que argumentam que a presença do mal no mundo milita contra a existência do Deus cristão. Hume, por exemplo, argumenta do seguinte modo:

      1. Um deus bom evitaria a ocorrência de todo o mal.
      2. Um deus onisciente e onipotente pode evitar todo o mal
      3. O mal existe no mundo
      4. Assim, ou Deus não é bom, ou não é onisciente, ou não é onipotente.[12]

Um dos problemas com o argumento de Hume é o seu ponto de partida. Sua primeira premissa é falsa. Assumindo, para o bem do argumento, que Hume possa definir coerentemente “bem”, “mal” e “bom”, não se segue que um deus bom prevenirá todo o mal de ocorrer. Hume assume que um deus bom é bom para todas as suas criaturas, mas as Escrituras explicitamente negam esta premissa. Todas as coisas operam juntas para o bem, não de todas as criaturas, mas apenas daqueles que foram chamados segundo o Seu propósito.

Encontrar solução para o problema do mal é uma questão de adotar o ponto de partida correto. Com a Bíblia como nosso ponto de partida axiomático, a existência do mal não é, de modo algum, um problema significante. Na realidade, a existência do mal é um assunto bem mais problemático na visão do não crente. Sem um padrão coerente de certo e errado, bem e mal, como pode alguém definir o mal? O problema do mal não pode ser coerentemente resolvido em terrenos não-cristãos. Apenas em terrenos cristãos e com fundamentos cristãos, i.e., as Escrituras, pode-se explicar o propósito do mal no mundo. 

Finalmente, uma teodicéia bíblica sustenta, como afirma a Confissão de Fé de Westminster, que tudo que Deus decreta e providencialmente faz acontecer é “para louvar a Sua gloriosa graça...para a Sua própria glória”. Robert Reymond observa corretamente que “a visão de todas as Escrituras é que o propósito supralapsariano de Deus, ao criar o mundo, era que Ele fosse glorificado (Is 43:7,21; Ef 1:6-14) através da glorificação do Seu Filho, como o primogênito entre os irmãos (Rm 8:29) e o Senhor da Sua igreja (Fl 2:11; Cl 1:18). A raison d’être [razão de ser] da criação é, portanto, servir aos propósitos redentores de Deus”.[13]

Desse modo, é logicamente consistente que a Queda da humanidade tenha ocorrido, em última instância, para que Deus seja glorificado através da glorificação de Seu Filho. Ou seja, a Sua predeterminação da Queda, como a Sua ação providencial no sentido de torná-la realidade, foram necessários. Deus os planejou para a Sua própria glória. Em Rm 5:12-19, o apóstolo Paulo toca neste ponto. Ali nós lemos que Adão e Cristo são as cabeças capitais de duas espécies de pacto. Torna-se necessário postular que, se Adão tivesse passado com sucesso na sua provação no Jardim (ou seja, o pacto das obras), ele teria sido confirmado por Deus na sua retidão positiva. Ele teria passado do estado de posse pecare (possível de pecar) para o estado de non posse pecare (não possível de pecar). A retidão de Adão seria então imputada a todos os seus descendentes (ou seja, a toda a raça humana). E toda a raça humana olharia agradecida a ele, e não a Cristo, o Salvador. Para toda a eternidade, Deus então repartiria Sua glória com a Sua criatura: Adão. Ironicamente, a obediência de Adão conduziria à idolatria. Desse modo, este mundo alternativo é logicamente impossível. Apenas o mundo atual, em que ocorreu a Queda do homem, é logicamente possível e resulta na glória única de Deus. Tivesse Adão obedecido, não haveria papel para Jesus Cristo como o “o primogênito entre os muitos irmãos” e o Senhor da Sua igreja. E o Pai não receberia a glória pela Sua obra através do Filho.

Parece, assim, que a visão supralapsariana do propósito da criação está de acordo com a perspectiva de muitos puritanos, que referiam-se ao evento descrito em Gênesis 3 como “a afortunada Queda”. Não apenas trata-se do único universo logicamente consistente em que o mal existe para os propósitos de Deus, como o povo de Deus se torna bem mais abençoado por causa da encarnação de Cristo do que ele poderia ser através de um Adão obediente.

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Notas:

[1] Faith and Reason (Zondervan, 1988), 177.
[2] Thomas B. Warren, Have Atheists Proved There is No God? (Gospel Advocate Co., 1972), vii.
[3] Philosophy of Religion (Harper and Row Publishers, 1957), 231.
[4] God and Evil (The Trinity Foundation, 1996), 7.
[5] Mesmo que o mal fosse ilusório (que não é), existiria ilusões que teriam de ser contabilizadas como ilusões do mal.
[6] Na realidade, o sistema filosófico chamado dualismo é um absurdo. Se houvesse duas divindades co-eternas e co-iguais, não poderíamos dizer que uma era boa e outra mal. Ou seja, sem um padrão superior para determinar o que é o bem e o que é mal, o bem e o mal não podem ser dito de qualquer coisa. Mas, se houver um padrão tão superior (isto é, algo acima das duas divindades), então não há dualidade final.
[7] Institutes of the Christian Religion. Translated by Ford Lewis Battles (Westminster, 1960), III:23:2.
[8] God and Evil, 9.
[9] Gordon H. Clark, First Corinthians (The Trinity Foundation, 1975, 1991), 156-157.
[10] Gordon H. Clark, What Do Presbyterians Believe? (Presbyterian and Reformed, 1956, 1965), 38.
[11] Cited in Gordon H. Clark, An Introduction to Christian Philosophy (The Trinity Foundation, 1993), 113-114.
[12] David Hume, Dialogues Concerning Natural Religion, in God and Evil, edited by Nelson Pike (Prentice Hall, 1964).
[13] Robert L. Reymond, God and Man in Holy Scripture (unpublished syllabus, Covenant Theological Seminary, 1990), 126, 127, 142.


Por W. Gary Crampton
Fonte: The Trinity Foundation

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